Wendy Carlos “The Well-Tempered Synthesizer” (1969)

A edição de Switched on Bach apanhou tudo e todos de surpresa. O disco gerou um fenómeno de vendas que cruzou públicos, uns rendidos a novas formas de escutar músicas de outros tempos outros encantados com as possibilidades que os sons ali lançavam. Depois do sucesso popular e da aclamação crítica, em 1969 Switched on Bach conquistou três Grammys nas categorias de música clássica – Best Engineered Recording, Best Performance e Álbum do Ano. E nada disto era o que Wendy Carlos ou até mesmo a editora tinham imaginado. Tanto que, na contracapa do álbum seguinte, tanto Rachel Eklind (a produtora) como Thomas Frost, da Columbia Records, não deixam de traduzir essa surpresa, contudo sob pontos de vista opostos. Rachel começava o seu texto a dizer “something went wrong”, notando que o disco fora concebido como uma “experiência artística”, um “veículo de ensaio” e nascera de uma tentativa de uma compositora em procurar-se a si mesma. Ou seja, tudo menos “o sucesso comercial em que se transformou”. Por sua vez Thomas Frost afirmava: “something went right”, notando que do ponto de vista da editora o disco não só “ligou” a atenção sobre Bach, mas também “ligou” 400 mil unidades vendidas.

            Era preciso pensar o passo seguinte. Por um lado Wendy Carlos queria desmontar “o mito” de que à máquina – em concreto ao Moog – “cabia” o trabalho artístico e criativo. E na hora de pensar o novo disco, e cientes de que os sintetizadores viviam ainda uma etapa “embrionária” do seu desenvolvimento, tanto ela como a produtora arregaçaram as mangas perante “as limitações” que o próprio Moog revelava e apostaram em continuar a tentar levar a música eletrónica para caminhos que fossem capazes de transcender os estilos e as épocas, procurando comunicar para um público mainstream.

            De certa maneira The Well Tempered Synthesiser representa uma continuação direta do trabalho apresentado no álbum de 1968, estando a mais evidente diferença no repertório, desta vez contemplando obras de Monteverdi, Scarlatti e Handel, além de Bach, de quem aqui é apresentada uma nova visão para o Concerto Brandeburguês nº 4. Rachel Eklind sublinha no texto da contracapa que, numa alternativa ao modo “aborrecido” com que peças destes compositores muitas vezes eram levadas às salas de concertos, este disco propunha uma experiência “refrescante”. Wendy Carlos não deixou, contudo, de ser fiel à demanda de rigor que sempre caracterizou o seu trabalho. E apesar de transportar estas obras para uma nova abordagem instrumental, partiu de transcrições fiéis das peças aqui interpretadas, entregando à performance não apenas o desafio instrumental mas também um profundo respeito pelas heranças que aqui convocava. O disco representou para Wendy Carlos uma possibilidade de aprofundar a exploração das ideias e técnicas que tinha levado a Switched on Bach, acrescentando numa das peças de Monteverdi (coral na sua origem) uma proposta de criação de sons vocais usando um moog. Editado em 1969, The Well Tempered Synthesiser valeu a Wendy Carlos mais duas nomeações para os Grammys (Best Engineered Recording, Best Performance), embora desta vez sem que o triunfo lhe sorrisse.  

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