Os primeiros passos em nome próprio de Peter Murphy

Depois de terminada a primeira vida dos Bauhaus e também a primeira aventura a bordo dos Dali’s Car, Peter Murphy encetou em 1985 uma carreira a solo. Os seus dois primeiros álbuns conhecem agora uma reedição no suporte de vinil. Texto: Nuno Galopim

Quando, em julho de 1983, o álbum Burning From The Inside chegou às lojas de discos, os Bauhaus já não existiam. A porta havia sido fechada dias antes num concerto em Londres – que não fora anunciado como o derradeiro – no qual David J deixara o palco com a mensagem aparentemente críptica “ rest in peace”… O fim já se começara a desenhar algum tempo antes. Uma pneumonia impedira Peter Murphy de participar em muitas sessões de Burning From The Inside o que fez com que, sobretudo, David J e Daniel Ash, tomassem ali outro protagonismo tanto na escrita como na própria gravação das vozes. Ash, de resto, tinha já gravado um disco a solo através dos Tones On Tail, começando a desenhar pontos de tensão que se acentuaram e conduziram à rutura. Ash e o baterista Kevin Haskins mantiveram-se nos Tones on Tail até que, pouco depois, a eles se juntou David J para formar os Love and Rockets (de certa forma uns Bauhaus sem Murphy). O vocalista, por seu lado, começou por criar uma banda com Mick Karn (ex-Japan) e o baterista Paul Vincent Lawford (se bem que deste nunca se fale não sei porquê, embora estivesse lá). O álbum que então editaram – The Waking Hour (1984) – era bela peça de art pop que não cativou atenções, pelo que a banda a ele não sobreviveu e, em 1985, Peter Murphy deu por si a encetar uma obra a solo. Tal como acontecera desde a origem dos Bauhaus, teve o grupo Beggars Banquet por casa editorial, ligação que se manteve até 1995 e que correspondeu a cinco álbuns de estúdio e, mais adiante, já no ano 2000, a um ‘best of’ (Wild Birds – 1985-1995) que serviu um primeiro retrato deste período da sua carreira. Período que, agora, é novamente abordado nesta caixa em forma de livro que junta os cinco álbuns editados nesse período, juntando a cada um os temas que correspondem aos singles e máxi-singles associados a cada um deles.

A história começa em 1985 com o mais ignorado e, ao mesmo tempo, talvez o musicalmente mais desafiante destes discos. Com o próprio patrão da 4AD Ivo Watts Russell na equipa de produção e uma presença (pontual) do ex-parceiro Daniel Ash na guitarra, Should The World Fail To Fall Apart é um retrato de um tempo de demanda e mudança. Estão aqui ecos próximos das experiências nos Dali’s Car, assim como se registam aqui – como se escuta por exemplo na abordagem vocal em The Light Pours Out Of Me, um original dos Magazine – as mais evidentes ligações de Peter Murphy às memórias dos Bauhaus. Mais adiante, em Final Solution, apresenta um olhar seu sobre um tema dos Pere Ubu. Há, contudo, sinais de pistas que exploraria mais adiante tanto na abordagem mais pop de Blue Heart ou nos desenhos atmosféricos de Jemal. Se este disco estiver ausente da vossa ementa de sons há muito tempo (ou não o conhecem) justifica um reencontro porque representa mesmo o elo de ligação entre o que fora a vida de Peter Murphy em bandas e as etapas, a solo, que teve depois pela frente.

Should The World Fail to Fall Apart passou algo longe das atenções. Melhor sorte conheceu Love Hysteria (1988), álbum que abriu um ciclo de três discos  – os outros seriam Deep (1990) e Holy Smoke (1992), a reeditar em maio – nos quais Peter Murphy deixa para trás o ícone gótico de outrora para encarnar a figura de um herdeiro de Bowie (do Bowie de finais de 70) num espaço indie pop que permite diálogos entre guitarras e sintetizadores, revelando a pose vocal o tom grave e arrebatador de crooner que tão bem então dominou. Criado com uma banda que entretanto juntara para fazer estrada, Love Hysteria é um disco de arestas bem desenhadas, polido nas formas e capaz de conquistar num primeiro encontro, quer nos momentos cenicamente mais elaborados de Marlene Dietrich’s Favourite Poems ou em canções de apelo pop irresistível como Indigo Eyes ou Dragnet Drag.

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