B.E.F. “Music Of Quality and Destinction – Volume 1” (1982)

A ideia nasecu já em tempo de conflito interno entre os Human League (e que terminou com a saída de Martyn Ware e Ian Craig Marsh, que partiram em 1980 para formar pouco depois formar os Heaven 17 com Glenn Gregory, deixando a fação liderada por Phil Oakey entregue a um destino diferente que, no ano seguinte, os levaria ao clássico Dare!)… Ao mesmo tempo que desenham a ideia de uma nova banda, os dois músicos, com importante papel pioneiro na criação de uma primeira linha de propostas pop feitas com eletrónicas na Inglaterra de finais dos anos 70, criam a British Electric Foundation, mais conhecida pelas iniciais B.E.F., projeto que usam inicialmente para experiências instrumentais e que depois direcionam rumo à canção. Lançam primeiras gravações em 1981, ora em Music For Stowaways (álbum apenas lançado em formato de cassete refletindo a recente entrada em cena do walkman) ora em Music For Listening. Os títulos sugeriam desde logo alguma afinidade com algumas das propostas instrumentais recentes de Brian Eno (embora apenas parte das composições explorem climas mais plácidos e próximos dessa ideia de música ambiente)…

Havia, porém, na B.E.F., mais do que uma mera vontade em criar música para servir o desenho de ambientes. Expressão viva de cruzamentos de ideias que animam a primeira geração pop eletrónica britânica, este espaço que cedo se afirmou como o terreno fértil de uma dupla de produtores, em breve estava a refletir, sob a presença das novas ferramentas eletrónicas e possibilidades em estúdio, aquelas que eram marcas de referência do gosto dos dois músicos. E gradualmente aprofundaram uma relação com heranças clássicas da música soul e de outros terrenos do rhythm’n’blues, neles procurando a matéria prima para canções às quais chamaram a presença de vozes convidadas. No fundo lançavam ali um formato de trabalho que seria amplamente assimilado poucos anos depois pelos primeiros músicos / DJ / produtores pop star quando a música house entrou em cena, saltando das pistas de dança para as playlists das rádios. A ideia do “produtor x featuring a voz de alguém” era, contudo, ainda uma página praticamente em branco na história das edições discográficas. Recorde-se que, por exemplo, os discos que nasceram das parcerias de Giorgio Moroder com Donna Summer eram assinados pelo nome da cantora e não do produtor, assim como sucedera com You Make Me Feel (Mighty Real), cuja edição original em disco destacava o nome da voz de Sylvester e não o de Patrick Cowley. E por isso, quando a B.E.F. lança um primeiro disco com vozes convidadas, o álbum é erradamente tido como uma compilação…

Já com os Heaven 17 em cena e devidamente reconhecidos pelo trabalho no álbum de estreia Penthouse and Pavement, de 1981, título fundamental da discografia pop electrónica britânica dos oitentas, Ware e Marsh apresentam em 1982 esse primeiro álbum de canções da B.E.F.. Chamam-lhe Music Of Quality and Distinction – Vol 1 e o alinhamento revela uma mão cheia de versões às quais chamam vozes como as de Billy McKenzie, dos Associates (que revisita Secret Life Of Arabia, de Bowie e It’s Over de Roy Orbison), Paula Yates (que inteprreta These Boots Are Made For Walking, de Nancy Sinatra), Sandie Shaw (que dá voz a Anyone Who Had a Heart, que tinha conhecido primeira leitura por Dionne Warwick em 1963) ou Gary Glitter (que interpreta Suspicious Minds, celebrizado por Elvis Presley)… A grande surpresa do disco é mesmo uma interpretação de Ball Of Confusion, originalmente na voz dos Temptations, mas desta vez por Tina Turner. E convém aqui lembrar que, por incrível qiue nos possa parecer, por esta altura Tina Turner era uma figura algo esquecida e quase invisível e que parecia injustamente destinada a ser uma nota de rodapé na história da música popular. A participação de Tina Turner, cuja versão de Ball of Confusion foi editada como single, chamou as atenções da Capitol Records, pela qual pouco depois edita o single Let’s Stay Together (coproduzido por Ware), ao qual se segue o álbum Private Dancer e toda uma nova etapa de sucesso global para a cantora norte-americana…

Depois do silêncio de alguns anos, um segundo volume sob o título Music Of Quality and Destinction chegou em 1991, vincando mais ainda o interesse de Ware e Marsh pelas heranças do rhythm’n’blues. O disco chama as vozes de nomes como Chaka Khan, Terence Trent D’Arby, Green Gartside (a voz dos Scritti Politti), Billy Preston ou Mavis Staples, aos quais se juntaram os “repetentes” Billy McKenzie e Tina Turner. Após novo silêncio, o coletivo regressou em 2007 (já sem Ian Craig Marsh) para a sua primeira atuação ao vivo, anunciando depois a preparação de novo disco, que surgiria apenas em 2013 com o título Music Of Quality and Destinction 3: Dark, juntando desta vez as vozes de Kim Wilde, Sarah Jane Morris ou Andy Bell (dos Erasure), propondo novos encontros com Green Gartside e Sandie Shaw e com Glenn Gregory, a voz dos Heaven 17.

Editada dois anos antes do volume 3, ou seja em 2011, a antologia B.E.F. – 1981-2011 juntou então a obra gravada até então sob a designação B.F.E. (incluindo remisturas editadas em máxis e algumas versões instrumentais), destapando já alguns breves sinais do projeto Dark, que na altura estava ainda inacabado…

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