Pedro Valente

Pedro Valente é o rosto da Azáfama, uma agência e produtora de eventos. Mas hoje fala-nos dos discos que tem em casa.

Foto: Vera Marmelo

Qual foi o primeiro disco que compraste?

Andei alguns anos a consumir no “walkman” música gravada pelos meus pais, em cassetes piratas, antes de comprar o primeiro disco. Coletâneas dos Beatles, o “Avalon” dos Roxy Music. Alguma MPB, mas que não me dizia tanto na altura. Mas se a memória não me falha, o primeiro disco foi o Greatest Hits II dos Queen. Deve ter sido em 1992, quando tinha 10 anos. Marcou-me muito o tributo ao Freddy Mercury em Wembley, onde atuaram muitas bandas cabeludas que na altura estava a começar a ouvir. 

E o mais recente?

O último a chegar cá a casa foi o “Véspera” dos Clã (edição limitada em vinil, lançada pela Rastilho), mas ainda hoje vou concluir a minha encomenda do “100% Carisma” do Vaiapraia, também em vinil. Em segunda mão acaba de me chegar às mãos o “Álibi”, da Manuela Moura Guedes.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Durante muitos anos fui colecionador, nem sempre criterioso, de CDs. Mas, entretanto, desapaixonei-me um pouco pelo formato e comecei a comprar mais vinil, levando-me a alterar um pouco o meu padrão de compra. Arrisco menos e vou comprando discos que já sei que gosto (as plataformas digitais ajudam-me a fazer esse filtro). Tendo como objetivo construir lentamente a banda sonora da minha vida em vinil.   

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Um disco em vinil que ando a namorar no Discogs, mas que ainda tinha esperança de encontrar perdido em alguma feira de velharias, é o “Buckingham Nicks” – álbum lançado pelo Lindsey Buckingham e a Stevie Nicks antes de se juntarem aos Fleetwood Mac.

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Curiosamente um disco de um artista com quem trabalho. O homónimo disco de estreia do Flak, lançado em 1998, já há muito esgotado. Mas o Flak lá encontrou uma cópia perdida, em CD, que me ofereceu. É um grande disco, muitas vezes esquecido nas retrospetivas feitas ao que se fez por cá nos anos 90.

Também esperei muito tempo, embora sem pressas, para ficar com a cópia dos meus avós do “Por Este Rio Acima” do Fausto. Os meus pais também têm uma coleção incrível de singles comprados nos anos 60, mas espero ter de esperar muitos anos até herdar esses.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Não tenho um limite estabelecido, mas também nunca perdi a cabeça.

Lojas de eleição em Portugal…

Não tenho lá ido tanto quanto gostaria, mas gosto muito da Vinil Experience, do Jota Cunha. Na altura em que comprava muitos CDs passei muitas horas na Carbono, admito que tenha sido a loja onde mais discos comprei. E também ando há um tempo para visitar a Drogaria Central em Almada.  

Em viagem lá fora também visitas lojas de discos? Quais recomendas?

Vou e já tive experiências muito felizes, como entrar a meio de um soundcheck do Devendra Banhart na loja da Rough Trade em Williamsburg (Brooklyn). Sou terrível com nomes, mas estive em lojas incríveis em cidades como Berlim, Londres ou no Rio de Janeiro. Na minha lua de mel também passei umas boas horas no “Revolution Records” na Cidade do Cabo.

Compras discos online?

Compro. Mais do que devia até, mas o facto de normalmente saber o que quero comprar faz com que o comodismo por vezes leve a melhor. Sei que é menos romântico, mas muito do meu “digging” é feito digitalmente.

Que formatos tens representados na coleção?

Muitos CDs, mas cada vez mais vinis. Meia dúzia de cassetes.  

Os artistas de quem mais discos tens?

Tenho muitos nomes clássicos entre os mais representados. Fleetwood Mac, Leonard Cohen, Neil Young, Nick Cave, Springsteen. O facto de ter sido adolescente nos anos 90 também me levou a construir carinhos especiais – e espaço na coleção – para bandas como The Afghan Whigs, Red House Painters, R.E.M, entre outras. Também fiquei muito feliz quando os The Blue Nile decidiram arrancar com a reedição da sua curta discografia em vinil, ganhando assim o protagonismo que merecem na minha coleção.

Há editoras das quais tenhas comprado discos mesmo sem conhecer os artistas?

Sou mais fascinado pelo imaginário histórico de algumas editoras, tanto internacionais (Factory, 4AD, Sub Pop, Creation) como portuguesas (Dansa do Som, Fundação Atlântica), do que propriamente fidelizado a editoras na actualidade. Há várias cujos lançamentos me despertam sempre a atenção, mas nenhuma que me leve a comprar às cegas.  

Uma capa preferida.

Que pergunta tão difícil. Há tantas incríveis. Mas para não “partir a cabeça”, vou responder com uma capa luminosa e super elegante que me veio logo à cabeça: a do “Push The Sky Away” (Nick Cave and the Bad Seeds).  

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Há um disco que divide opiniões, mas que para mim é muito especial, e cuja cópia em vinil guardo com muito carinho: o “Berlin” do Lou Reed. Foi oferecido por um grande amigo, que sabia que era um disco que me dizia muito.   

Como tens arrumados os discos?

Já experimentei de várias formas, mas a coleção acaba sempre desorganizada. Isolo algumas categorias, mas não propriamente em função de estéticas (ex. portugueses, bandas sonoras, compilações) e tento manter, nem sempre com sucesso, o resto por ordem alfabética. Mas sou terrivelmente indisciplinado.  

Um artista que ainda tenhas por explorar…

Há uns anos comecei a mergulhar no mundo dos Tangerine Dream, mas ainda é um “work in progress” sem fim à vista.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Tive de crescer um bocadinho, e compreender melhor o contexto, para dar a devida importância ao “What’s Going On” do Marvin Gaye, um disco espantoso.

Trabalhando diretamente com músicos. Olhas para as suas edições como potenciais futuras peças de coleção?

Sem dúvida. E por isso mesmo tenho muita pena que não consigamos sempre justificar, tendo em conta o avultado investimento implícito, a edição de alguns discos em vinil. Felizmente que o disco novo dos Beautify Junkyards tem uma linda edição em vinil (que ainda não me chegou às mãos), editado pela maravilhosa Ghost Box, mas o último que tínhamos feito foi o “Cidade Fantástica” do Flak. Embora a reedição em vinil do “Plástico” dos Glockenwise, pela NorteSul/Valentim de Carvalho, também esteja a caminho.

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respetiva história?

Assim de repente, e não querendo ser demasiado meloso, lembro-me de ter ouvido até à exaustão o “As Quatro Estações – Ao Vivo” (CD duplo) dos Legião Urbana quando conheci a minha mulher (luso-brasileira). Um disco gravado ao vivo a partir de dois concertos que a banda deu em 1990 em São Paulo, para mais de 100 mil pessoas. Mas só mais tarde descobri que o disco foi lançado sem autorização da família do Renato Russo. Mas o mal estava feito.

E quando fui com ela ao Rio de Janeiro, em 2009, encontrei o vinil do disco “As Quatro Estações” à venda numa micro-loja de livros em segunda mão, onde o dono (velhinho) também tinha um pequeno monte de vinis empoeirados à venda. Comprei também, por uma meia dúzia de reais, uma edição que se estava a desfazer do álbum triplo “Woodstock: Music from the Original Soundtrack and More”, nem todo ele audível dado o mau estado em que se encontrava.   

Um disco menos conhecido que recomendes…

Podia falar de tantos discos portugueses pouco ouvidos, mas não quero escolher só um. Pelo que falarei dum lançamento internacional recente. Gostei muito dum disco que descobri no final do ano passado, do Eddie Chacon (dos Charles & Eddie, one-hit wonder do início dos anos 90. Lembras-te do “Would I Lie To You”?). Chama-se “Pleasure, Joy and Happiness” e foi produzido por John Carroll Kirby, produtor que já colaborou com nomes como Solange, Frank Ocean e Blood Orange.

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