Um abraço de despedida a Carlos do Carmo

Uma das figuras mais marcantes e presentes na história do fado e da música portuguesa em geral, não apenas pelo que assinou ao longo de toda a sua obra, mas também pela constante luta pela defesa de um património coletivo e por uma rara capacidade em usar o dom da palavra para perpetuar as histórias das vivências que partilhou, dos ensinamentos de colheu, das próprias memórias dos muitos com quem se cruzou.

Tratou-me sempre por “menino”. E era-o, ao lado de alguém que aprendi a ter por perto desde pequeno. A minha tia Teresa, que gosta de fado, tinha-o como uma referência. Tinha discos seus (que entretanto estão hoje comigo). A minha mãe, que nunca gostou de fado, sempre o apontou como uma exceção. Do Carlos do Carmo, gosta. Cresci assim como se fosse uma presença próxima. Quase familiar. Curiosamente, anos mais tarde, quando (pela profissão) a sua presença se tornou mais próxima ainda, e mais regular, nunca havia conversa nossa sem que o Carlos perguntasse pelo meu pai e enviasse os melhores cumprimentos à família. E depois, no fim, com um abraço terno (sempre), lá se despedia deste “menino”…

Quando comecei a trabalhar entre a rádio e os jornais cedo senti nele um respeito maior pelo labor dos jornalistas e dos profissionais da comunicação. Lia-nos e comentava. Estava atento… Sempre atento. Tive, contudo, a sorte de ter chegado a privar com ele para lá dos momentos das entrevistas (estas, invariavelmente, na sala de sua casa, ao lado do escritório) e de conhecer assim não só o brilhante comunicador mas também o homem positivo, inteligente e bem disposto, de sorriso sempre pronto a desenhar-se no seu rosto. Com uma piada pronta a ser contada… De resto, na última ocasião em que o vi – quando com a equipa da Inovação da RTP estivemos em sua casa para gravar a entrevista para o episódio a ele dedicado da série “Vejam Bem” – foi precisamente esse bom humor que ditou o ambiente (com alguns momentos de risada entre todos que, afinal, eram um mood característico seu).

Apesar destas palavras de teor mais particular – e não estou aqui a redigir um obituário do Carlos do Carmo, mas sim apenas a partilhar algumas memórias – convém não deixar de sublinhar que o devemos encarar como uma das mais importantes forças na modernização das linguagens do fado. Das ousadias nos arranjos das canções – coisa que deu brado e eriçou os mais conservadores –  ao modo “à Sinatra” de estar em palco, sem esquecer o gosto em cruzar outras músicas (fez versões dos Beatles e de Brel, cantou com Pedro Abrunhosa, Sérgio Godinho, Paulo de Carvalho ou José Cid, gravou com Bernardo Sassetti e Maria João Pires), a constante procura de novos poetas para o fado ou uma rara capacidade em comunicar com plateias de outras geografias (o domínio de várias línguas dava-lhe esse dom), a sua obra em disco e a que ficou fixada em gravações de áudio e vídeo (ou nas memórias de quem o viu a cantar) vincam precisamente as marcas de uma personalidade que procurou encontrar cedo o seu caminho. “Vim para o fado e fiquei”, cantou em tempos… Logo ele que, filho de fadista, e que em rapaz nem gostava de fado por aí além e que imaginava tudo para o seu futuro menos um destino… no fado. Mas a verdade é que quando, por motivos pessoais e profissionais, foi para o fado… ali ficou. E ajudou o fado a alargar horizontes de possibilidades.

Há ainda uma outra dimensão que vai para lá da obra artística e que convém lembrar quando nos lembrarmos de Carlos do Carmo. E que se prende com um esforço longo, continuado e (felizmente) teimoso, pela defesa patrimonial do fado. O processo da candidatura para a UNESCO e obras como a criação do Museu do Fado ou a génese do filme “Fados” de Carlos Saura (que no fundo sublinhou a ideia plural de fado que os seus discos nos foram sempre dando a escutar) são factos que ficam entre nós e perpetuam assim, também, a sua determinante contribuição. Carlos do Carmo deixou-nos hoje, com os 81 anos feitos ainda há poucos dias… Mas connosco fica uma obra (em disco e nas nossas vidas pessoais e coletivas) que garantem que nunca o iremos esquecer. Porque ele veio para o fado e (connosco) ficou.

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