As descobertas inesperadas de uma primeira viagem a Paris

Tenho desde pequeno um encantamento pela história de França. Tendo os meus pais vivido em Paris nos anos 60 (moravam no Quartier Latin, perto das Arenas de Lutécia, da Sorbonne e do Jardin des Plantes) de lá regressaram com muitos discos e livros. Os meus primeiros álbuns das aventuras de Tintin, por exemplo, foram “lidos” em francês. Entre os livros franceses que cedo comecei a folhear estava um sobre os países do mundo e as respetivos mapas e bandeiras (uma das ligações à Eurovisão tinha precisamente a ver com o facto de gostar de aprender sobre os países, as bandeiras, as respetivas capitais…). Havia depois vários volumes sobre história, um deles uma velha edição de 1915 que juntava aos textos uma cronologia e desenhos de protagonistas e lugares. É claro que Versalhes sobressaiu. E com Versalhes a história dos “Luíses”… Ninguém na família ficou surpreendido quando, aos nove anos, escrevi uma primeira “ficção” com ação passada precisamente na França dos Luíses… Quando me vi sentado no avião a caminho de Paris, ir a essa grande casa dos Luíses era, assim, um velho sonho a cumprir. Assim como visitar Orsay, o Louvre, Notre Dame, descobrir a arquitetura moderna de La Defense (subir à Torre Eiffel só o fiz lá para 2010 e porque me pediram para lá ir acima… e não gosto de alturas)… 35 anos depois, apesar de ter regressado diversas vezes tanto a Versalhes (a cada qual acabando por ver zonas que nem sempre estão abertas ao público), como a Orsay ou ao Louvre, na verdade houve outras experiências parisienses que geraram consequências, a maior das quais a descoberta de outros discos e outras músicas…

            Fiz essa viagem acompanhado pelo meu pai. Ele ia passar uma breve temporada de trabalho na universidade, pelo que ficámos instalados na Casa de Portugal, uma residência de estudantes na Cidade Universitária. Lembro-me de chegar e entrar imediatamente no duche… E não havia toalhas… Mas só dei por isso depois (à portuguesa, é claro que a coisa se desenrascou). Mas antes mesmo de rumar ao centro da cidade (via RER, linha B, até Saint Michel), às compras de água, biscoitos e o que mais fosse necessário para ter no quarto juntámos… toalhas. Era ainda um catraio, e fiz os primeiros percursos pelas ruas de paris acompanhado pelo meu pai. Mas depois ele foi trabalhar e dei por mim com uma cidade para descobrir. E entre os caminhos que tomei, numa manhã passei pelo Hôtel de Ville, entrei na Rue du Renard e, poucos quarteirões depois, dei com as traseiras do Centre Pompidou.

            É uma obra notável, da arquitetura (de uma equipa entre a qual estava um então ainda não tão célebre Renzo Piano) às suas funções. Ao longo dos anos, nas muitas vezes que regressei a Paris ali vi exposições magníficas (uma delas dedicada a Hitchcock). Mas nesse primeiro encontro com o Centre Pompidou, e mesmo sendo eu míope (e na altura não usava óculos porque achava que assim era mais cool), senti um chamamento para uma sala que ficava mesmo ao fundo do piso térreo. Era um centro de informação focado na música. Tinha revistas de várias origens e abordagens temáticas. E, mais fascinante ainda, uma fonoteca com pontos de escuta. E à borla!

            Inevitavelmente comecei a olhar para as capas… E cedo senti aquela velha máxima socrática (a do filósofo, claro) e percebi que afinal nada sabia e que muito havia para aprender. Pedi discos, usei os auscultadores que me cederam… E pus-me a ouvir. A partir dessa manhã passei a ter aquela fonoteca como lugar de passagem obrigatória. No resto da semana que ali ia estar podia ouvir um ou dos álbuns por dia. Procurei escutar o que não conhecia. As capas eram um bom ponto de partida. Optava assim por música francesa e a de outras geografias. E lembro-me perfeitamente de um dos discos que escutei logo no primeiro dia. Até porque, alguns minutos mais tarde, estaria a comprar uma cópia do LP.

            Com capa vermelha e os rostos dos músicos desenhados como se elenco de filme de ação de tratasse, o álbum Life at The Pyradmids dos Dissidenten foi um dos dois LP que pedi para escutar nessa manhã em que usei pela primeira vez o Centre Pompidou como janela para o mundo de outras músicas. A música revelava marcadas referências magrebinas, sons que de resto nem eram uma novidade absoluta já que, em miúdo, uma das coisas que mais gostava de fazer no verão, no Algarve, era escutar rádios marroquinas que transmitiam por ondas curtas. Mas às heranças magrebinas aquela música juntava guitarras rock e até mesmo, por vezes, dinâmicas funk. A mistura era intrigante. E mais ainda gostei de saber que, afinal, aquela era uma banda berlinense encantada por outros azimutes e que em Marrocos tinha encontrado momentos de inspiração até mesmo no disco anterior. Havia um tal Sahara Elektrik a descobrir (mas desse não havia ali uma cópia)…

            Saí do Centre Pompidou e avancei pela Rue Berger para ir novamente à grande loja da Fnac que morava ali perto, no subsolo, em Les Halles… Tinha já lá estado na véspera e ficado maravilhado com a dimensão do espaço e a diversidade da oferta tanto em livros como em discos (e não só). Ao caminhar entre as salas dedicadas à música (então ainda sobretudo cheias de vinil) duas capas penduradas nas paredes ficaram a olhar estarrecidas para mim… Podia tê-las visto na véspera mas certamente não reparara bem… Eram, nada mais nada menos, do que exemplares em LP de Life at the Pyramids e Sahara Elektrik, dos Dissidenten. É claro que não os podia deixar ali sozinhos. E durante o resto do dia caminharam pelas ruas de Paris dentro de um saco que levei na mão. De resto, caminhar pelas ruas de uma cidade com um saco com discos na mão é das coisas menos invulgares que me podem acontecer… Quando, em plena Rue de Rivoli, descubro uma WHSmith (com publicações sobre música), o saco ganhou companhia. Aos LPs juntavam-se revistas e jornais (outro velho hábito)… Ao fim da tarde, ao regressar à residência universitária, levava som e leituras. Tomei um duche. E dessa vez com toalha à espera, ao lado do chuveiro.

PS. Pouco tempo depois os Dissidenten deixariam de ser um “segredo bem escondido”. Integrada na banda sonora da telenovela “Sassaricando”, a Fata Morgana, do álbum Sahara Elektrik, conquistava um espaço de maior visibilidade (e teve até uma versão assinada por Roberto Leal).

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