Carlos do Carmo: “As casas de fado podem ser como uma oficina”

Conversei várias vezes com Carlos do Carmo para desses momentos nascerem entrevistas, quase todas impressas, a mais recente para televisão (e da qual nascer o episódio “Vim Para o Fado” da série “Vejam Bem” da RTP). Desses muitos encontros, todos eles invariavelmente na sala de sua casa, surgiram ora reflexões mais focadas num momento ou num contexto, ora panoramas mais alargados. Esta conversa que aqui republico (o original está no Sound + Vision) corresponde à versão integral de uma entrevista da qual surgiu um texto publicado em 2008 no DN, por ocasião da edição da antologia “Fado Maestro”, que celebrava então os seus 45 anos de carreira.. Houve entrevistas mais recentes. Mas esta é, das que surgiram impressas, a mais abrangente de todas.

Chegou a ter planos de futuro que em nada passavam pelo fado. Mas deu por si a estudar para poder trabalhar na indústria hoteleira…
Por vontade do meu pai, à qual respondi com muito gosto. Ele sentia que não ia viver muito tempo. E acertou em cheio. Disse-me: rapaz, não contes com heranças. Aprende o máximo que possas [estudou hotelaria na Suíça], que a herança que te quero deixar é essa.

Em vez de lhe dar peixe, ensinou-o a pescar…
Morreu com 56 anos. E isso mudou-me os planos todos… O que eu tinha muita vontade era ganhar muito dinheiro, de maneira a que os meus pais não fizessem rigorosamente nada. Era esse o meu sonho…

A morte dele obrigou-o a assumir um lugar na casa de fados que tinham.
Aos 21 anos, ali ao lado da minha mãe [a fadista Lucília do Carmo]. Trabalhámos que nem malucos. Era uma grande casa de fados, com sucesso. A profissão foi praticada. Efetivamente a hotelaria foi praticada. Tive uma equipa de trabalho muito coesa, de quem guardo muitas saudades. Era uma equipa. E guardo saudades de alguma clientela. Pessoas que nos habitámos a ver.

A sua mãe trabalhou na casa de fados. Ali cantava regularmente…
Ela estava presente. Mas toda a gestão era minha. Era uma coisa simulada, muito bem feita, entre mim e os empregados… Façam de conta que ela era a dona da casa. E a gente fazia o trabalho…

Apesar de ter uma mãe que cantava via nela as suas mais importantes referências musicais quando começou a criar o seu gosto?
Era muito novo para poder avaliar aquela força de expressão fadista. Era preciso algum saber… Mas a vantagem que eu tinha era o facto de, por um meu pai ser um homem de letras, ensinava-a a dividir os versos. Eu, na infância, assisti a essas sessões.

Na adolescência usa-se a música como forma de expressar rebeldia… Como foi consigo?
Contestando o mais possível. Mas muito apaixonado pelas minhas Sinatradas, pelo Ray Charles, pelo Armstrong, o Miles Davis. Depois começo a entrar na música francesa e na música italiana. Sempre gostei também muito de música brasileira. E gostei sempre muito de ouvir rádio. De ouvir quem cantava. Gostava de aprender através da rádio. Com uma boa entrevista, gente culta a falar de qualquer coisa, bons conversadores. De maneira que esta alma de artista esteve sempre presente. O fado andava ali… Apreciava. Distinguia bem quem cantava e quem tocava… Até porque o meu pai falava mais disso que a minha mãe. O meu pai ensinava. Aliás tenho uma coisa em comum com o meu pai: eu gosto mais de ouvir homens a cantar o fado que mulheres. O meu pai também era assim. De maneira que me habituei a ouvir… A reconhecer as características… As subtilezas…

São experiências que formam…
Sim. Afinal estamos a falar de uma tradição oral. Ouvi tantas pessoas a contar histórias. As histórias do fado! Eles eram já velhinhos naquela altura e estavam a contar histórias do início do século. E eram coisas interessantíssimas. Como é que as coisas funcionavam entre si… E sobretudo aquela coisa de que sempre gostei muito: aquela postura de dignidade. Homens, normalmente artesãos, que chegavam ao fim do dia de trabalho a casa, vestiam o fato e a gravata e iam cantar…

É gestor de dia e canta de noite…
De fatinho e gravata, à meia-noite, em cima do palco a cantar, às vezes podre de cansado.

O fadista nasce aí?
No dia a dia… De noite, a apanhar com o fumo das pessoas. O silêncio das casas de fado… O cantar para duas pessoas. E isso foi inesquecível. Numa noite a casa estava já perto de fechar, aí pelas duas e meia, três da manhã. E entra um casal simpatiquíssimo. Olham para mim e dizem-me que tinham acabado de chegar de Trás os Montes… Não iam poder estar em Lisboa no dia seguinte e pediram que cantasse para eles… E cantei. Para quem já cantou para 50 mil digo que cantar para dois é fantástico. As casas de fado podem ser como uma oficina…

As casas de fado ainda hoje são uma oficina para as novas vozes?
Sou suspeito para falar porque sou pouco frequentador.

O canto para si como profissional surge para sim como uma extensão do trabalho do gestor da casa de fados…
Completamente.

O que o fez depois pensar que a voz que já cantava na casa de fados poderia ir mais longe?
A rádio. Os poucos discos que fiz ao princípio tocaram muito na rádio. E as pessoas gostavam e iam à procura do tal rapaz que se chamava Carlos do Carmo e que era filho da Lucília do Carmo. Vamos lá ouvir o miúdo… Era o dois em um. Iam ouvir a mãe e, depois… a sobra. Tinha sua piada porque às tantas começou a cruzar-se os públicos. Era a gente da minha mãe e a dos vinte e poucos anos, que era uma geração que eu formei para o fado, que me diziam coisas maravilhosas, que a minha mãe cantava muito bem… E aos poucos os mais velhotes generosamente iam cedendo, lembrando que o rapaz tinha jeito, mas ainda tinha muito que aprender… Com o tempo começaram a ver que eu não imitava a minha mãe. Tinha essa preocupação. Começaram a sentir as diferenças. E a achar graça.

São de facto diferentes a sua maneira de estar no fado e a da sua mãe. Como viu a mãe o filho a ganhar uma identidade própria?
Muito bem… Às vezes de uma forma um pouco conservadora. Mas quem lhe dava na cabeça, curiosamente, era o Marceneiro. Dizia-lhe, Ó Lucília, isto que estás a falar já nós fizemos. Então queres que o miúdo faça outra vez o mesmo? Deixa-o fazer as coisas dele… E então como era o Marceneiro que dizia…

E ela comentava o que fazia?
Não interferia. Mas eu fiquei com o hábito do meu pai. Numa noite em que gostasse menos do que tinha feito, chegava ao pé dela e falava-lhe. “Hoje enganaste o pessoal”… Dizia-me que lhe doía aqui ou ali, mas depois, muito honestamente, dizia que hoje não estava com vontade… Porque é preciso ver que uma pessoa que está num local onde canta todos os dias, esta coisa é verdade… Há aquela imagem dos três lados: o tipo que toca, o que canta e o público. Se um destes lados do triângulo falha ou está fragilizado, o fado não acontece.

E consegue-se conviver bem com estas falhas?
El pueblo se habitua, como dizem os latino-americanos…

A descoberta de uma personalidade sua no fado passou também pelas palavras que cantou e pela abordagem aos instrumentos que escolheu?
Apesar da imensa guerra que ainda hoje os puristas me fazem, e que assumo calmamente, gosto muito de cantar com orquestra! São tipos que estiveram a estudar no conservatório, que gostam muito daquilo que tocam e que, de repente, saem do figurino da música que os levou ao instrumento que tocam (que é a clássica) e vêm para uma música exótica, estranha para eles… E vou usar aquela expressão vulgar: primeiro estranha-se depois entranha-se. E hoje tenho um verdadeiro fascínio em tocar com a Sinfonieta [de Lisboa]. Quando festejei os 40 anos no Coliseu, toquei com a Sinfonieta. E nunca mais deixei de fazer concertos com eles. É uma festa. Os ensaios são uma festa. Boa disposição. Boa onda… Há uma disciplina grande entre eles.

No booklet que acompanha o disco “Fado Maestro” usa a palavra “sacrilégio” quando fala do trabalho com orquestras… Estávamos em finais dos anos 60…
Quando apareço a cantar a Gaivota, com arranjos do [Jorge] Costa Pinto e com a guitarra do Zé Fontes Rocha não houve pessoa nenhuma da minha família que escapasse. Toda gente foi insultada. Era “maulco”, onde já se via cantar fado com uma orquestra? O que fazer? Pedia: deixem-me ouvir música. Gosto de música… Até que se acertou na mouche. Foi o ovo de Colombo. Foi com o Por Morrer uma Andorinha

Fez mudar algumas opiniões?
Foi como os teatros da Broadway. Umas sessões com gente a sair e mais gente a entrar. A casa de fados parecia uma casa da Broadway. Gente cá fora à espera para entrar… Deixei de discutir então essa coisa da orquestra. Gosto de cantar com orquestra. Agora não fiquem à espera que cante sempre com orquestra. Aliás, tive um prazer imenso em gravar o À Noite. Vesti os calções de criança, fui lá atrás à minha meninice. Ao Armandinho, ao Joaquim Carlos, ao Marceneiro (que nos ensinava a toda a hora)… Às vezes apetece umas coisas e noutras vezes, outras… E isso é que faz uma discografia. A nossa inquietação. O sentir-se com ideias…

Esse gosto de trabalhar com orquestra terá a ver com a velha admiração pelos discos de Frank Sinatra?
Completamente! Aqueles arranjos do Gordon Jenkins, seja para o Nat King Cole seja para o Sinatra. Chamo a isso camas. Vais cantar? Não. Vou-me deitar!… É uma coisa maravilhosa, se for bem tocada. Aí também tenho tido alguma sorte. E estou a falar da nova geração.

Por exemplo…
Chego ao pé do meu amigo Bernardo Sassetti e entrego-lhe dois fados… O Bernardo envolve-se completamente. Não descaracteriza uma vírgula, mas põe lá o seu saber. E com uma coisa que me encanta: está a orquestrar para mim. Está lá o timbre… O Moreira também… Neste país falta isto e falta aquilo. Mas existe o assumir, o arriscar… Até porque trabalhar para gregos e troianos lembra-me o que disse o grande Bing Crosby. Numa entrevista, daquelas em que os sábios falam abertamente da sua profissão (e não daquelas em que escondem os segredos), perguntam-lhe qual era a fórmula para o sucesso. Disse que a do sucesso não tinha. Mas acrescentou que conhecia a do fracasso: que era querer agradar a todos. Quando se faz um disco a pensar que a faixa número três é para este público e aquela vai vender melhor àquele, é a desgraça completa. Estou a falar do tempo em que havia discos… Aquele conceito… O À Noite, por exemplo, é um disco conceptual. Não tem lógica vendido à peça, mas como um todo. Foi pensado como um todo. Tem uma lógica. Mas há outros discos que são à peça… Em que foram acontecendo coisas que, depois, juntei.

Depois de um certo afastamento, o que fez com que os portugueses se reencontrassem com o fado?
O gosto…

E como renasce esse gosto? Levou tempo…
Cansaço… Depois houve um momento… Lá passaram os anos 80, foi-se fazendo o processo, devagarinho…

Foi importante o aparecimento de uma nova geração de fadistas?
Naturalmente. Mas se houve momento crucial, ele foi a morte da Amália. É um momento de rutura… Algo desapareceu fisicamente. E ao ter o mediatismo que teve, durante uma semana não se falou em mais nada nos jornais, os miúdos foram ouvir os discos da Amália que as mães tinham…

Porque há sobretudo vozes femininas na atual geração?
São ciclos. Um ciclo feminino… Quando morreu o Marceneiro houve um ciclo de homens. O fado tem estas histórias curiosas.

O público redescobriu o fado. Mas ainda há algum desconhecimento. Porque sabem os portugueses tão pouco sobre o fado?
Terá a ver com a nossa falta de autoestima? Ou com aquela ideia que, quando qualquer coisa não corre bem, lá se diz que é o nosso triste fado…

Mas o fado é triste?
Se as pessoas fossem informadas saberiam que há o fado corrido. O fado dançado… Não, é o nosso triste fado!

Colaborou e conviveu em anos recentes com figuras de espaços musicais bem diferentes do fado, como um Pedro Abrunhosa ou um Sam The Kid…
Estamos a falar de pessoas de grande talento. O Pedro é uma pessoa de talento. Aquela sua ideia de conservar o seu bairrismo… O homem do Porto que continua a ser do Porto. E o Sam é um miúdo giríssimo.

O fado pode ganhar muito ao escutar estas contribuições que chegam de músicos outras áreas?
Penso que sim. A Naifa?… O Varatojo toca bem e a miúda canta… Ainda não estou muito por dentro destes novos, os Deolinda… Ainda não sei avaliar. Não são coisas que me choquem. Pelo contrário, acho piada.

E um Paulo Bragança?
O Paulo, quando apareceu foi, do ponto de vista masculino, uma grande revelação. Era uma imagem e a forma de cantar. Havia quem se impressionava por ele cantar descalço… Porquê? Apetecia-lhe cantar descalço? Cante! Cada vez mais percebo o [Carlos] Saura, que chamou ao filme Fados. Não é fado – Fados!

O “s” faz alguma diferença?
Uma grande diferença! Toda a diferença. Temos o Caetano a ir a um registo almaliano, depois a miúda cabo-verdiana, e a Lila Downs a cantar Lucília do Carmo, que é uma delícia… A Argentina… Aquele momento mágico da Mariza com o Poveda. Não é o fado. São fados.

O Museu do fado, de resto, também sublinha essa diversidade.
E agora de que maneira! Aprendemos algumas coisas. Quando se constituiu as primeiras reuniões faziam-se em autêntica colaboração. Um levava um livrito, outro dois ou mais um disco… E nestes anos é extraordinário o que se investigou!

Vai deixar coisas suas ao museu…
É verdade. Exceto alguma ou outra coisa pessoal que fique para filhos e netos.

Porquê o Museu do Fado?
É o espaço certo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.