Frankie Goes To Hollywood: ascensão e queda de um sonho pop

Novas reedições dos álbuns “Welcome To The Pleasuredome” e “Liverpool” e da compilação “Bang!” devolvem-nos as canções de uma banda que viveu momentos épicos de som e popularidade e que, depois, afundou logo a seguir. Texto: Nuno Galopim

Há bandas e músicos que ficam na história da música pop com apenas uma canção. Mas também há quem tenha conquistado o seu lugar pela força de um álbum. É verdade que editaram um segundo longa duração em 1986, do qual surgiram três singles, dois deles ainda com considerável visibilidade. Mas é pelos feitos de Welcome To The Pleasuredome que hoje recordamos os Frankie Goes To Hollywood. Nascidos na Liverpool de inícios de 80, foram (juntamente com os Art Of Noise e Propaganda) um nome central no lançamento da ZTT Records, a editora que deu voz (e som) a uma visão pop concebida por Trevor Horn (uma das metades dos Buggles).

Berço dos Beatles, Liverpool tinha respirado uma nova temporada de agitação em finais dos anos 70, em plena ressaca do punk. Com o Eric’s como epicentro, entraram então em cena nomes como os Teardrop Explodes, Echo & The Bunnymen, Wah, Dead or Alive, OMD… Contudo, a banda da cidade de que mais se falaria na década de 80 não era então mais que uma discreta aventura local e encontrava nome num texto sobre Frank Sinatra numa edição da New Yorker, onde se lia “Frankie Goes To Hollywood”…


Ninguém deu por eles nos primeiros anos em que por ali tocavam como um simples grupo local. E vários foram até os “nãos” que ouviram de algumas editoras… Em finais de 1982, o DJ da BBC John Peel convidou-os para uma sessão, na qual registaram, entre outras, canções como Two Tribes e Relax. Em inícios de 1983 fariam ali uma segunda sessão. Ainda sem um acordo com qualquer editora foram por esses dias chamados a tocar na televisão, no programa The Tube. Trevor Horn (ex-Buggles), que acabara de fundar uma editora, desafiou-os a juntar-se à ZTT Records. E tudo ganhou fôlego…

A gravação do primeiro single gerou primeiros focos de tensão. Holly Johnson, o vocalista, recordaria mais tarde na sua autobiografia (A Bone In My Flute, 1994), que Trevor Horn não só afastou a própria banda do estúdio como criou então uma nova base mais eletrónica para as canções. Além de Holly Johnson o grupo envolvia Peter Gill (bateria), Mark O’Toole (baixo) e Brian Nash (guitarra), conhecidos como The Lads, e ainda Paul Rutherford, uma segunda voz.

Paul Morley, jornalista musical e outro dos fundadores da ZTT, desenhou, entretanto, uma estratégia de comunicação para o lançamento para o grupo através de anúncios de imprensa com frases bombásticas. também Morley quem criou o slogan “Frankie Say… Relax”, que acabaria por ser transportado para uma linha de merchandising. Convém aqui sublinhar, uma vez mais, que nem todas estas decisões e criações geraram uma unanimidade entre os elementos do grupo. E Johnson acabaria por contestar o modo como a editora chamou a si a responsabilidade pelo fenómeno de sucesso que pouco depois ganharia forma. A verdade é que a ideia que coordenou o lançamento da banda foi, juntamente com a força da música, um jogo ganhador. 

Editado em single em 1983 Relax revelou discograficamente o grupo, juntando uma dinâmica hi-nrg a uma moldura pop grandiosa (gerando ao mesmo tempo um “caso” mediático de comichão puritana que virou o feitiço contra o feiticeiro, chamando ainda mais atenções para a canção). Seguiram-se Two Tribes, uma sinfonia pop em tempo de terror nuclear (com um teledisco mostrando Reagan e Chernenko em cenas de luta numa arena). E, meses depois, The Power Of Love, uma balada eloquente com acompanhamento orquestral e um teledisco que a inscreveu no cânone das grandes canções de Natal…

E assim, com três poderosos cartões de visita, o álbum Welcome To The Pleasuredome revelou, em finais de 1984, a confirmação das expectativas entretanto lançadas. Hedonismo e sarcasmo ao serviço de um encontro entre a vitalidade de heranças rock’n’roll, o apelo melodista da pop, a dinâmica da música de dança e, last but not least, a meticulosa produção com assinatura Trevor Horn (mais o complemento agit prop assinado por Paul Morley cujos textos e slogans são ainda parte marcante nesta aventura). Deu brado na altura o modo como o produtor moldou o disco, vincando a demanda de uma visão que tem afinal muito de um ideal pop que ele mesmo então procurava. E entre as contribuições solicitadas por Trevor Horn para ir além do som original dos Frankie Goes To Hollywood, estão as de nomes como Luís Jardim (percussão), Anne Dudley e JJ Jeczalik (dos Art of Noise) ou Steve Howe (dos Yes). Welcome To The Pleasurdome é um épico com aquele raro fulgor de um disco que fixa na sua história e canções as marcas do seu tempo. E mesmo sabida a intervenção de grande protagonismo do produtor, ao grupo cabe necessariamente também um papel que deve ser respeitado nesta história.

Ao impacte de Welcome To The Pleasurdome seguiu-se a estrada. Mas, chegados a 1986, os Frankie Goes To Hollywood não eram já a equipa unida que trabalhara no disco de estreia. As sombras de uma possível separação devem, de resto, datar já do período em que trabalhavam naquele que seria o seu segundo e último álbum de originais e que seria antecedido por Rage Hard, single que reforçava uma relação com um som mais musculado e com raízes mais próximas do rock do que da atmosfera pop de cuidado design que se escutara em Welcome To The Pleasuredome

Liverpool (o título do álbum prestava homenagem à cidade natal do grupo) acabaria por seguir por caminhos não muito distantes dos que o single sugerira, apesar de pontualmente a composição, bem como a produção (desta vez a cargo de Steve Lipson), procurar pontes diretas face às experiências vividas no bem mais marcante (e mais interessante) disco de estreia. Warriors Of The Wastelands, segundo single extraído do álbum (e tema de abertura do seu alinhamento) é talvez a mais evidente das canções de Liverpool por onde se projetam diretamente as experiências do álbum de estreia, do carácter ambiental do prólogo ao carácter épico que se revela adiante. Este foi, de resto, um dos raros momentos em Liverpool onde a alma anterior do grupo parecia ainda intacta e capaz de surpreender. Com interesse apenas histórico, Liverpool é o retrato de uma banda que, depois de um primeiro episódio de exceção, deu por si encurralada num inesperado beco, dali não sabendo sair…

O lote de reedições inclui ainda Bang!, uma antologia de êxitos originalmente editada em CD em 1993. O alinhamento inclui todos os singles que o grupo lançou entre 1983 e 1986, juntando ainda alguns momentos dois dois álbuns de originais, entre eles as versões de Born To Run (original de Bruce Springsteen) e de Ferry Cross The Mersey (imortalizada pelos Gerry & The Pacemakers).

“Welcome To The Pleasuredome” (2LP), “Liverpool” (LP) e “Bang!” (2LP)  estão novamente disponíveis em reedições em vinil pela Universal.

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