A minha relação com a Eurovisão começou com discos e um pequeno acidente…

Há muitas vezes quem associe uma ideia de dor em alguma etapa do processo de conquista de algo maior. É sempre perigoso fazer generalizações e aplicar as mesmas regras a todas as situações. Mas na verdade a minha relação com a Eurovisão começou com… dor. Literalmente.

Havia já uma afinidade estabelecida um ano antes. Teria então 4 anos, mas dessa edição de 1971 não me lembro senão do facto de ter pedido à minha mãe que me comprasse o single com a canção do Luxemburgo. Chamava-se Pomme Pomme Pomme (ou seja, três vezes maçã) e era cantada por Monique Melsen. E lembro-me de tocar o single vezes sem conta no gira-discos de casa, ouvindo ora o lado A ora o lado B, onde surgia Fa Fa Fa… Será que o meu gosto pela repetição (que mais tarde se refletiria nos minimalistas) começou aqui? Nesse mesmo ano ofereceram-me ainda o single com a canção do Mónaco, a vencedora (Une Arbre Um Banc Une Rue, de Severine)… Mas dessa não gostava tanto. Tinha por aqueles dias um livro com mapas e bandeiras dos países do mundo que passava os dias a consultar… Desenhava depois mapas e bandeiras… E o festival parecia uma expressão para ver e ouvir desse mesmo gosto… Nações e línguas diferentes… E a cada ano era uma história que conhecia (e conhece) novos episódios.

Já com uma discoteca eurovisiva somando dois singles, cheguei a 1972 pronto para mais uma edição do festival… “Fustival”, diz-me a minha mãe que era assim que me referia ao programa. Estávamos então em Castelo de Vide, onde uma prima nossa se casava nesse mesmo dia. E é entre a festa, numa casa enorme, que num final de tarde de sábado, sofro um pequeno acidente, caindo com uma mão, espalmada, dentro de uma braseira. Não me recordo da dor, mas contam-me que foi coisa sonoramente demonstrada… A mão estava com queimaduras (certamente não muito graves). Mas por nada me faziam ir a um hospital nem a lado nenhum. Aquela era a noite do festival. E isso eu não ia perder por nada… Foi o meu pai quem tratou da mão, envolvendo-a em pomadas e ligaduras. E com a mão ligada e metida num recipiente, sentei-me em frente ao televisor para ver o concurso, que terminou com a vitória da canção de que mais gostava nesse ano: Aprés Toi, cantada por Vicly Leandros, em representação do Luxemburgo… Dias depois, já de mão recuperada (e que hoje não exibe quaisquer marcas), fomos a uma das discotecas na Rua do Carmo, a Melodia, comprar o single da canção vencedora. E com isto a coleção de discos da Eurovisão cresceu para três.

            Tamanha prova de dor e resistência, para um gaiato de cinco anos, só podia lançar alicerces para uma relação que daí em diante tinha tudo para crescer. E em 1973 juntámos uma novidade ao “cerimonial” eurovisivo: a cassete áudio. Tínhamos comprado um novo sistema de som e, na noite do festival, acompanhámos o visionamento da emissão televisiva com a gravação, numa cassete áudio, da transmissão que era feita em simultâneo pela rádio. A cassete foi escutada vezes sem conta nos meses seguintes. E ainda hoje sei de cor o alinhamento dessa edição do Festival, assim como me lembro, de fio a pavio, de algumas das canções… Tom Tom, da Finlândia a abrir (com o maestro Ossi Runne, o que correspondeu assim à primeira descoberta de um mito eurovisivo). A incrível dupla Nicole & Hugo a cantar depois pela Bélgica, mal imaginando eu, pelo preto e branco da emissão da RTP, que aqueles trapinhos eram roxo – e roxo é design, claro –, curiosamente a única cor que não devo ter no roupeiro. E logo depois a Tourada do Fernando Tordo, o Junger Tag pela Alemanha… E daí em diante… Ganhou uma vez mais o Luxemburgo, e o single respetivo lá se juntou à coleção em construção.

            O ritual de gravar cassetes com o Festival da Eurovisão tornou-se habitual daí em diante. Mas em 1974 a coisa teve um extra. Tinha sido operado aos olhos, na véspera, em Lisboa. E estava, naturalmente, ainda com os olhos tapados por grandes pensos. Coube então ao meu pai o papel de ser o comentador caseiro da emissão da RTP, descrevendo o cenário, a sala e o guarda roupa dos concorrentes. E não me esqueço de ele ter notado que o maestro da Suécia ia vestido à Napoleão… Era ele quem dirigia a orquestra durante Waterloo dos Abba, que acabaria por vencer nessa noite. Contudo esse não foi o single que pedi que me comprassem na semana a seguir à Eurovisão (e que toquei num pequeno gira-discos portátil que, entretanto, tinha recebido de presença ao regressar da operação). A minha canção preferida fora I See A Star, da dupla Mouth & MacNeal, em representação da Holanda. O tempo muda a nossa relação com as canções. E hoje, se me pedirem a minha preferida de 74, direi imediatamente: Si, de Gigliola Cinquetti (Itália). Esta, de resto, é canção que mora no meu Top 10 eurovisivo de todo o sempre. Um dia vou partilhar essa lista, fica prometido…

            Em 1975 fiquei enervado com a vitória dos Teach In. Gostava mais do furacão alemão que era a Joy Flemming a cantar Ein Lied kann eine Brücke sein. E dos Shadows, que representavam o Reino Unido com Let Me Be The One. Curiosamente em 75 não comprei nenhum single eurovisivo. No ano seguinte, apesar do triunfo avassalador dos britânicos Brotherhood of Men com Save Your Kisses For Me, canção que de certo modo estabeleceu então um paradigma para um novo modelo de performance eurovisiva, o single que pedi à minha mãe foi o da canção francesa, Un, Deux, Trois, cantado por Catherine Ferry…

O hábito de ver o festival e, depois, comprar os discos das minhas canções preferidas, manteve-se. E ora procurava depois trazer para minha a coleção de discos os momentos mais festivos e divertidos – como as Baccara em 1978 ou os Dschingis Khan em 1979 – como aquelas canções que me desafiavam mais, e aí duas delas vieram da Bélgica: Eurovision, pelos Telex, em 1980 e Rendez Vous, pelas Pas de Deux, em 1983. Neste ano, de resto, as canções de que mais gostei foram duas das mais mal classificadas. Além da Bélgica fiquei arrepiado ao som de Quien Maneja Mi Barca, da espanhola Remedios Amaya, que, bem antes de Rosalía, já ali apresentava outras visões possíveis e ousadas para o flamenco. Em 1983 o voto escolhia a balada pastelona Si La Vie Est Cadeaux, de Corine Hermés… E noto então que o meu gosto estava em rota de divergência, não com a oferta eurovisiva, mas com as tendências do voto que depois escolhia quem ganhava.

            Nunca deixei de ver o festival. Mas nos oitentas a rádio e o jornalismo musical que ia lendo abriram outras portas. E por volta de 1987/88 cada vez menos afinidades sentia com o desfile de canções que pareciam estar divorciadas do que eram então os caminhos da canção popular do seu tempo (um cenário bem diferente do que se passa atualmente, note-se). Fiz as pazes em 1991, apesar de achar que a francesa Amina tinha uma canção infinitamente mais interessante do que o pastiche de pop à Abba sueco que triunfou (com a mesma pontuação). O certo é que o álbum onde surgia C’Est Le Dernier À Parler Qui A Raison foi o primeiro disco que comprei vindo de berço eurovisivo ao fim de uma dieta de alguns anos.

Os anos 90 reativaram e aprofundaram o meu interesse pela Eurovisão. O progressivo alargamento a leste trouxe outras músicas e outras línguas (e, convenhamos, revitalizou a coisa). Grécia e Itália em 1992. Grécia e Holanda em 1993. Chipre e Hungria em 1994… A coisa estava a acrescentar novas canções à lista das que queria escutar depois do desfile na televisão. E todas elas para mim mais interessantes que aquela sucessão triunfante de baladas irlandesas que não me diziam nada. Nicles.

Por volta de 1995/96 altura nasceu uma pequena família de amigos com a qual que passei, daí em diante, a ver, ano após anos, a noite do festival… E mais adiante as finais e semifinais. Com o Paulo, que vota Suécia, mesmo antes de ouvir a canção, o Vasco que escolhe quase sempre Grécia e Chipre porque sim, e o Manuel, amante das baladas às quais passámos a chamar as “secas à Manel”, este pequeno núcleo firmou o meu gosto e entusiasmo. É por aí que começo a fazer uma coleção de discos mais sistematizada. Com o vinil a 45 rotações de todos os países. E depois os CD singles que iam surgindo a cada ano com cada canção. Para arranjar os discos havia que trocar correspondência entre fãs espalhados pela Europa ou consultar catálogos de venda pelo correio. Estamos num tempo anterior à democratização do acesso à Internet, há que notar. E ora através da Trehantiri (uma loja, creio que no Reino Unido onde havia sobretudo os discos gregos e cipriotas, mas não só) ou de uma vendedora holandesa chamada Bea de Vrind, juntei muitos CD singles e compilações com o historial das canções de cada país, a uma discografia que hoje está substancialmente capaz de representar a história da Eurovisão.

O reaparecimento mais regular de compilações com as canções de cada ano, que chegou perto da viragem do século, ajudou a garantir de forma mais facilitada (e económica) o acesso a gravações das canções. Um mapa de acessibilidades que, naturalmente, mudou com o advento da Internet e da entrada em cena de plataformas como o YouTube ou das atuais plataformas de streaming. A viragem do milénio trouxe por um lado o lançamento de uma ideia de rejuvenescimento do formato para a qual a mudança das plateias foi determinante. Deixava de haver fatos formais e vestidos de noite, com aplausos contidos, para dar lugar à exuberância da festa dos fãs. E depois de nova dieta de boas canções nos primeiros anos do século XXI, a parir de 2009/2010 o concurso ganhou novo fôlego, mostrando mais do que nunca uma vontade em traduzir uma ideia de diversidade e inclusão nas mais variadas frentes, das identidades às expressões da própria música. E convenhamos que hoje (e basta olhar para o panorama de canções do “nosso” ano de 2018) há ali um mundo de possibilidades lançadas pelas canções que todos os anos acrescentam novos episódios a esta narrativa que nos conta uma história que reflete os ecos dos tempos pelos quais tem passado.

Falta acrescentar que, depois de muitos anos como espectador sempre assíduo, de colecionador atento ao detalhe, de jornalista a escrever sobre o fenómeno e inclusivamente de “eurofã”, tendo ajudado lançado as bases da OGAE Portugal, que chefiei nos seus dois primeiros anos como entidade formal, a minha relação com a Eurovisão mudou com um telefonema que a Carla Bugalho me fez em 2016. “Estou, Nuno… Queres vir comentar a edição deste ano do Festival da Eurovisão na RTP?”…. É claro que dei logo o sim. Mas essa é história que fica para contar em detalhe num outro dia.  

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