Quando a beleza é devastadora, segundo Marianne Faithfull e Warren Ellis

A ideia era antiga. Com sessenta anos. Marianne Faithfull tinha então 14 quando teve pela primeira vez uma antologia de poetas ingleses reunida por Francis Palgrave. E dos mundos que a esperavam entre as páginas de Golden Teasury of English Songs as descobertas que mais a marcaram chegaram assinadas por grandes nomes da poesia romântica. John Keats, Percy Bysshe Shelley, Thomas Hood, William Woodsworth, Lord Tennyson ou Lord Byron, de quem o poema de 1814 She Walks in Beauty dá agora título ao disco que, aos 74 anos, Marianne Faithfull finalemente apresenta como expressão direta dessa paixão pelas palavras que começou a ganhar forma sessenta anos antes.

            Era antiga a sua vontade em criar um disco de poemas. Mas faltavam os parceiros certos. E também quem o quisesse lançar… O percurso recente foi juntando as peças. Before The Poison, de 2005, iniciou uma colaboração com Nick Cave que, desde então, se tornou presença regular (como autor) em canções de quase todos os discos que lançou desde então. Depois, em Give My Love to London (2014) começava a entrar em cena Warren Ellis, que aí tocou violino, viola e flauta em cinco canções, coassinando, quatro anos depois, a produção do sucessor Negative Capability, disco no qual também tocou vários instrumentos e colaborou na autoria de um dos temas… Na hora de avançar para a criação do tão sonhado álbum de poemas, a um dos pares mais criativos que a música do nosso tempo conhece – a dupla Cave/Ellis – juntou-se ainda Brian Eno… É coisa só comparável ao elenco de deuses no Olimpo…

            A criação do disco, no qual Warren Ellis partilha o protagonismo, já avançava quando a hospitalização de Marianne Faitfhull – que chegou a ser considerada como caso grave – interrompeu as gravações, que seriam depois retomadas, concluindo com final feliz um projeto que leva agora a sua voz a outras paisagens. A voz que não é a clássica expressão do diseur de poesia, mas a de uma vida vivida em pleno, conhecedora de facto de sonhos e também de abismos. Uma voz magoada, mas nunca desistente… Um poeta romântico, convenhamos, não podia desejar nada melhor… Às palavras escritas e, depois, lidas, juntam-se cenografias que em tudo traduzem o que podemos esperar do trio de colaboradores em jogo. A música sugere as telas ambientais nas quais a voz conduz sentidos presentes para ecos de palavras antigas. O encontro é perfeito. Único. E belo… Como o poema de Byron, de resto, o sugerira já há mais de 200 anos.

“She Walks In Beauty”, de Marianne Faithfull e Warren Ellis, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da BMG

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