Quando o comprador se transformou em colecionador

A Third Street Jazz and Rock, em Filadélfia, foi um espaço de descoberta (e de muitas compras) em 1987. E dali saiu um presente de aniversário que me levou a olhar para os discos como uma coleção daí em diante. Texto: Nuno Galopim

Há um momento em que o hábito de comprar discos pelo simples (e bom) gosto de os ouvir se transforma na construção (gradual) de uma coleção. E comigo isso aconteceu em 1987. Tinha 19 anos e comprava já discos com enorme regularidade desde os 12, isto na medida do que as semanadas e os presentes de aniversários iam permitindo. Tinha rotinas de percursos entre lojas – ainda nem imaginava que havia coisas a que se podia chamar digging – e, na verdade, a oferta, até vasta, de lojas de discos em Lisboa não me tinha mostrado outras possibilidades de procura. Talvez porque não estivesse ainda ciente de que se podia comprar mais do que as novidades e alguns discos menos novos que havia noutras prateleiras e escaparates nas lojas… Na verdade foi preciso uma viagem maior para não só desenvolver outra relação com a informação sobre os discos (e vale a pena lembrar que não havia Internet) como, consciente de um mundo que desconhecia, encontrar uma loja que materializasse essas possibilidades de busca.

            Estava então a passar uma etapa de vida em Filadélfia quando descobri que a biblioteca pública da cidade tinha as coleções dos jornais musicais britânicos que ocasionalmente conseguia encontrar em Lisboa: o Melody Maker e o NME… Na papelaria da Temple University (e eu morava mesmo ao lado do campus) comprei um belo caderno cheio de páginas quadriculadas à espera que nelas alguém escrevesse. Consultei os jornais desde 1975 (tinha curiosidade sobre o impacte do punk na história pop/rock, e a seu tempo aprenderia a caminhar ainda mais para trás no tempo). E então, edição após edição, folheando página a página, consultando notícias, entrevistas, features e até mesmo anúncios, fui lançando nas páginas do caderno aquelas informações básicas que hoje estão à distância de um clic na Intrernet. Assim recolhi informação sobre as discografias. As que já conhecia. As que então senti curiosidade em descobrir… A cada artista dava uma página (ou mais caso fosse necessário) e ia registando os títulos dos singles e álbuns, as datas de edição e, muito 80s, as classificações na tabela britânica (sim estava nos EUA, mas o meu farol pop era brit). Juntava uma classificação de 1 a 5, em pontinhos vermelhos, para os que já havia escutado e sublinhava a amarelo os que já tinha comprado. E assim descobri que os Human League, os Visage, os The Cure, os Japan,  Prince, David Bowie ou os Roxy Music, entre tantos mais, tinham muito mais discos do que aqueles que conhecia… Como os poderia ouvir?

            Um dos meus amigos estudava no departamento de RTF da universidade. Iniciais de Radio, Television and Film… Para mim era coisa que não imaginava que seria o meu futuro (ainda achava que ia seguir um caminho na geologia). Mas aquele departamento era um sonho… E tinha uma discoteca que permitia escutar muita música. Eu não era do departamento, mas deixaram-me ali entrar… e escutar (coisas do tempo em que havia outras liberdades nos acessos aos lugares). Alguma que tinha no caderno. E outros discos… Foi ali que ouvi a fundo as obras até então de Philip Glass, Steve Reich, John Adams, etc… Descobri Stockhausen e Ligeti… Os Tangerine Dream… (dos Kraftwerk já tinha discos)… E aos poucos o futuro na geologia começou a entrar em derrocada, está visto…

            Se a biblioteca alargou horizontes na informação e a discoteca da universidade amplificou o mundo de sons que conhecia, um outro lugar em Filadélfia abriu as portas ao colecionador. É claro que quando cheguei à cidade perguntei onde havia lojas de discos. Indicaram-me uma Sam Goodie’s… E no campus da Temple até havia uma zona com discos… Comprei lá uma compilação americana dos Heaven 17 (com os seus primeiros singles) e o Love & Dancing dos Human League… Baratinhos, em segunda mão, com aquele dente a menos (um furo na capa) que indicava que eram discos promocionais… Era OK… Mas quando alguns amigos começaram a ver o meu caderno e as notas que ia lançando um deles disse-me que tinha de ir à Third Street Jazz and Rock…

            Lá fui… Ficava no segmento Norte da Rua 3, não muito longe dos museus e edifícios que guardam as memórias da independência americana e da redação da sua constituição. A loja tinha dois pisos, com o jazz a dominar o rés-do-chão. Com as sucessivas visitas fiquei a saber que aquela era a loja de Jerry Gordon, que depois fundou a Evidence Records que editaria discos de Sun Ra em CD. De resto era já ali evidente a presença das imagens (e dos LPs) de Sun Ra… Ao descer as escadas entrei num mundo que parecia a materialização, em estantes e capas de discos, das muitas páginas que tinha já anotado no meu caderno… Singles e LPs de pop/rock e não só, arrumados por géneros, movimentos, e organizados alfabeticamente… Máxis dos Duran Duran, dos Depeche Mode, singles de Bowie… Era um mundo cheio de discos dos quais em muitos casos só conhecia os nomes… Capas novas, desconhecidas… Ali voltei muitas vezes. Foi ali que torrei o meu dinheiro, semana após semana… E regressei a Lisboa com um caixote cheio de discos… Mas houve dois singles que marcaram um episódio especial.

            Nas primeiras visitas à loja (que ficava a uma viagem de duas linhas de metro de casa) fui observando e anotando o que havia e os preços. Havia desde o barato da novidade ao caro para colecionador (e mais além)… Entre os muitos que assinalei na lista dos “caros” havia dois 45 rotações dos Ultravox da fase anterior a Midge Ure. Custavam aí uns 25 dólares cada. Sim não é caro, reconheço hoje, mas para um catraio de 19 anos era um preço alarmante perante uma oferta de outros discos a três ou cinco dólares… Estavam ali, “caros”, o single Rockwork e o EP ao vivo Live Retro… Nunca os tinha ouvido antes. Nem sabia que existiam. De resto, antes de ir para Filadélfia, achava que Vienna era o primeiro álbum dos Ultravox… Já os tinha anotado no caderno. E ao vê-los na loja confirmei que o esforço de ler aqueles jornais todos tinha uma possível utilidade. Mas eram “caros”. Peguei neles… Mas não os levei.

            Meses depois, em agosto, como acontece sempre, lá cumpri mais um aniversário. Fiz os 20 em Filadélfia… E além de um almoço com amigos num restaurante bem cool e, depois, um gelado numa gelataria incrível em South Street (que era então a zona dos ‘betos’) entre os presentes que me deram estavam aqueles dois discos… Com eles na mão pensei: “bom… não podem ser os únicos… há que continuar”. E daí em diante, apesar de não desistir das pechinchas, habituei-me a guardar alguns trocos para ir gastando em outros discos capazes de preencher as linhas do caderno onde tinha lançado as discografias. O comprador de discos tinha-se transformado num colecionador.

PS. A loja já não existe. Na verdade muitas das lojas que mais me marcaram já não existem. Um ano depois destas memórias, já eu estava de regresso a Lisboa, a loja mudou-se do número 20 da N 3rd Street para um quarteirão mais adiante, onde se manteve até 1998, ano em que fechou. Passei lá esta manhã, via Google Earth… É aquele rés-do-chão com uma grade… Uma memória que fica em quem por lá passou… Ou nas histórias contadas, como esta.

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