Vários Artistas “Vinte Super Bombas” (1982)

Apesar da força dos nomes das séries que, com regularidade, propunham coleções de êxitos do momento, de vez em quando surgiam lançamentos com outros títulos. Foi o caso da compilação que, em 1982, a Valentim de Carvalho lançou sob o título Vinte Super Bombas, guardando a “marca” Jackpot para uma mais discreta referência na contracapa. O disco apresenta, contudo, uma evidente lógica de continuidade entre o Jackpot – Os 30 Superêxitos 81 (do ano anterior) e Jackpot – 30 Super Tops que chegaria em 1983, estes dois ambos lançados no formato de álbuns duplos. Com um alinhamento de 20 temas, arrumados nas duas faces de um mesmo LP, Vinte Super Bombas é um retrato do Portugal pop(ular) em 1982, ainda sob ecos de 1981.

            O alinhamento traduz já a evidência sólida do estatuto popular (traduzido em vendas de discos) de uma nova cultura jovem que tinha, entretanto, conquistado visibilidade mediática (sobretudo na rádio e televisão) entre 1980 e 81 e que tivera como principal consequência a revelação de uma nova geração de músicos e bandas pop/rock com capacidade para criar êxitos locais. Passados os primeiros sucessos de 1980 e inícios de 1981, a colheita aqui representada traduz já a solidez de nomes que não eram já revelações, mas sim certezas: GNR, com Hardcore – 1º Escalão, UHF com Modelo Fotográfica ou Vígaro Cá Vígaro Lá de Lena d’Água (e a sua nova Banda Atlântida) são claros exemplos de um panorama que assistia já à criação de novos episódios de carreiras em curso. Ao mesmo tempo a eles juntavam-se Patchouly (na versão sem “piii”, não censurada), do Grupo de Baile, um dos maiores fenómenos em estatuto “one hit wonders” desta geração, assim como um êxito maior com música de Ricardo Camacho e letra de Miguel Esteves Cardoso que Manuela Moura Guedes apresentou no melancólico hino urbano com o título Foram Cardos Foram Prosas e que representou uma das melhores canções da colheita nacional de inícios dos anos 80, piscando o olho aos ambientes e cenografias da Factory Records (a casa dos Joy Division). Entre os universos outrora designados por “ligeiros” e marcas da nova cultura pop, O Rapaz do Cubo Mágico de Lara Li e Pó de Arroz de Carlos Paião alargavam assim o poder de sedução de um alinhamento que notava ainda a presença de nomes mais próximos de uma relação com heranças populares que ganhou visibilidade perante a ressaca de alguns excessos (de oferta) do chamado “boom” do rock português. E nesse espaço surgem aqui Outra Margem dos Trovante ou Salvé Maravilha, com a voz de Né Ladeiras, que então apresentara o álbum Também Eu, da Banda do Casaco. A contribuição local junta ainda Branco Velho Tinto e Geropiga, êxito de Dany Silva que acrescentava uma relação com ecos de diáspora lusófona a este retrato. E com isto estão aqui dez canções. Ou seja, a produção nacional fazia 50% do alinhamento.

            Depois estavam aqui os campeões pop/rock do momento, os Duran Duran, com Girls on Film, canção que por esta altura tinha já uns meses de vida, o que sugere que a editora deve ter optado por não minar aqui o potencial das vendas dos novos discos que então tinham surgido, nomeadamente os singles My Own Way ou Hungry Like The Wolf. Aos Duran Duran juntavam-se os Classix Nouveaux com Never Again, Kim Wilde com Chequered Love, os Stranglers com Golden Brown, Olivia Newton John com o colossalmente popular Physical, Diana Ross com Why Do Fools Fall in Love ou Billy Squier (com The Stroke), guitarrista americano que o tempo foi apagando da memória. Para gostos para um público mais dado às baladas o alinhamento propunha You Could Have Been With Me de uma Sheena Easton já longe do apelo de um passado recente. E para gente mais “crescidinha” (mas de gosto pouco gourmet) servia-se Share Your Love With Me, do mui aborrecido (mas por muitos adorado) Kenny Rogers e Daddy’s Home, de Cliff Richard (que depois de We Don’t Talk Anymore, em 1979, não teria um êxito maior salvo o remake do seu Living Doll em 1986).

            Face ao que era o catálogo da editora naquele tempo, e olhando para as presenças nos Jackpot de 1981 e 1983, as Vinte Super Bombas deixam estranhamente de lado nomes então muito populares como os de Rui Veloso ou de Marco Paulo, assim como o caso de sucesso da altura que foi Always Something There to Remind Me dos Naked Eyes (que surgem depois representados na compilação de 1983).

            O título da compilação e a própria imagem da “bomba” que atravessa um LP em vinil não deixa de traduzir um tempo em que o mundo vivia ainda em clima de guerra fria. O medo acentuado de uma eventual terceira guerra mundial chegaria pouco depois, entre 1984 e 1986… Mas depois da revolução iraniana e da invasão do Afeganistão pela URSS em 1979, do aparecimento de Lech Walesa à frente do Solidariedade na Polónia em 1980, os atentados contra Reagan e o Papa João Paulo II em 1981 ou, nesse mesmo ano, o assassinato do presidente egípcio Sadat, o mundo viva sob tensão… E não era invulgar falar-se de… bombas.

2 pensamentos

  1. Há poucos anos encontrei na net um site internacional dos Duran Duran que referenciava várias compilações com temas dos Duran Duran incluíndo esta. O mais curioso é que no mesmo site http:–www.durancollection.com/disco/vvaacomp/vvaalps.htm aparece a compilação da emi espanhola com uma capa semelhante mas com o nome TWENTY WITH A BULLET: 20 IMPACTOS

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  2. “TWENTY WITH A BULLET” foi o nome usado na compilação de 1982 da EMI inglesa mas também em outros países. Alguns dos temas repetem-se daí o aparecimento de Cliff, Sheena Easton ou Billy Squire. Há nomes que aparecem com outros temas como Duran Duran (My Own Way), Kim Wilde (Cambodia) ou Classix (Is It a dream). Apesar da semelhança com as compilações da jackpot marca alguma diferença pelo facto de ser um único disco. Quanto às possíveis faltas. O disco já tem metade de canções portuguesas, Marco Paulo estava a lançar o “Disco de Ouro” e Rui Veloso não teve tanto destaque mas pode estar relacionado com a data de edição da compilação ter sido em data anterior. A VC até deu-se ao luxo de emprestar o “Estou Além” (A.V.) e o “A Minha Namorada Até Fala Estrangeiro” (Rui Veloso) para o “Disco Do Ano Da Música Portuguesa” da Rádio Triunfo. O tema dos Naked Eyes só teve sucesso em 1983. “Some People” de Cliff Richard aparece no “Jackpot 87”. Em jackpots seguintes Sheena Easton apareceu ainda com “Telefone”, “Strut” e um dueto em espanhol com Luis Miguel – “Me Gusta Tal Como Eres”. Outro marco na sua carreira foi o dueto com Kenny Rogers. [cf. dados do site discogs]

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