42. Fernando Tordo “Tocata” (1972)

Fernando Tordo tinha já vários discos (a 45 rotações) editados e era um nome sobejamente reconhecido no panorama da música portuguesa, como autor e também como cantor, quando rumou a Madrid para gravar aquele que seria o seu primeiro álbum. Nos anos 60 tinha passado pelos Deltons e pelos Sheiks – com os quais chegou a gravar um EP em 1967 – mas ao assumir um percurso em nome próprio afastou-se dos caminhos do ié ié para explorar outras possibilidades e desafios. Em 1969 lançou primeiros discos a solo, e entre os três 45 rotrações que então apresentou ficaram desenhadas três rotas importantes. Num deles (um single) cantava uma versão de Windmills of Your Mind, numa versão com direção de orquestra de Joaquim Luis Gomes, vincando assim uma atenção para com formas e linguagens que escutavam referências para lá dos espaços mais habitualmente visitados pela canção ligeira portuguesa de então. No EP Bem Querer Mal Viver explorava a fundo a parceria criativa recentemente encetada com Ary dos Santos (com quem tinha já assinado Maré Viva, o lado B de Windmills Of Your Mind). E num outro EP, que na verdade foi o primeiro disco que editou a solo, fixava, com Cantiga, a memória da sua estreia no Festival da Canção, um espaço que visitou regularmente nos anos seguintes e do qual nasceram em 1971 e 1973 dois dos seus maiores clássicos, respetivamente, Cavalo à Solta e Tourada. De certa maneira entre estes três discos de 1969 estão três linhas-mestras que ajudariam a definir o alinhamento e a identidade do álbum de estreia: a procura de arranjos ousados e diferentes, a parceria com Ary dos Santos e uma representação de passagens recentes pelo Festival da Canção… Mas para explicar a alma de Tocata, há que ter um outro elemento em conta: o maestro e arranjador Dennis Farnon.

Canadiano, nascido em 1923, irmão de Roger Farnon (o autor do célebre “hino” da RTP), Dennis Farnon começou por tocar em clubes de jazz até que, nos anos 50, deu por si em Hollywood, a trabalhar sobretudo para o cinema e a televisão (assinou, por exemplo, música para episódios de Mr Magoo). E manteve igualmente uma atividade em estúdio ao serviço de discos, ora assinados por si (com a sua orquestra) ora por terceiros, como Chet Atkins ou Harry Belafonte. Em finais dos anos 60 Dennis Farnon fixou-se em Portugal, passando a residir na zona de Cascais. E nesse período colabora intensamente com algumas vozes portuguesas como as de Carlos do Carmo, Sérgio Borges (com e sem o Conjunto Académico João Paulo) e Fernando Tordo. A colaboração entre Fernando Tordo e Dennis Farnon começou por ganhar forma nos arranjos e direção de orquestra de Cavalo à Solta e Aconteceu na Primavera, canções da dupla Tordo/Ary dos Santos registadas em 1971 nos estúdios da Nacional Filmes, em Lisboa. Em 1972, ainda nos mesmos estúdios, registaram Canto no Deserto (Tordo/Ary dos Santos) e Vou Inventar Uma Flor (com poema de José Gomes Ferreira), que surge em mais um single. Já em Madrid, nos estúdios da Phonogram, gravam Canto Franciscano e Amor Vivo (que saem em single ainda em 1972). E segue-se ainda mais um 45 rotações, com Dentro da Manhã – canção com letra de Yvette Centeno e música de José Luís Tinoco que Fernando Tordo apresenta no Festival da Canção em 72 – e Sangue das Palavras (mais uma parceria com Ary dos Santos).

As oito canções reveladas entre 1971 e 1972 nestes quatro singles caminharam todas elas rumo ao alinhamento de Tocata, álbum de estreia que juntou ainda uma peça instrumental que abre e fecha o disco ao sabor do som de uma big band. Mas mesmo sendo Cavalo à Solta o clássico maior que aqui encontramos, o “achado” maior de Tocata corresponde ao outro inédito que o LP apresenta. Composição de Fernando Tordo com letra de Ary dos Santos, Virgens Que Passais é uma das mais incríveis pérolas (injustamente esquecidas) da música portuguesa dos anos 70. Canção com um irresistível viço rítmico, que adivinha afinidades com o funk (de certa forma em caminhos próximos aos que estariam pouco depois na génese do disco), partilha igualmente o espaço com uma visão de horizontes largos para orquestra que não esconde um gosto pelo jazz. Preciosidade maior do alinhamento de Tocata, a canção “incomodou” a censura, como me contou o próprio Fernando Tordo, tanto que ficou impedida de ser tocada na rádio.

A gravação do álbum ocorreu em Madrid em 1972, sublinhando Fernando Tordo o bom ambiente de trabalho, que envolveu ainda a presença do produtor Luís Villas-Boas. A procura de um som mais americano, que partia dos arranjos de Dennis Farnon, mas ganhava muito com a experiência dos músicos de estúdio chamados em Madrid, garantiu a Tocata uma identidade muito peculiar que o distingue dos demais discos que a música portuguesa então estava a gerar. Dennis Farnon dirigiu a orquestra em Madrid e, depois, trabalhou a mistura juntamente com Alberto Nunes, nos estúdios Musicorde (em Lisboa).

Sobre a data de edição de Tocata não parece haver unanimidade entre as várias fontes com informação impressa em livros. Há quem o aponte a 1972 e a 73. Fernando Tordo garante que a edição original é a da Phillips, que apresenta fotos suas e de Dennis Farnon, de certa forma assumindo assim uma parceria criativa que marca a identidade do álbum. Na plataforma Spotify a editora inscreveu o disco como sendo de 1972. E essa é de facto a data mais vezes referida… Na edição que tenho há um “splash” a tinha preta que acrescenta, sobre o grafismo, a indicação “vencedor do Grande Prémio da TV da Canção 1973”, o que parece indicar este como o ano da edição do disco. Será uma segunda impressão deste disco? (*). Houve depois uma segunda prensagem do álbum, com capa diferente e com o mesmo alinhamento, mas sob o selo Pérgola, correspondendo a uma edição especial para os sócios do Círculo de Leitores. A edição original, da Phillips, é uma raridade disputada entre colecionadores. Nunca, desde então, o disco conheceu novas redições. Nunca teve lançamento em CD mas está disponível nas plataformas digitais.

(*) Se alguém tiver uma edição do álbum pela Phillips sem o “splash” avise. A imagem que abre o post foi tirada da internet, pelo que não garanto que seja fiel ao disco ou se representa uma imagem “limpa” sem o splash. O splash não deixa dúvidas sobre a edição em 73. Mas poderá ter havido alguma prensagem antes, em 1972?

Um pensamento

  1. Bom eu apenas tenho a edição do círculo dos leitores a edição original tem realmente uma espécie de carimbo a dizer vencedor do grande prémio tv de 1973 mas sempre ouvi dizer que Tocata é de 1972.Fica sempre essa dúvida e ainda ando à procura do original que é da Philips.

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