Caminhadas com discos por entre as ruas de Londres

Em Londres, junto à Tower Records, em 1994

A primeira vez que fui a Londres foi em finais de outubro de 1988. Como sei a data? Sei porque na primeira loja de discos em que entrei, horas depois de ter aterrado em Heathrow, ouvia-se The Host of Seraphim, a faixa de abertura do álbum The Serpent’s Egg, que tinha saído nessa mesma semana. Comprei-o logo, claro. Custou 6,49 libras e ainda hoje a etiqueta está bem visível no canto superior direito do LP. Se a memória não me ajudasse, a etiqueta trataria de me fazer lembrar que loja tinha sido essa. Era uma Our Price, uma rede de lojas mais populares, com vários spots espalhados pela cidade de Londres (e outras localidades) naqueles tempos. Lembro-me que tinha uns armários com discos e umas cestas com cassetes em salto, tudo em tons brancos. Os funcionários tanto podiam estar a vender discos como atum em lata. A conversa quando perguntei o que era não deu resposta, e obrigou o rapaz a olhar para a capa, claramente sem relação alguma com aquela música. Enfim, um ou dois dias depois, já com Oxford Street, Picadilly e o Soho devidamente mapeados, saberia já que, apesar dos preços convidativos, a Our Price estava longe de ser a minha loja em Londres… Mas foi a primeira.

         Fui muitas vezes a Londres entre essa viagem de 1988 e as que comecei depois a fazer também por motivos profissionais, sobretudo a partir de 1994 (e essas foram muitas, muitas mesmo). Mas nesses primeiros encontros com a cidade, além das visitas aos museus (e o meu preferido era o o Museum of The Moving Image, que já não existe e morava onde hoje está instalado o British Film Institute), as descobertas de sabores de todo o mundo, as idas ao cinema e às livrarias, as lojas de discos começaram a ser os pontos mais frequentes a cada nova viagem a Londres. E eram tantas as lojas que ali havia que a cada viagem curta não dava sequer para ver mais do que uma mão cheia. E por isso, pelo menos uma vez por ano (às vezes mais), instalava-me numa casa em vez de num quarto de hotel. Ficava num quartinho no andar de cima de uma casa daquelas tipicamente londrinas. Era perto da estação de Stockwell (com supermercado entre o metro e a casa, o que ajudava a poupar na alimentação) e tinha como proprietária a D. Maria José, uma madeirense que alugava quartos a estudantes e que, nas férias, os cedia a quem fizesse paragens mais curtas. Com uma semana de quarto a preço de dia e meio de hotel, é claro que a casa da D. Maria José se tornou um ponto fixo nas primeiras viagens a Londres.

         O quarto era pequeno. Ficava mesmo por cima da porta de entrada, pelo que me bastava subir o lance de escadas, voltar à direita e estava no meu espaço. Havia uma cama, uma mesa e um roupeiro. E se fizesse um timelapse veria o roupeiro a encher-se gradualmente de discos, livros e cassetes VHS ao longo dos sete dias que ali passava. Isso e pacotes de sumo Ribena com sabor a mirtilo. Sabiam a rebuçado, tal era a dose de açúcar. Mas aquilo sabia-me a estar em Londres.

         Naturalmente visitei muitas lojas de discos, algumas delas só uma vez. Mas havia algumas que faziam parte de uma peregrinação que invariavelmente repetia. A jornada começava no metro. Bastavam sete paragens, na Northern Line, para ir de Stockwell ao cruzamento de Oxford Street com Tottenham Court Road. E nesse mesmo cruzamento, em frente a uma saída do metro… a Virgin Megastore. Era de facto enorme, e pedia uma hora (ou mais) a ver novidades e oportunidades… Gastava contudo mais tempo um pouco mais abaixo, ainda em Oxford Street, mas já a caminho de Oxford Circus, na grande megastore da HMV. Era mais bem estrutura e com oferta mais variada. Boas secções de música clássica, jazz, world music e bandas sonoras na cave. Pop/rock, dança, singles, máxis, álbuns, importações e alguns livros sobre música no rés-do-chão. E depois uma impressionante oferta em vídeo no piso superior. Talvez este retrato corresponda mais ao que era a loja em meados dos anos 90 do que em 1988, mas é a imagem que guardo dessa HMV. Havia outra HMV mais pequena e mais adiante na mesma rua, perto de Bond St, mas não devo lá ter ido mais do que duas ou três vezes. Uma outra HMV, no Trocadero (entre Picadilly e Leicester Square), mesmo significativamente mais atarracada no tamanho, chamou mais visitas porque fechava tarde. Onze ou meia noite, coisa rara em quase toda a Londres mas comum no Soho e arredores.

Tower Records
Tower Records
HMV Megastore

         Depois de batidas as duas megastores (o que podia levar um dia, mas era preciso controlar o tempo) a missão seguinte estava numa transversal a Oxford Street. A Berwick Street, conhecida por acolher um mercado de fruta ao ar livre, era por aqueles dias um paraíso para quem gostava de lojas de discos. Havia paragens obrigatórias na Berwick Street. A Select-A-Disc, mais para gostos alternativos e a Sister Ray, onde encontrava singles e máxis das bandas de inícios dos oitentas que começaram a definir os caminhos de uma coleção, eram as em que mais tempo passava. Na Select A Disc ia descobrindo bandas novas e discos que em tempos escutara no Som da Frente e ainda não tinha, dos House of Love a Julian Cope ou Marc Almond. Na Sister Ray ampliei a coleção de singles de David Sylvian e Japan, dos Duran Duran, dos Ultravox, dos Visage, dos Depeche Mode… Mal imaginava que as duas lojas de juntariam numa só, uns anos mais tarde. E ainda há um ano passei por lá (agora chama-se apenas Sister Ray e fica quase em frente do espaço da velha Select-A-Disc). Entrava na Reckless Records (que ainda hoje existe), mais desorganizada e amontoada. Mesmo assim melhor do que uma outra, mais caótica (mas barata), que havia perto da Sister Ray original mas cujo nome não lembro. Mais viva é a memória da Daddy Kool, loja essencialmente focada em músicas com raízes jamaicanas, que morava perto da Rekless Records, mas do outro lado da rua. Ao ver um mapa de lojas do Soho entre 1946 e 1996, fica claro como aquele bairro era epicentro para quem queria comprar discos.

         A Berwick Street ficou celebrada na capa do segundo álbum dos Oasis, na qual vemos até, do lado esquerdo da imagem, a montra da Select-A-Disc… Também a contracapa de Non Stop Erotic Cabaret dos Soft Cell ali foi tirada, mas num segmento mais estreito, já a caminho de Brewer St. Mas a viagem não terminava ali… Estaríamos perto da hora de jantar e em Shaftsbury Av. havia um stand de pizza com fatias a uma libra. Mais sobrava para os discos… E atenção que uma das paragens principais ficava ali perto…

         Picadilly podia ser famosa pelos anúncios luminosas e pelos punks (que na altura eram mais photo ops para turistas). Mas para mim Picadully significava passar pela Tower Records. Já conhecia a grande loja de Nova Iorque (na Rua 4 com a Broadway), mas a loja londrina foi a Tower que mais vezes visitei. À entrada podíamos pegar num exemplar da revista gratuita que a loja publicava todos os meses. E depois era começar numa ponta e terminar na outra. O A a Z do pop/rockl começava logo ali, à direita da porta principal. Mais adiante, uma sala mais pequena do lado esquerdo tinha discos de outros géneros… Na cave (que tinha uma porta que ligava à estação de metro) estavam os vídeos e os discos importados (as edições japonesas eram caras, mas sempre com extras, isto já na era do CD). E no piso superior as salas (separadas) para a clássica e o jazz eram elegantes, mais tranquilas, cheias de bons discos e com staff bem informado. Como a loja fechava às 23.00 ou mesmo meia-noite, a Tower era invariavelmente o fim de dia. E a cada jornada ia vendo, ao detalhe, uma secção…

         Este era o trajeto central. Mas havia mais lojas a visitar regularmente a cada viagem Londres, da Rough Trade em Portobello Road à Rhythm Records em Camden Town (o mercado também tinha bancas com discos a bons preços). E nunca deixava de passar por Notting Holl Gate, onde a Music & Video Exchange tinha três lojas contíguas, uma para pop/rock (com impressionante seleção de singles no andar de cima), uma para música clássica e outra para vídeo… Os discos ali eram baratos, mas tinham um senão… as etiquetas eram enormes e muitas vezes não descolavam bem…

O disco dos Dead Can Dance com a etiqueta da Our Price
Um single de David Sylvian com a etiqueta da Sister Ray
Um single dos Blancmange com a etiqueta da Music & Video Exchange

Passei por muitas mais. Comprei singles a 50 pence numas pilhas de saldos numa loja que já não existe em Ruper St (ao fundo da Berwick St). Lembro-me de uma outra numa rua encurvada nas traseiras da Virgin Megastore. E muitas, muitas mais. E convém dizer que aos digging dos discos (e dos vídeos em VHS) juntava o dos livros, que ora passava pelas grandes lojas (Waterstone’s, Foyle’s ou Borders), pelos alfarrabistas de Charing Cross Rd e, claro, a oferta imperdível na Denmark St (onde hoje ainda há lojas de instrumentos musicais, mas já sem a faceta de livraria especializada em música que algumas casas ali tinham).

         O tempo apagou do mapa muitas destas lojas. Mas juntou outras. Sounds of The Universe, Phonica, a mais recente Rough Trade East, a Honest Jon’s e outras mais, são ainda um bom motivo para, a cada nova viagem a Londres, guardar umas horas para os discos. Horas?… Pois…

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.