Rolling Stones “Sticky Fingers” (1971)

Se houve um dia em que os Rolling Stones puderam dizer aquela “velha frase batida” que conhecemos da canção de Sérgio Godinho, foi a 23 de abril de 1971. Há meio século. Porque esse, de certa maneira, foi um primeiro dia do resto da vida dos Rolling Stones. É verdade que Ronnie Wood (uma presença central desde há muito no grupo) ainda ali não tinha chegado. Mas no dia em que lançaram Sticky Fingers os Rolling Stones não só apresentavam um primeiro álbum de estúdio sem o seu fundador Brian Jones, tal como como editavam um primeiro disco pela sua própria editora, estreando aquele que talvez seja o logotipo mais célebre alguma vez criado pela cultura pop: os lábios e a língua.

         Com um apelo a referências rock’n’roll primordiais, Brown Sugar tinha assegurado um cartão de visita poucos dias antes. De certa maneira confirmava-se o recentrar de azimutes em torno das heranças americanas mais “clássicas” (leia-se a escola enraizada nos blues, da qual You Gotta Move é claro exemplo) que tinham habitado a própria génese dos Rolling Stones a que o grupo tinha já começado a regressar entre os álbuns Beggars Banquet (1968) e Let It Bleed (1969). A opção por essa reorientação, que em parte se manifestava igualmente na instrumentação mais clássica – sobretudo guitarra, baixo, bateria – não os impediu contudo de levar ao alinhamento de Sticky Fingers ocasionais episódios com sabor mais aventureiro, tal como se escuta nos arranjos orquestrais, mais discretos em Sway, mais evidentes no colossal Moonlight Mile que encerra o alinhamento. E o mesmo se poderá dizer do flirt jazzy que encontramos em Can’t You Hear Me Knowcking. Contudo, além do single que lançou o álbum, os “clássicos” que emergiram do alinhamento de Sticky Fingers foram Wild Horses e Sister Morphine, esta última originalmente lançada pela sua coautora Marianne Faithfull, semanas antes.

         Mick Taylor, que chegara a tocar em dois temas de Let It Bleed e estava já presente no álbum ao vivo entretanto lançado em 1970, tem aqui uma das suas mais importantes participações num disco dos Stones (o mesmo se poderá dizer do seguinte Exile on Main Street, de 1972). Sticky Fingers começou na verdade a nascer ainda durante as sessões do álbum de 1969, nas quais surgiram primeiros temas, mais adiante, em finais de 1970, seguindo-se nova etapa de trabalho nos míticos estúdios Muscle Shoals, no Alabama, escolha que reforça a alma americana da música aqui apresentada.

         Contudo, e apesar das canções de sucesso e dos valores musicais em jogo, aquilo de que mais se falou quando o disco chegou às lojas foi… a capa. Criada por Andy Warhol (que voltaria a trabalhar com os Stones), apresentava uma anca masculina, com volumes que incomodaram algumas sensibilidades mais conservadoras. Na verdade o mais surpreendente da capa era mesmo a existência de um real fecho-éclair, que destapava a imagem de roupa interior que se poderia ver por detrás… Mais do que os “incómodos”, como os que levaram, Singapura a retirar o disco (como conta Bill Wymann na sua biografia dos Stones) ou Espanha a optar por uma imagem diferente – na verdade bem mais “perturbante” (ver em baixo) – o modo como o fecho-éclair tornava a produção mais cara e podia danificar o próprio vinil acabou por levar prensagens seguintes a optar por uma mera produção fotográfica da imagem original… Muito se disse já sobre quem seria o modelo usado na foto. Warhol, o autor da imagem, nunca o disse. E aqui as teorias da conspiração nunca terão uma resposta definitiva…

A capa da edição espanhola de “Sticky Fingers”

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