O meu primeiro CD atravessou um oceano

Já tinha ouvido falar dos novos “compact discs”… Mas a primeira vez que os escutei, neles peguei e os vi à venda em grande escala foi quando, em 1987, me instalei em Filadélfia, a um oceano de distância do que tinha sido o meu percurso de vida até ali. Tinha amigos no departamento RTF – ou seja, Radio Television and Film – da Temple University e foi ali mesmo, na fonoteca da universidade, que vi um leitor de CD e primeiros discos que ali mesmo me deixaram escutar… Aquilo soava! E muitas vezes ali fui para os ouvir… Coisas do tempo em que não havia cancelas nas portas das instituições, s entrava aqui e ali com um simpático bom dia e, da habituação das visitas aos lugares, quase nos aceitavam como se ali pertencêssemos. Foi assim nessa fonoteca na qual, em vinil, me deixaram descobrir o quádruplo LP com a gravação de Einstein On The Beach de Philip Glass, assim como discos de Steve Reich, Terry Riley, John Adams e outros mais que claramente moldaram então os rumos do meu gosto.

            Havia naquela fonoteca universitária muito mais discos em vinil do que em CD… Mas foi igualmente em Filadélfia que, pela primeira vez, vi uma loja para gostos mainstream claramente marcada pelo formato do CD. Foi numa Sam Goody’s, uma loja votada para um gosto pop(ular) que havia em South Street, uma zona “betinha” da cidade onde ia frequentemente porque ali havia perto uma sala de cinema que se gabava de ser “europeia” (porque não tinha pipocas) e uma gelataria em cuja esplanada passei algumas belas tardes a falar sobre… música pop. O meu grupo de amigos rapidamente ganhou forma pelas afinidades no gosto da música. 1987 foi o ano em que nomes como os Depeche Mode, Erasure ou New Order começaram a marcar mais claramente o gosto de alguns universitários americanos. E ali eu era o “europeu” que podia falar dos Yazoo (a quem eles chamavam apenas Yaz), dos Soft Cell, dos Human League, dos Visage, de Jean Michel Jarre e outros nomes ligados à emergência de uma pop eletrónica. Creio que foi ao dar por mim a falar sobre música naquelas tardes de esplanada, gelado e plateia interessada em ouvir, que senti que se calhar o meu caminho seria mais feliz se fosse mais por estes lados (a divulgação das coisas da música, dos discos e de quem os faz) do que no universo da geologia (o curso que estava a tirar).

            Mas voltemos ao CD. E à Sam Goody’s… A loja não era grande. Mas dividia o espaço entre o vinil (sobretudo no formato de LP) e o CD… Com cassetes também… E havia uma característica curiosa no modo como os CD eram embalados nos Estados Unidos. A pequena caixa de plástico – jewel box é a expressão correta – não se vendia com um mero celofane a embrulhá-la, como acontecia na Europa, mas surgia dentro de uma caixa de cartão em forma retangular e com proporções que excediam as do CD. Isto porque um dos lados da caixa era claramente maior, permitindo aos discos um armazenamento – e consulta por parte do potencial comprador – nos mesmos espaços onde antes eram arrumados os discos em vinil…

            Apesar desta evidente chamada de atenção para um novo formato, o CD não era ainda a opção dominante. Tanto que, a 31 de agosto (de 1987), o dia em que foi editado Bad, de Michael Jackson, a imagem que guardo de andar no metro de Filadélfia é a de ver gente e mais gente com o álbum – acabado de comprar – debaixo do braço. Assim mesmo, fora do saco, como que a dizer aos demais: “já o comprei”… A euforia era evidente… Na véspera um dos canais de televisão tinha estreado a versão integral do teledisco do tema título, rodado em Nova Iorque por Martin Scorsese, traduzindo a expectativa com que era aguardado o lançamento do sucessor de Thriller, o álbum de 1982 que entretanto se tinha já transformado no disco mais vendido da história. Pelo caminho Michael Jackson tinha editado um álbum de gravações antigas e inéditas (Farewell My Summer Love) e um disco com os Jacksons (o grupo que o reunia com os irmãos). Mas Bad era o sucessor de Thriller. E naquele dia 31 de agosto, foi visível a forma como muitos fizeram questão de levar o disco para casa mal ele chegou às lojas… Podia haver quem o tivesse comprado em cassete e CD… Mas a quantidade de pessoas com Bad, em LP, debaixo do braço, é uma das imagens mais fortes que guardo dessa minha primeira visita aos EUA…

As caixas alongadas dos primeiros CD americanos

            Passei pela Sam Goody’s por esses dias e tive nas mãos o CD de Bad… Pensei… Levo? Não Levo?… No apartamento, na cidade, tinha apenas um gira-discos e um leitor de cassetes. Tal como acontecia na casa em Lisboa… E acabei por optar pela versão em vinil. Queria poder ouvir as canções. E esse foi assim um dos muitos discos em vinil que juntei e que depois, devidamente empacotados, trouxe no avião quando regressei meses depois a Lisboa… Mas nessa viagem de regresso trouxe um CD a bordo. Não ia no caixote de cartão com o vinil, mas sim na mochila, onde estavam igualmente acondicionados alguns dos singles e EPs que tinha comprado. Não tinha ainda um leitor de CD, volto a sublinhar. Mas mal vi aquele disco – do qual tinha a prensagem em vinil – no “novo” formato digital não resisti. E assim, de impulso, comprei a edição em CD de Visage, o álbum de estreia do projeto criado por Steve Strange, Rusty Egan e Midge Ure (e onde tocavam outros músicos, entre os quais Barry Adamson) e que era de certa maneira o retrato, para ouvir, da movida londrina que tinha inscrito na cultura popular o movimento new romantic (e, com ele, uma revolução na forma de explorar referências e desafiar códigos identitários na pop dos anos 80).

            Esperei meses até poder ouvir o CD dos Visage. E foi apenas no Natal seguinte que um leitor de CD Phillips (não me recordo o modelo) chegou a casa, ficando instalado no meu quarto, que corresponde à divisão da casa onde hoje tenho o escritório. Nessa ocasião lembro-me de ter recebido, em CD, uma gravação da 9ª Sinfonia de Beethoven. E qual é a graça dessa coincidência? É que a duração do CD foi originalmente definida de forma a que um único disco pudesse comportar a duração de uma interpretação da nona de Beethoven. E nessa noite de Natal lembro-me de termos connosco o António Ribeiro, que foi meu professor (acho que de Geologia Estrutural), mas na verdade era um amigo de sempre de nossa casa, e que ali dirigiu de cor, em formato “air batuta”, o quarto andamento da sinfonia, enquanto todos escutávamos, deliciados, o “som” da máquina nova.

            Nos meses seguintes comecei a dividir as compras de discos entre o CD e o LP… Eram questões de “som”, de “estilo” (sim, era moderno ter CD) e de… economia. Um LP custaria uns 1500 escudos, com o CD a atingir valores perto dos 3 mil, ou até mesmo a excedê-los no caso de algumas importações. Mantive o LP como formato preferencial na música pop (comprando contudo versões em CD de discos de que já tinha a versão em vinil, dos Duran Duran aos Depeche Mode ou Japan). E usei sobretudo o CD para os espaços da música contemporânea, ambient, bandas sonoras, coisas da 4AD ou da Les Disques du Crepuscule e por aí… Philip Glass (os meus pais trouxeram-me do Canadá o Aknathen, por cá comprei o Glassworks, o Koyaanisqatsi, o Photographer, o Songs From Liquid Days, o Dancepieces e o que mais encontrei), John Adams (um dos primeiros CD que tive foi a ópera Nixon in China), Steve Reich (Music For 18 Musicians), Wim Mertens (Maximizing The Audience), Michael Nyman (A Zed and Two Noughts), Arvo Pärt (Arbos), Harold Budd (White Arcade), Jon Hassell (Power Spot), Brian Eno (Music For Airports), estão entre os meus primeiros CD. A VGM, no Príncipe Real (ainda por cima ao pé de casa) foi então a minha principal fonte de compras de música em CD, com a Bimotor (nos Restauradores) a ser a principal fornecedora dos CD pop/rock de importação, entrando pouco depois em cena a ainda mais entusiasmante oferta da Contraverso, no Bairro Alto. O primeiro CD “tuga” que tive foi Existir, dos Madredeus. Foi uma “oferta” promocional da EMI. Estava já na Antena 1 a trabalhar e, por esses dias, a fazer o horário do “Sete Mares”, durante uma licença da Sílvia Alves, autora do programa. O vinil era o formato corrente na promoção discográfica. Mas naquele horário, e perante um disco novo (o segundo) dos Madredeus, lá tive “direito” ao CD…

PS. Texto escrito ao som do meu primeiro CD…

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