A história de um tributo que deu nova(s) vida(s) à música de Leonard Cohen

Editado em 1991 e nascido de uma ideia da revista francesa “Les Inrockuptibles”, o álbum de tributo a Leonard Cohen “I’m Your Fan” é o protagonista de um volume da série 33 1/3 no qual o autor aproveita para contar a história deste tipo de discos. Texto: Nuno Galopim

Apesar da explosão de ofertas que entrou em cena na segunda metade dos anos 90, o espaço do “álbum de tributo” ocupa um lugar na história da música popular. E entre os títulos que podem competir pelo estatuto de melhor disco de tributo de sempre está aquele quem em 1991, a revista francesa Les Inrockuptibles criou em volta de canções de Leonard Cohen, chamando para as recriar nomes como Nick Cave & The Bad Seeds, R.E.M., House of Love, Peter Astor, Bill Pritchard, Ian McCulloch, Pixies, Geoffrey Oryema, Robert Forster, Lilac Time, Fatima Mansions ou Lloyd Cole, entre outros mais. Ou seja, a primeira liga pop/rock indie de então. Tema do volume 147 da série 33 1/3, I’m Your Fan é apresentado e explorado, neste livro de 158 páginas, por Ray Padgett, o autor do blogue “Cover Me”, integralmente dedicado a versões. É claro que o livro serve assim não apenas para explicar a génese, a gravação e as consequências do tributo às canções de Cohen, como alarga o seu olhar panorâmico à própria história dos discos de tributo e ao universo (bem vasto) das versões.

            Comecemos pelo disco, notando Ray Padgett como surgiu do facto de Leonard Cohen frequentemente visitar Paris e de ficar então instalado perto do local onde surgira a primeira redação da revista. Um então muito jovem Christian Fervet, fundador da Les Inrocks, julgou então que seria boa ideia apresentar as canções de Leonard Cohen a uma noca geração de ouvintes. E o texto lembra como, ao contrário do cenário de reencontro (e popularidade) que Cohen viveu a partir dos anos 90, nos oitentas era uma voz relativamente distante das atenções. Ao invés de Portugal, o de Various Positions passou semanas a fio no top de vendas, o disco de 1984 de Cohen não foi sequer editado nos EUA. E quando originalmente editado o seguinte I’m Your Man (1988) não obteve globalmente o reconhecimento que hoje tem. Na verdade coube a I’m Your Fan um importante papel na criação de um reencontro alargado de vários públicos com as canções de Cohen. E do impacte do disco – que o próprio Cohen acolheu com a sua característica gratidão – o livro observa como a editora encarou de modo diferente o lançamento de um novo disco de originais do músico, assim como sublinha que foi ao escutar a versão de John Cale que Jeff Buckley decidiu criar a sua leitura sobre Hallelujah que, entretanto, se tornou visita frequente em concursos de talentos, uma vez que permite (ou pode permitir) expor qualidades vocais dos concorrentes. Hallelujah, que hoje muita gente cantarola, nasce do impacte da versão de Buckley, que é uma versão do original revisto através de John Cale (em I’m Your Fan)…

            Ray Padgett cria uma narrativa “entremeada” que integra outros episódios e referências entre o contar das histórias de I’m Your Fan. Recorda a génese dos discos de tributo (destacando justificadamente Red Hot + Blue, um contemporâneo de I’m Your Fan) e observa a sua explosão um pouco mais adiante e a consequente ressaca. Pelo caminho vai destacando figuras marcantes desta narrativa, desde Hal Wilner (a quem reconhece um papel determinante na criação deste conceito) o finlandês Jarkko Arjatsolo (criador do Leonard Cohen Files), passando por nomes como os de Raplh Stall (o criador de Dedicated, tributo aos Grateful Dead), Juliana Hatfield (uma veterana dos discos de tributo) ou os editores Jim Sampas e Joe Spadaro, cujas etiquetas têm vários projetos de tributo nos respetivos catálogos.

            A escrita é clara e direta. E Ray Padgett não só apresenta o disco, como o faz por um prisma pessoal (o que é algo que reside na medula desta coleção). Porém, ao contrário de alguns volumes nos quais autores aproveitam discos para dar voz a incursões desinteressantes sobre as suas vidas pessoais, o ponto de vista de Ray Padgett sobre I’m Your Fan é algo com que todos nos podemos relacionar.

“I’m Your Fan: The Songs Of Leonard Cohen”, de Ray Padgett, é um volume de 158 páginas publicado pela Bloomsbury no Reino Unido. O livro corresponde ao número 147 da coleção 33 1/3.

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