Bem acordados, agora, para ver e ouvir os ecos de uma obra que nasceu a pensar no sono

“Sleep”, documentário de Natalie Jones, permite-nos ter agora uma visão panorâmica sobre o conceito, a criação e a partilha em público da peça de oito horas que o compositor Max Richter criou ao explorar os domínios da nossa relação com o sono. Texto: Nuno Galopim

Estamos habituados à ideia de que alguém cria obras que, conscientemente (de forma mais racional ou emotiva, não importa), o outro pode contemplar através de um ou mais entre os sentidos. A sugestão de quem uma obra convida o espectador a adormecer como parte do seu quadro de objetivos pode por isso parecer, à partida, uma proposta estranha. Mas a ideia de Max Richter, que em Sleep apresenta uma obra de oito horas de duração, não é a de votar o seu trabalho a uma anulação da música perante o sono (desejado) do ouvinte. Mas antes criar uma música que pode ter nessa experiência uma das suas possíveis leituras (na verdade sendo o sono uma decisão opcional), entre elas uma reflexão da própria forma de pensar as normas e condutas éticas da música ao vivo, sobretudo em terreno clássico e um desejo em contrariar os ritmos frenéticos pelos quais muitos de nós, sobretudo os que vivem em grandes cidades, fazem o seu dia.

Sleep existe em várias versões distintas. Uma de oito horas, que chegou a ser executada ao vivo, de fio a pavio, em espaços nos quais houve camas em vez de cadeiras, em noites de música das 00.00 às 08.00, tendo o espectador a liberdade para ouvir ou adormecer… Uma gravação integral desta mesma versão “integral” da obra pode ser encontrada tanto numa caxa de 8CD como em plataformas de streaming. Em disco surgiu também uma seleção apresentada sob o título From Sleep, na forma de CD ou de álbum duplo em vinil. Mais adiante surgiu uma aplicação que explora algumas das potencialidades desta mesma música.

Há uns tempos, em conversa com o próprio Max Richter, ele mesmo explicava que “as duas versões” em disco, “a de oito horas e a de uma hora, estão apontadas a experiências distintas”. O compositor pensou a de uma hora “para um relacionamento consciente, ou seja, a audição”, e essa experiência “envolve uma componente analítica, porque ao escutarmos a música acabamos a fazer julgamentos sobre ela, podemos dialogar com esse material mentalmente”. Já a versão de oito horas “sugere mais o habitar de uma paisagem e supostamente serve para cenário do ato de dormir”. A relação com o material aí “não é analítica”, conclui.

Uma obra com as características de Sleep, no ponto de vista da relação com a duração (ou seja, o tempo), pode evocar algumas experiências experimentais que cruzaram os palcos do teatro e o trabalho de alguns músicos nos anos 60 e 70, com a ópera de Philip Glass e Robert Wilson Einstein on The Beach como um possível exemplo desse mesmo universo. Max Richter reconhece esse possível relacionamento e confirma um interesse “nessa ideia de uma música que contém espaço e duração na qual o ouvinte pode refletir enquanto ela ainda está a decorrer”. Que no fundo é o que aqui acontece, na experiência total, de oito horas, quando apresentada ao vivo.

Outra das possíveis fontes de inspiração, ou pelo menos, material de reflexão para chegar a esta experiência de composição conduz-nos à obra de Brian Eno, em particular a caminhos que ele mesmo começou a explorar em 1975 no álbum Discreet Music. O compositor reconhece que “o material que estrutura e permite este tipo de experiências partilha algumas características comuns a arquitetura de outras obras, como por exemplo o Discreet Music”. Essa obra, de que muito gosta (como ele mesmo confirmou), “é feita de quatro ou cinco fragmentos melódicos que se entrecruzam, e nesse sentido gera um ambiente de pouca informação”. Ao ouvirmos os três primeiros minutos de Discreet Music, explica-nos, “ficamos com uma boa ideia do que vai ser a peça e corresponde ao que pensamos”. E esse principio “de ter um ambiente de pouca informação” é na verdade o que lhe interessou mais explorar em Sleep, “porque permite essa ideia de diálogo da nossa parte com a música enquanto ela decorre”.

E aqui entramos na medula das ideias que ajudaram a estruturar uma obra para cordas, teclados (piano e electrónicas) e uma cantora, e que faz um claro uso da repetição. A repetição, de resto, “faz-nos regressar à ideia da exploração da informação”. Max Richter recorda que “o que nos mantém acordado é a vontade de reagir à informação nova”. Se usar a repetição “cria-se a sugestão de que não há nova informação”. Ou seja, “estamos a repetir os mesmos momentos e a sentir que estamos quase parados, que nada está a acontecer”. O compositor lembra ainda que estas características habitavam “alguma da música minimalista mais rigorosa, em finais dos anos 60 e inícios dos anos 70”, De resto, a ideia “do objeto estar a pairar à nossa frente, que se transforma lentamente, mas parece afinal ser o mesmo” traduz o que mais o cativa no uso da repetição. Sleep é uma peça cíclica: “Na verdade é um conjunto de variações” e “por isso sugere a ideia de uma progressão através dessa série de repetições”… No sono, como sabemos, “temos fases diferentes”. Aqui deixa claro que, não estabeleceu relações “unívocas entre essas fases e a música, até porque cada ser humano é único”. Fez por isso “mais uma resposta criativa a essa ideia de progressão por fases”.

E depois há a experiência, diferente para cada um, que cabe a quem escutar Sleep. A seleção de uma hora alterna soluções instrumentais, dos terrenos de uma música de câmara repetitiva sob ecos de uma alma romântica mas estruturando o uso da a repetição segundo heranças do minimalismo (Dream 3 ou Path 19) aos domínios mais próximos de uma música planante à la Eno (Space 11 ou Space 21) ou até mesmo experimentando espaços do minimalismo religioso com afinidade para com os já vividos por um Pärt ou Gorécki, sobretudo na sua relação com a presença da voz humana e uma clara vontade em caminhar nas periferias do silêncio (Path 5). Apesar do focar das formas em todo um programa de ideias bem estruturado e adaptado aos fins em vista, não estamos afinal longe do que tem sido a medula da obra de Max Richter, sobretudo a que tem apresentado nos discos que, desde 2001 (com Memoryhouse), tem vindo a apresentar em nome próprio. Assimilando o classicismo ocidental, as lições dos minimalistas e as sugestões da ambiente music, Max Richter continua aqui a ajudar a encontrar os caminhos para a música do século XXI.

Projeto com alicerces conceptuais bem antigos na história pessoal de Max Richter, Sleep conhece agora um capítulo que pode servir para abarcar todas estas realidades e experiências, concentrando-as no formato de um documentário. Com realização de Natalie Johns, Sleep usa uma montagem em paralelo de várias apresentações ao vivo desta obra monumental para, entre a progressão da música e a sensação do passar das horas, observar não apenas as reações das plateias (uns dormem, outros estão sentados, outros levantam-se e caminham um pouco) mas também o evidente esforço e concentração dos músicos em palco. Estas imagens foram captadas durante a “digressão” que a música de Sleep fez por cidades tão diferentes como Londres, Los Angeles ou Sidney, tendo sido captadas por Yulia Mahr, a companheira do próprio compositor. Entre as imagens e os sons encontramos janelas que nos colocam perante a explicação do conceito, a génese da ideia e até mesmo um resumido retrato da vida, personalidade e obra do compositor. Ao contrário da música, as imagens (e os sons e as palavras) de Sleep, o filme, mantém-nos atentos num olhar tranquilo, mas esclaerecedor, sobre uma obra que, o tempo o dirá, poderá ser um dia lembrada como uma tentativa de contrariar os tempos acelerados em que a humanidade hoje vive o seu quotidiano. Porque essa ideia, na essência, é a que habita o coração desta música.

“Sleep”, filme de Natalie Johns, está disponível numa edição em DVD e Blu-Ray pela Dogwoof. AS edições incluem como extra uma entrevista conjunta com Max Richter e Yulia Mahr.

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