Não era má ideia lembrar que, apesar dos comportamentos e ações, Phil Spector deu muito à música

Se alguém perguntasse pelo nome de um produtor musical cuja assinatura autoral tivesse transcendido muitas vezes a dos artistas ou das bandas com quem trabalhou é natural que entre as respostas fosse frequente surgir o nome de Phil Spector. Num Olimpo de grandes visionários que encararam o estúdio como uma ferramenta capaz de moldar a música – e a coisa aqui vai de um Joe Meek a um Trevor Horn, passando por algumas mais referências deste calibre – o norte-americano Phil Spector ocupou um lugar de inquestionável destaque. Independentemente do temperamento e de comportamentos violentos (que lhe valeram inclusivamente uma pena de prisão por assassínio), em estúdio Phil Spector foi um parceiro criativo marcante cuja presença era tudo menos coisa discreta. Basta lermos as páginas da recente biografia de Leonard Cohen, assinada por Sylvie Simmons, para sentirmos a força de uma visão que facilmente era capaz de entrar em confronto com a do artista (que afinal era quem dava o nome aos discos) e acabar frequentemente por levar a sua proposta a bom porto… Escute-se aqui o atípico “Death of a Ladies Man”, o álbum de Cohen que Phil Spector produziu em 1977 e nota-se como, face a toda a obra anterior e posterior do canadiano, aquele disco seguiu a máxima: e agora para algo completamente diferente (isto para “diferente” igual a Phil Spector).

            Nascido em 1939 no Bronx (Nova Iorque) numa família judaica de emigrantes ucranianos, Harvey Philip Spector aprendeu cedo a tocar guitarra, passou por concursos de talentos e, aos 19 anos, já a viver em Los Angeles, formou os Teddy Bears entre amigos e colegas e ali assinou os seus primeiros temas. “Don’t You Worry My Little Pet”, o primeiro, foi editado num lado B em 1958. Mas logo na sessão seguinte em estúdio (e ainda em 1958), inspirou-se no epitáfio na campa do seu pai para criar “To Know Is To Love Him”, que lhe deu o seu primeiro número um como autor. Mas mais importante do que esta evolução no trabalho de composição, a sua visão como autor começou a construir-se nas horas passadas no estúdio Gold Star, em Hollywood, a olhar para o produtor Stan Ross, a aprender com ele a arte de gravar. Ronnie Crawford foi, pouco depois, o primeiro que produziu. E, logo a seguir, nomes como os de La Vern Baker, Connie Francis ou Ruth Brown. Juntou ao trabalho em estúdio um progressivo envolvimento na produção discográfica. E em poucos anos o seu nome ganhou notoriedade maior através de criações para artistas e bandas que ele mesmo ajudou a criar e moldar à imagem de uma demanda por um som maior. Chamou-lhe “wall of sound” e com esta técnica visou a criação de um som de dimensão sinfonista para visões pop de pouco mais de dois minutos. Era um trabalho de pensamento de composição do som, exigindo ensembles maiores, instrumentos menos habituais, assim como a dobragem de algumas pistas… Épicas, as suas pequenas sinfonias pop soavam diferente. E a verdade é que ninguém ficou indiferente.

Ao lado das Ronettes, Crystals ou Bob B Soxx & The Blue Jeans (dos quais emergiria, a solo, Darlene Love) juntou uma família de canções que começaram a escrever a 45 rotações a história de uma obra que, em 1963, encarou pela primeira vez o fôlego maior da criação de um álbum, daí nascendo (precisamente com estes nomes), o clássico disco de Natal “A Christmas Gift From You From Phil Spector”. Entre as suas grandes parcerias nos anos 60 conta-se o trabalho realizado ao lado da dupla constituída por Ike e Tina Turner, com os quais criou, entre outros, o clássico “River Deep Mountain High”. Depois de uma pausa auto-imposta em 1966, regressou aos estúdios em 1969, trabalhando nos anos seguintes no álbum “Let It Be” dos Beatles, assim como em discos a solo de John Lennon e George Harrison. Mais adiante o trabalho junto de Leonard Cohen ou a colaboração com os Ramones em “End of A Century” juntaram mais dois episódios maiores a uma obra ímpar. Os tempos seguintes foram de atividade mais reduzida, envolvendo projetos pontuais junto de nomes como os de Yoko Ono, Celine Dion ou os Starsailor.

A sua influência (sobretudo a visão “Wall of sound” criada em estúdio) cruzou músicos em várias frentes da invenção musical, dos Abba a Bruce Springsteen. Do seu legado vale a pena lembrar a compilação “Back To Mono”, uma caixa de quatro discos lançada em 1991 que juntava muitas das suas criações gravadas entre 1958 e 1969). Por essa altura às visões da música juntavam-se já as narrativas sobre desequilíbrios e comportamentos violentos, assim como uma obsessão por armas, que acabariam por dar mau resultado. Na hora do seu desaparecimento muitas das notícias publicadas fizeram questão de juntar o “assassino” no título…  

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