Duo Ouro Negro “Mulowa Afrika” (1967)

Editado em 1967 o álbum “Mulowa Afrika” correspondeu à primeira criação de raiz do Duo Ouro Negro para o formato de LP. Ecos de tradições angolanas e a cultura ocidental da época cruzam-se num disco magnífico que merecia ter outra visibilidade. Texto: Nuno Galopim

Este texto é o décimo de uma série abordagens a álbuns da música portuguesa que ou estão ainda guardados apenas na memória do vinil ou não costumam ser apontados como os títulos de referência dos respetivos autores ou até são por vezes ignorados em listagens dos mais representativos do seu tempo ou que aguardam (justificada) reedição… Todos eles são discos a ter em conta para contar as histórias de quem os fez e do período em que foram gravados e editados. Este foi, em 1967, o primeiro álbum do Duo Ouro Negro, correspondendo a uma segunda edição do grupo no suporte de 33 rotações (a primeira tendo sido uma compilação lançada em 1966). O disco abriu importantes pontes de diálogo entre ecos de tradições angolanas e a cultura ocidental da segunda metade dos anos 60 e conheceu edições internacionais, com outros títulos e capas, em outros países. Ainda em 1967 saiu em França como Afrika. Em 1968 teve edição em Israel e no Brasil, respeitando o título original, mas, no caso da edição israelita, com grafismo diferente na capa. Em 1969 o disco teve lançamento nos EUA como The Music of Afrika Today, e aí com uma capa em sintonia com movimentações contemporâneas da cultura afro-americana (que por sua vez seria determinante para levar o Duo Ouro Negro ao seu Blackground).

Raul Indipwo (Raul Aires Cruz) e Milo MacMahon (Emílio Vitória Pereira) conheceram-se em Vila Carmona (atual Uíge), em 1956, encontram o nome por sugestão de uma locutora de rádio local e, depois de uma atuação no Cinema Restauração, em Luanda, chamam a atenção de um empresário que os leva pela primeira vez em Lisboa. Depois de ouvidos a tocar no Cinema Roma, ainda em 1959, estreiam-se em disco no formato de EP, gravados por Hugo Ribeiro (que assistira ao concerto e comunicara à editora o entusiasmo) e acompanhados pelo grupo do brasileiro Sivuca. De uma fase inicialmente vivida a dois e originalmente focada no folclore angolano, o Duo Ouro Negro conheceu uma etapa em trio na qual assinou apenas como Ouro Negro, editando mais alguns EP. De uma separação do trio e de um breve interregno o reencontro faz-se novamente no pequeno formato a 45 rotações em EP nos quais gravam com a companhia do Conjunto Mistério. É já na segunda metade dos anos 60 que pela primeira vez editam um álbum, mas O Espetáculo É Ouro Negro, de 1966, é uma compilação de material inicialmente lançado em EP. De facto, esse é o formato mais marcante na obra do Duo Ouro Negro (e não só no panorama musical do mundo português) até que chega 1967, o ano em que gravam o seu primeiro álbum. Tinham já 15 EP editados quando o ano começa, aos discos juntando reconhecimento e sucesso. Mulowa Africa iria, pouco depois, levar o Duo Ouro Negro a outros patamares.

As versões de êxitos da altura (incluindo os Beatles) e as ligações ao Conjunto Mistério e ao ensemble de Thilo Krasmann, abrem caminhos de diálogo entre as suas heranças angolanas e formas em voga na cultura jovem ocidental de então, e já com apetites internacionais entretanto despertos em canções e discos (uma vez mais EP) que levaram a kwela (uma dança sul-africana) sobretudo a França, em meados dos anos 60. Ecos da cultura angolana estão, como acontecera logo nos primeiros EPs de 1959, na raiz das ideias que aqui mostram um Duo Ouro Negro entregue a um desafio algo diferente da sua faceta mais popular que, na mesma segunda metade dos anos 60, os viu a concorrer por várias vezes ao Festival da Canção ou a assinar êxitos populares, entre os quais o “clássico” Maria Rita (de 1968). Mulowa Africa assinalava, antes, um foco exploratório de diálogo entre origens e os novos mundos ao seu redor. Instrumentos tradicionais como o kissange ou a katxakata vincam as marcas de identidade que provém não apenas da música mas também das temáticas e cenografias definidas para cada canção. Na contracapa os instrumentos são devidamente apresentados, sendo referido o kissange como um “instrumento musical antigo usado pelos indígenas africanos, e é constituído por uma base em madeira de pau santo, uma barra com varetas de aço e uma cabaça que serve de caixa de ressonância. Toca-se com os dedos polegares e indicadores e a katxakata, como um outro que tem origem num “fruto africano chamado maboke no qual depois de dissecado são introduzidas sementes de toka”, acrescentando que “tem o tamanho de uma bola vulgar de golf e é jogado de uma mão para a outra, conforme o ritmo”.

A presença da cultura ocidental surge aqui ora na forma de heranças religiosas (no Kyrie que abre o alinhamento), nos ângulos de abordagem instrumentais auxiliados pelo contrabaixo de Thilo Krasmann – juntamente com António Bastos (bateria), Gualdino Barros (percussão), José Luis Simões (guitarra portuguesa) e o coro feminino da Emissora Nacional –  ou até pela ideia de criar uma “opereta africana”, assinada por Raul, que ganhou forma num programa da RTP e representou depois a televisão portuguesa no Festival de Milão. Iliza (Gomara Saiá) fixa no alinhamento de Mulowa Africa uma primeira memória desse programa especial que seria transmitido em 1968 com o título Rua d’Eliza e no qual, além do Duo Ouro Negro, participam os Sheiks e Lili Tchiumba.

Além das composições, das vozes e dos instrumentos, o trabalho em estúdio refletiu também um interesse pela moldagem das ideias num plano de complexidade maior, acrescentando camadas de acontecimentos ao que seria uma mera captação “realista” das interpretações. Na contracapa um texto explica: “Os artistas do Duo Ouro Negro gravaram várias vezes, sobrepondo as suas vozes para obter um coral masculino. Regravando também em sobreposição os instrumentos de percussão”.

Mulowa Africa reativaria uma atenção direcionada sobre ecos das culturas musicais angolanas, precedendo assim (embora num contexto em volta um tanto diferente), o que o grupo viria a aprofundar poucos anos depois no mítico Blackground, ligação que o próprio Raul Indipwo refere depois num texto na contracapa de uma reedição do álbum, em 1974. E nessa mesma ocasião ele mesmo acrescenta: “ ficámos, (…) satisfeitos com o trabalho, com o melhor disco que até então fizéramos”.  E depois, notando a carreira internacional conquistada pelo disco (que teve edições locais no Brasil, França, Estados Unidos e Israel, em alguns casos com capas diferentes e títulos alternativos), Raul reconhece: “não ficámos surpreendidos, por termos a consciência do valor que esse disco representava, não só para nós Ouro Negro, como para a música de Angola”. Estranho mesmo, apesar das reedições portuguesas (com capas diferentes) em 1974 e 1982, é o facto de este disco nunca ter conhecido (até hoje) qualquer edição em CD e não estar disponível nas plataformas de streaming.

Estas são as capas das reedições portuguesas de 1974 e 1982. A primeira já alcança valores consideráveis no mercado do colecionismo.

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