Era mesmo este o disco do qual estávamos todos a precisar

Composição de Sam Shepherd, contando com a contribuição do safoxonista Pharaoh Sanders e das cordas da London Symphony Orchestra, “Promises” chega como banda sonora de apaziguamento, conciliação e cura para tempos difíceis. Texto: Nuno Galopim

Ao ouvir Crush, o álbum que o músico britânico Sam Shepherd editou como Floating Points em 2019, o saxofonista veterano Pharaoh Sanders sentiu que estava chegada a hora de interromper o silêncio. A música eletrónica de Floating Points não era necessariamente a sua linguagem, mas na verdade definia um patamar “existencial” algo semelhante ao seu: aquele que encara a música como um veículo conciliador, apaziguador, até mesmo de “cura”, coisa que o mundo pede neste momento. Em pouco tempo, e ainda em 2019, encontravam-se em estúdio para dar início a uma experiência de diálogo(s) que agora nos é dada a escutar já com a não menos significativa contribuição de cordas da London Symphony Orchestra.

         Sob mecanismos de diálogo que desenha por sugestões e respostas, Sam Shepherd lança as bases da composição e usa o piano e um cravo como notas de lançamento para ideias que depois convocam a contribuição do saxofone e, a data altura, até mesmo a voz de Pharaoh Sanders, mais os instrumentos de cordas da orquestra. E também eletrónicas (uma vez mais nas mãos do músico britânico) e todo um labor cénico desenhado em estúdio que materializa em sons e espaço uma música que avança no tempo como uma peça única e contínua, apesar de depois dividida em nove “andamentos”. O mood avança quase como se um guião definisse uma narrativa, que parte de um tranquilo diálogo e vai mergulhando na identidade de ambos os solistas, até que suavemente integra músicos da orquestra. E avança assim, discretamente, até ao sexto andamento, quando a orquestra finalmente se revela na sua plenitude, definindo um clímax que abre caminho a um desfecho que cimenta a construção ambiental até aí definida. O fluxo, num sentido, sugere uma experiência, um caminho, que carece do tempo que exigiu aos músicos e, agora, ao ouvinte. No fundo, ganha forma uma experiência que, embora musicalmente diferente das obras que estruturam o minimalismo na segunda metade dos anos 60, não só explora a noção de repetição mas também a vivência da duração do tempo como parte determinante da experiência. E, pelas características da contribuição de Pharaoh Sanders, sob um clima de imensa liberdade.

         Promises acrescenta mais uma peça marcante a um tempo em que o jazz volta a comunicar com novas gerações. Do “clássico” Nestor’s Saga de John Surman às visões de St. Germain, a história de ligações entre o jazz e a música eletrónica conheceu já vários episódios. Mas mais do que nunca uma geração que cresceu com a música eletrónica (dançando de noite ou escutando canções e instrumentais de dia) descobre em discos como este ou tantos outros nascidos recentemente, vivências mais próximas de si. Assim se abrem portas. Para compreender o presente, desenhar novos futuros e, quem sabe, mergulhar no passado e fazer mais descobertas… E só com a obra de um Pharaoh Sanders (e daqueles com quem tocou) a viagem será frutuosa e compensadora…

“Promises”, de Floating Point, Pharaoh Sanders e London Symphony Orchestra, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da Luaka Bop.

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