Os melhores discos de 2020 (1. Internacional)

Começo hoje a apresentar as listas dos melhores de 2020. Listas e mais listas, apresentadas por ordem alfabética. Ou seja, há um título em destaque em cada lista, mas os restantes discos e canções valem, ex-aequo, como uma família de acontecimentos que fala em comum para fazer o retrato de um ano de discos. Hoje focamo-nos em discos novos surgidos este ano desde os espaços do pop/rock e da música eletrónica até aos domínios do jazz e da “clássica”. Há um concerto em destaque. E uma playlist no final do post… Textos e escolhas: Nuno Galopim

POP/ROCK: Nick Cave “Idiot Prayer”

Quando me perguntam qual foi o melhor disco de 2020 a resposta na verdade poderá ser uma mão-cheia de títulos. É que não faltaram grandes discos num ano em que tantas outras coisas estiveram em falta… Mas se em vez de “o melhor” me perguntarem sobre o que mais pode representar o que foi o ano que passou, então a resposta pode ser facilmente reduzida a um só discos (e que corresponde também um dos melhores que escutei este ano): Idiot Prayer, de Nick Cave. Podemos encará-lo como a gravação de um recital para voz e piano. E também como a banda sonora para o filme com o mesmo título. Mas além disso é também um retrato do que foi um ano feito de afastamento, de confinamento, de partilhas feitas à distância. E, tudo isto sem esquecer o que está na base de tudo: uma belíssima coleção de canções e uma série de maravilhosas reinvenções de todas elas para apenas voz e piano. A tal solidão não silenciosa que caracterizou a alma deste ano, acaba assim por estar ali retratada.  

Quando, daqui a uns anos, alguém procurar como ficou fixada a memória de 2020, entre as peças a chamar estará este Idiot Prayer de Nick Cave (o filme e o disco). Mais do que o facto de ter começado por ser uma transmissão online de uma atuação a solo (feita na noite de dia 23 de julho), a solidão de uma vasta sala de espetáculos sem mais ninguém além de Nick Cave (senão a equipa que captava imagens e som), onde o silêncio irrompia ao fim de cada da canção, traduzia a extrema solidão que um tempo de distanciamento físico (que não é exatamente sinónimo do “distanciamento social”) inscreverá numa etapa difícil, e pelos vistos, longa, das nossas vidas.

Num ano de muitos discos (e tempo passado em casa para os escutar), aqui fica uma lista dos 20 títulos de pop, rock (muito pouco rock por aqui, é verdade), indie e periferias, que mais gostei de escutar este ano. Um deles é “Idiot Prayer” de Nick Cave. Os restantes 19 são estes:

Agnes Obel “Myopia”

Bob Dylan “Rough and Rowdy Ways”

Cold Beat “Mother”

Destroyer “Have We Met”

Discovery Zone “Remote Control”

Dua Lipa “Future Nostalgia”

Einstürzende Neubauten “Alles in Allem”

Erasure “Neon”

Fassine “Forge”

Grimes “Miss Anthropocene”

Gabriel Garzon Montano “Agüita”

Owen Pallett “Island”

Paul Weller “On Sunset”

Perfume Genius “Set My Heart on Fire Immediately”

Roisin Murphy “Roisin Machine”

Rufus Wainwright “Unfollow The Rules”

Sparks “A Steady Drip, Drip, Drip”

Sufjan Stevens “The Ascension”

Yello “Point”

CANÇÕES: Bob Dylan “Murder Most Fowl”

Apesar da multidão de acontecimentos que deram que falar nos dias de confinamento mais “apertado”, com a saúde pública a chamar naturalmente as atenções, houve um episódio exterior a esse universo que não passou despercebido. Tinha por título Murder Most Fowl e, numa canção de 17 minutos diferente de tudo o que nos tinha mostrado atá aqui, Bob Dylan usava a evocação do assassinato de John F. Kennedy para nos falar, acima de tudo, da América (e do mundo) do presente. Mais do que uma canção, era quase como uma encenação de um texto. Como uma peça de teatro… Entre o falado e o cantado, com a música presente, mas ciente de que fazia ali a cenografia necessária para que as palavras pudessem ressoar… Era a primeira nova canção original que Dylan nos dava a escutar desde que, em 2016, fora (justamente) agraciado com o Prémio Nobel da Literatura. Era também a primeira canção de sua autoria que nos dava a ouvir desde que em 2012 editara o álbum Tempest já que, desde então, a sua discografia juntou três (magníficos) álbuns com versões de canções do songbook americano e seis novos volumes da Bootleg Series. Murder Most Fowl anunciava um novo álbum. E poucos discos ao longo dos tempos terão conhecido um aperitivo tão nutritivo e promissor quanto este.

E além da canção de Bob Dylan, o meu top 10 de 2020 inclui ainda (por ordem alfabética):

Daði Freyr “Think About Things”

Danny Elfman “Happy”

Dua Lipa “Break My Heart”

Fassine “Max”

Garzon Gabriel Montano “Fields”

Go-A “Solovey”

Michael Stipe “Drive To The Ocean”

Moses Sumney “Me in 20 Years”

Roisin Murphy “Kingdom of Ends”

ELECTRÓNICA: Mabe Fratti “Pies Sobre La Tierra”

Juntar violoncelo com canto e música eletrónica não é necessariamente uma ideia inédita. E imediatamente podemos dar por nós a pensar em Arthur Russell como um exemplo de perfeita coexistência entre essas três “vozes”… Mabe Fratti pode partilhar com Arthur Russell essas três frentes de exploração para a música. Mas na verdade o que nos propõe esta compositora natural da Guatemala e atualmente a viver na Cidade do México é algo completamente diferente. Ambos partilham, contudo, a vontade de expressar pela música uma pulsão autoral que, de certa forma, os relaciona (a ambos) com os universos nos quais a sua música ganha forma. Em Arthur Russell (1951-1992) cruzavam-se as visões de um explorador com ecos das paisagens ao seu redor (as de uma Nova Iorque que descobria novas músicas nos anos 70 e 80 e, antes mesmo, as marcas das vivências rurais da sua infância). E, Mabe Fratti reconhecemos sobretudo o sentido de liberdade (também com gosto exploratório) de alguém que dialoga com os universos das artes que surgem na comunidade ao seu redor. E pela sua música sentem-se afinidades com os espaços e linguagens das artes visuais e performativas, traduzindo afinal os terrenos de labor e colaboração que ela mesmo tem vindo a desenvolver na cidade que escolheu para ser a sua casa.

Além deste disco, a dista dos dez mais nesta área inclui (por ordem alfabética):

Caribou “Suddenly”

Cucina Povera “Tyyni”

Julianna Barwick “Healing is a Miracle”

Michal Jacaszek “Music For Film”

Molero “Ficciones del Tropico”

Nyx Nott “Aux Pieds de La Nuit”

Oneothrix Point Never “Magic Oneothrix Point Never”

Pantha du Prince “Conference of Trees”

Sunda Arc “Tides”

JAZZ: Brad Mehldau “Suite April 2020”

O confinamento que o mundo viveu na primavera fechou Brad Mehldau em casa, na Holanda, juntamente com a sua família. Das vivências, reflexões e sensações nasceu uma suite para piano solo a que chamou “Suite: April 2020” e que se apresentou assim como um dos primeiros retratos deste ano inesperado que estamos a viver fixado na forma de um disco. O álbum, gravado num estúdio em Amesterdão pouco depois de terminada a composição, conheceu uma primeira edição limitada, numerada e assinada, cujas vendas reverteram em favor de um fundo de emergência criado pela Jazz Foundation of America (JFA). Além do próprio Brad Mehldau muitos outros contribuíram para que essa primeira edição especial fosse possível sem custos. O vinil foi oferecido, a fábrica holandesa que fez as prensagens não cobrou pelos serviços, tal como a Copenhagen Vinyl que assegurou a distribuição. A capa, criada por Barbara DeWilde, foi igualmente um donativo. E a edição “comercial”, agora disponível, reserva ainda os direitos recolhidos recolhidos para a JFA.

Além deste disco, uma seleção de cinco títulos de jazz inclui (por ordem alfabética):

Aaron Parks “Little Big II: Dreams of a Mechanical Man”

Moses Boyd “Dark Matter”

Nubya Garcia “Source”

Tenderlonious “Quarentena”

CLÁSSICA: Nick Cave / Nicholas Lens “Litanies”

Nick Cave surge associado a dois títulos que traduzem os dias de confinamento que vivemos este ano. O primeiro deles, Idiot Prayer, é referido mais acima. O outro apresenta uma ópera do compositor Nicolas Lens para a qual Nick Cave assinou o libreto que juntou poemas através dos quais traçou uma linha narrativa que envolve “o nascimento, o despontar, a fraturação e o renascimento de um ser humano”, e lança “petições a uma entidade divina, solicitando um reconhecimento cósmico”. Às palavras de Nick Cave juntam-se, em L.I.T.A.N.I.E.S, a música de Nicolas Lens, que sublinha e eleva a um patamar de beleza maior estas 12 litanias. Uma música discreta e algo minimalista, melancólica, mas não assombrada, mais suave do que tensa, mais tranquila do que intensa, interpretada por um pequeno ensemble com madeiras, metais, cordas, harpa, percussão e piano, envolvendo depois as vozes de Clara-Lane Lens, Denzil Delaere, Claron McFaddeen e Nicholas Lens Noorenbergh. A gravação decorreu num momento em que o confinamento mantinha os estúdios fechados, pelo que Nicolas Lens gravou músicos e vozes em sua casa, terminando depois os trabalhos de mistura já em estúdio.

Além deste disco, o meu Top 5 nesta área inclui ainda (por ordem alfabética):

Arc Ensemble “Kaufman: Chamber Works”

Berliner Philarmoniker / Simon Rattle “Sibelius – Symphonies 1-7”

Fabrice Bollon “Your Voice out of the Lamb”

John Adams “Why The Devil Has all The Best Tunes”

O CONCERTO: Madonna (Coliseu dos Recreios)

“Os artistas estão aqui para perturbar a paz”… A frase, de James Baldwin, foi citada mais do que uma vez durante o espetáculo que Madonna levou durante algumas noites ao Coliseu dos Recreios (em Lisboa, a sua “segunda casa” como ela mesma então caracterizou). As palavras surgiram, lidas ao som de batidas de uma máquina de escrever, logo no início do espetáculo, regressando perto do final. E a meio, numa das várias sequências de conversa que estabelece com uma plateia – que a vê olhos nos olhos, sem ter de olhar para grandes ecrãs – deixa claro que essa perturbação não visa senão lutar pela paz no mundo. A nota, claramente política, sustenta toda uma construção que está mais perto de uma encenação teatral do que do mais clássico concerto pop. De resto, ao optar por salas mais pequenas do que o habitual, Madonna trocou a exuberância pela acutilância. E o modo como o palco se mostrou e transformou – com módulos físicos que se movem e readaptam, transformando-se pela ajuda também de projeções vídeo – tem na verdade mais afinidade com o que habitualmente vemos na ópera do que com os mecanismos cénicos mais frequentemente usados pela música pop. E tal como numa ópera, Madonna usa aqui a música para nos contar histórias.

E para revisitar agora muitas destas edições e canções aqui referidas, fica aqui uma playlist…

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