Cor, luz e otimismo para (re)descobrir entre as memórias do Trio Ternura

Lançado originalmente pela CBS em 1971 e reeditado este ano em formato de LP pela Groovie Records, o segundo álbum do grupo vocal brasileiro Trio Ternura é um bom exemplo dos tesouros a que as políticas de reedição podem dar novas vidas. Texto: Nuno Galopim

Uma viagem de re(descoberta) de memórias da música brasileira na viragem dos anos 60 para a década de 70 chegou-nos este ano através de uma reedição da Groovie Records. Editado em 1971, o segundo álbum do grupo vocal Trio Ternura evoca ecos de atenção do panorama pop/rock (e suas periferias) do Brasil de então para com o que editoras como a Stax ou a Motown (dois alicerces maiores na fundação da música soul) então colocavam em cena a partir dos EUA. O disco, que envolvia uma equipa de produção que incluía nomes como os de Raul Seixas (que assina a direção artística) ou Héclito Milito (do Tamba Trio), inclui faixas feitas de luz, calor e otimismo (mesmo quando se canta a melancolia) como Sol Quarenta Graus, Uma Sombra na Estrada ou Sempre Existe Alguém. Tesouro não necessariamente esquecido, mas até aqui talvez algo escondido (ou pelo menos difícil de encontrar) para muitos de nós, Trio Ternura abre novas frestas de atenção pela vastidão de caminhos que o entusiasmo e as políticas de reedição de pequenas editoras pode continuar a explorar.

“A ideia do nome e de lançar o trio foi do meu pai Humberto Silva, compositor muito influente no meio artístico”, recorda ao GiRA DiSCOS Jussara Silva, que em tempos integrou o Trio Ternura juntamente com os irmãos Jurema e Robson. Conta-nos que tiveram “influência do Trio Esperança, que tinha” a uma formação semelhante: “Eles tinham uma família de cantores”. Formado em finais dos anos 60, e com um primeiro disco lançado em 1968, o Trio Ternura era de facto uma aventura em família: “Nós sempre gravámos músicas de nosso pai, assim como algumas versões”, conta Jussara que acrescenta que, “depois de algum tempo”, lançaram “o Quinteto Ternura com a adição” de mais dois irmãos, Zé Roberto e Léo. O Quinteto Ternura esteve ativo de 1974 a 78 e juntou mais um álbum e vários novos singles à discografia do trio que, de 1968 a 74 editara já três LP e vários 45 rotações.

“Tivemos vários produtores, entre eles, Raul Seixas e Jairo Pires e nosso primeiro produtor foi Nilo Sérgio, presidente da gravadora Musidisc”, conta Jussara, que recorda ao GiRA DiSCOS que ensaiavam “em casa e logo em seguida” entravam “em estúdio para gravar”.

Vivia-se um tempo em que o programa ‘Jovem Guarda’ da TV Record teve uma importância cultural marcante entre uma nova geração de músicos brasileiros, gerando inclusivamente um movimento que tomou o seu nome. Jussara deixa, contudo, claro que o Trio Ternura não teve essa movimentação como influência: “Não participámos desse movimento e sim logo após nos festivais”, conta, sublinhando assim uma ligação com o panorama dos festivais de música que então marcaram igualmente a música popular brasileira. O panorama político de então não interferia com o trabalho do trio. Jussara explica: “Em se tirando de política não nos envolvíamos, porque éramos muito jovens e nosso pai ficava à frente de tudo”.

O tempo passou… E, quase meio século depois, Jussara conclui: “O mundo artístico mudou muito, vieram novas tecnologias apresentando novas ideias e versões. Olhamos com muito orgulho por termos feito um trabalho de categoria”. E de facto tem razão. O álbum é maravilhoso. O LP de 1971, simplesmente chamado Trio Ternura (tal como acontecera com o LP de 1968), é um exemplo de um notável trabalho vocal, de arranjos e produção. E tem uma capa que, pelo olhar, convida a escutar: “estamos de cabelo e roupa Black Power, na época era moda”, recorda Jussara.

“Trio Ternura”, do Trio Ternura, está disponível em nova edição em LP pela Groovie Records.

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