A obra curta (mas sumarenta) dos Fine Young Canibals

Os dois álbuns que o trio de Birmingham editou entre 1985 e 1989 regressam em duas edições expandidas que incluem lados B, remisturas lançadas nos máxis originais, maquetes e ainda sessões gravadas para programas da BBC. Texto: Nuno Galopim

Foi da separação dos The Beat, em 1984, que o guitarrista Andy Cox e o baixista David Steele deram por si em braços com a ideia de criar uma nova banda. Mas faltava-lhes a voz e, depois de escutadas umas centenas de cassetes com candidaturas, fez-se luz quando entrou em cena uma proposta diferente e com personalidade. Era Roland Gift, de ascendência caribenha e com primeiras experiências na música como saxofonista. Avançaram em trio para a criação e gravação de primeiras canções, valendo-lhes uma presença televisiva, ao som de Johnny Come Home, o cativar bem sério de atenções de editoras pelo que, em 1985, não só apresentavam essa canção como primeiro single como a ela juntavam outras mais que juntariam num álbum de estreia ao qual deram o seu nome: Fine Young Canibals.

            Produizido por Robin Millar, o álbum apresentava uma banda claramente marcada por referências do rhythm’n’blues, terrenos que a voz de Roland Gift soube vincar, imprimindo evidentes sinais de identidade a um trio diferente que entrava em cena sob o impacte do single de estreia, reforçado pouco depois por uma versão de Suspicious Minds, uma canção imortalizada por Elvis e em cuja versão colaborava ainda a voz de Jimmy Sommerville, então nos Communards. Mas para além da dimensão pop(ular) destes dois singles o que mais se destaca neste primeiro disco dos FYC (usemos as iniciais) é o tom classicista à la sixties dos arranjos e da própria produção, que se nota bem em canções como Couldn’t Care More, Blue ou Funny How Love Is, a segunda escolhida como segundo single, a terceira como quarto 45 rotações em alguns territórios.

            Populares e respeitados pelos feitos alcançados pelo álbum de estreia, viveram um momento mais discreto nos anos imediatos, tendo Roland Gift iniciado a sua carreira como ator, respondendo (amigavelmente) a dupla Cox/Steele editando um single único sob o nome 2 Men a Drum Machine & a Trumpet. No regresso, anunciado em 1988 ao som de She Drives Me Crazy, o grupo mostrava um som mais pop, mais polido na produção e, como seria sublinhado em algumas faixas do álbum e nas remisturas editadas nos máxis, mais atento ao que, entretanto, estava a acontecer nas pistas de dança. Editado em 1989, o álbum The Raw & The Cooked, contando em estúdio com os produtores Jerry Harrisson (Talking Heads) e David Z (qe tinha trabalhado já com Prince) revelava uma banda com outra ambição. O tom clássico do álbum de estreia, que lhes tinha sublinhado as credenciais R&B, dava agora lugar a uma pop elegante, bem gravada, direta… e irresistível. O resultado saudou-se num disco de impacte global, que tanto voltava a seduzir os gostos mais clássicos através de canções como Good Thing, Tell Me What ou As Hard as it Is (onde se revisitavam ecos da soul dos anos 60) ora nas frentes de modernidade pop que, ao single de avanço, juntavam momentos como os que escutamos em I’m Not The Man I’m Used to Be ou Don’t Let it Get You Down, esta com bleeps a piscar o olho aos sabores acid house que tinham marcado as noites de 1988…

            E quando tudo indicava que aqui estava um nome que poderia marcar a cena pop dos anos 90, eis que chega em 1992 a notícia da separação do grupo. Ainda contribuem com um tema para Red Hot + Blue (uma versão de Love For Sale) e regressam pontualmente para mais adiante gravar um inédito para juntar a um “best of”, pelo que acabam assim por deixar uma obra relativamente curta. É grande parte desse percurso, essencialmente definido entre 1985 e 1989, o que agora encontramos nas duas edições especiais de Fine Young Canibals e The Raw and The Cooked, em edições especiais com um CD extra que inclui lados B, remisturas e junta ainda maquetes e gravações em sessões na BBC. A edição especial do álbum de estreia assimila aqui Ever Fallen in Love, versão de um tema dos Buzzcocks apresentada num single lançado em 1987 com uma contribuição criada para a banda sonora de Something Wild, de Jonathan Demme.  Por sua vez a edição do segundo álbum inclui a contribuição para Red Hot + Blue.

“Fine Young Canibals [2CD Expanded Edition]” e “The Raw & The Cooked [2CD Expanded Edition]” estão disponíveis em formato de CD duplo em novas edições da London Recordings/Universal

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