Vários Artistas “O Disco do Ano” (1981)

Há o pop, o popular e o… popularucho… Eram mundos nem sempre capazes de se cruzar e conviver. Mas todos estes universos habitaram a compilação de êxitos que, com o título Disco do Ano, a Rádio Triunfo editou em 1981. O catálogo disponível fechava sempre o leque de escolhas deste tipo de compilações. E para juntar as 18 faixas do alinhamento deste LP a editora contou não apenas com os nomes da casa mas também com artistas editados pela italiana Baby Records, a espanhola Hispavox e da Som Indústria e Comércio (que representava o selo brasileiro Copacabana).

         Há aqui um choque de mundos. Que talvez não parecesse coisa ainda estranha em 1981, mas que a ouvidos que se cruzem com este alinhamento, 40 anos depois, pode parecer o equivalente a um bife com molho de marisco, acompanhado por farófias. O sabor parece estranho? Pois essa era a ideia.

         Há um tesourinho (nada deprimente) a abrir o alinhamento. Trata-se do açucaradamente “moderno” I Wanna Be Your Lover, uma aventura pop feita com eletrónicas e com design pensado entre o sci fi e o kitsch que os italianos La Bionda apresentaram em 1980 e que talvez tenha resistido melhor à passagem do tempo do que o seu clássico disco sound que fora One For You One For Me, de 1978. Ainda de Itália, mas agora cantada em italiano, surgia outro dos momentos de “sucesso” aqui fixados. Trata-se de Mamma Dammi 100 Lire de Raffaella Carrá, cantora popular de quem a RTP por esta altura passou vários especiais criados para o pequeno ecrã e que, mais recentemente, foi magnificamente evocada numa sequência incrível do filme A Grande Beleza, de Paolo Sorrentino, com o seu clássico Fa L’Amore, porém numa versão de Bob Sinclair. Pop e popular, até aqui, portanto.

         O alinhamento apresentava, depois, perdido a meio do lado B, o tema Ela Controla, dos portugueses Rock & Vários, presença que sublinhava a vontade da Rádio Triunfo em criar um catálogo pop/rock nacional, ao qual pouco depois se juntariam os UHF. Temos, por isso, aqui, ecos diretos do impacte do que foi o chamado “boom” do rock português de 1980/81.

         Mas depois o resto do alinhamento não mais parece estar atento à modernidade pop e às mega-estrelas populares da televisão internacional. E ora junta êxitos recentes de vozes do espaço da canção ligeira nacional (como Mara Abrantes ou Tó Maria Vinhas) ora escutava mais sucessos populares espanhóis (Juan Pardo) e italianos (Ricchi e Poveri). Acrescentava umas versões com sabor produto-branco como é o caso do sucedâneo de Amoreux Solitaires, na origem um hit da pop eletrónica made in France, que fez escola com a luso-francesa Lio que se escuta aqui em Amores Solitários de Yuri. Ou a versão da canção Bette Davis Eyes, então feita êxito por Kim Carnes, mas na voz de Kelly Barnes… Quem? Kelly Barnes. Ah, Kelly Barnes (acrescentar em surdina: não sei quem é).

         Mais com sabor a festa de verão na aldeia do que coisa com travo a banda sonora para uma noite entre amigos na cidade, este Super Disco acaba sobretudo dominado por um tom de festa alheada das matrizes do que era cool e hip por aqueles dias. E se por um lado O Rapaz do Casaquito, pelos Terra a Terra, traduz ecos de uma geografia rural, já as canções de Pedro Marin, The Singers, Angelo Máximo, Jose Luis Perales, Fernando ou Waldirene são canções que a memória (pelo menos a minha) não fixou… E se calhar algumas delas nunca tinha ouvido… Há, como cereja por cima do bolo, uma versão dos “passarinhos a bailar” pelos Karisma (mas sem ponta de carisma), em espanhol. Vai mais uma volta y olé, e se houver ainda bifanas era mais uma ó fáchavor!

2 pensamentos

  1. Grandes clássicos com Sara Perche Ti Amo dos Ricchi e Poveri, no Me Hables de Juan Pardo, O Passarinho de Tó Maria Vinhas ou Guerra dos Meninos na versão de Mara Abrantes. Há pouco tempo falou-se de versões de temas conhecidos por nomes desconhecidos e aqui há vários (Fame, Bette Davies). Quanto ao tema dos La Bionda era habitual como separador da RTP e andou pelo top 10 da tabela Todos No Top. Já agora os irmãos la Bionda eram também os autores dos temas dos Righeira. Para mim o tema “Hey Mano” do Fernando Correia Marques (o mesmo do Burrito) fez parte do boom do rock português numa vertente mais ligeira https://www.toxicidades.pt/search?q=mano.

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    1. Curioso que Juan Pardo e Pedro Marin aparecem em destaque na capa mas os temas não foram sucesso ao contrário de singles anteriores. “No Me Hables” que eu referi está noutra compilação da RT! Dos covers não referi “Woman in Love” dos The Singers. Curiosamente no discogs tem um single do grupo com versões de Secret Service (Ye-si-Ca) e Boney M (Felicidad). Os Karisma foram uma das centenas de versões do tema “Dança dos Passarinhos”. O tema de Waldirene é uma versão brasileira de um tema de Captain & Tenille.

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