Uma experiência mais desafiante que acabou algo perdida entre a maré europop do seu tempo

Originalmente lançado em 1986, o segundo álbum dos Alphaville queria ser mais do que uma nova coleção de êxitos pop como os que o grupo apresentara nos dias de “Big in Japan” e “Sounds Like a Melody”. Uma nova reedição convida à sua redescoberta. Texto: Nuno Galopim

Podíamos ficar aqui umas valentes horas a debater a quase ausência de um discurso crítico sobre discos e vozes com obra entre as esferas da chamada produção musical mainstream. E basta olhar para o mapa presente da canção pop para questionar se, de facto, os nomes de quem se fala neste momento (quando se fala de sucesso popular) estarão devidamente representados nos espaços da crítica… Igualmente discreta é a relação com a memória, já que tende a deixar quase invisíveis obras, nomes e canções que fizeram os seus percursos antes da internet ter começado a fixar os feitos e quotidianos das gentes do mundo ao seu redor. Falando dos oitentas, por exemplo, se uma Madonna ou uns Pet Shop Boys, venceram o tempo e se tornaram de facto impossíveis de ignorar, a outros nem sempre é dada a honra da palavra que descreva e comente (independentemente das opiniões) o que criaram e nos deixaram. Goste-se ou não, o silêncio é muitas vezes o destino comum para muitas canções e discos. Passam-se as canções nas playlists focadas na nostalgia, muitas vezes reduzindo carreiras aos seus êxitos mais óbvios (como se não tivessem mais discos)… E o resto… são silêncios. Valem por isso as políticas de reedição como uma das janelas possíveis para resolver esses vazios.

É claro que houve na época algum discurso crítico sobre Afternoons in Utopia, o segundo álbum dos alemães Alphaville, editado em 1986, mas estará esquecido nas hemerotecas deste mundo. Dois anos antes o trio tinha conquistado visibilidade global com três singles de impacte maior – Big in Japan, Sounds Like a Melody e Forever Young – que depois surgiram reunidos num álbum de estreia do qual o quarto 45 rotações a ser extraído (Jet Set) não conheceu já o mesmo estatuto de popularidade. Pop eletrónica, animada por um gosto em explorar a pista de dança, a música dos Alphaville ajudou a cunhar a identidade de um espaço rotulado como europop, termo que semanticamente tem tudo para ser correcto, mas que depois acabaria por traduzir uma pitada daquele nariz-empinadismo brit, sendo muitas vezes retratado com a condescendência de quem olha a música pop criada na Europa continental como pequenos “casos” da saison que nascem do lado de lá do Canal da Mancha. Se olharmos para as coisas sem essa comichão “brexista” notaremos, antes, que a génese de uma ideia pop criada com eletrónicas foi de facto cunhada na Europa Continental, sobretudo com primeiros focos na Alemanha, antes mesmo de atravessar o mar… E depois dos pioneiros dos setentas, os oitentas assistiram ao natural milagre da multiplicação das ideias pop… na Europa.

Dois anos depois de Forever Young (assim se chamava o álbum de estreia dos Alphaville) o mapa da pop eletrónica não era mais o que tinha uns Telex ou Yello como visionários e Lio ou Mecano como casos de sucesso local (respetivamente em França e Espanha). A dimensão global dos êxitos dos Alphaville em 1984 seria suplantada logo no ano seguinte por uma vaga de êxitos europop que de certa forma ecoam o que sucedeu com o disco sound entre 1978 e 79, quando se percebeu que aqueles sabores abriam muitos apetites. É claro que não se podem comparar literalmente os fenómenos de sucesso lançados em meados dos anos 80 por uns Modern Talking, Baltimora, Sandra ou Fancy aos casos de êxito disco assinados por uns Boney M, Baccara, Ottawan ou La Bionda… Mas se há ali afinidades nos comportamentos (da produção à divulgação e consumo) é debate interessante a lançar. O certo é que, abafados pela invasão do espaço europop por uma multidão de novos artistas e discos (e aos acima citados podemos juntar uma multidão de one hit wonders) e vistos como autores de uma música nas imediações de um “eurolixo” pelos mais céticos em aceitar sequer escutar “sem preconceito” o que tinham para mostrar, o segundo álbum dos Aphaville acabou a pregar para surdos.

Apesar de apresentado, em finais de 1985, por Dance With Me, um single na linha do que eram as memórias dos hits do álbum de estreia, o segundo álbum dos Alphaville revelava-se afinal coisa mais ousada. Disco conceptual, olhava para o mundo com um certo travo sci-fi, criando uma pequena “ópera” pop que chamou uma multidão de músicos e vozes para dar forma a canções que procuravam caminhos que não eram os da pop mais imediata e festiva de Big ou Japan ou Sounds Like a Melody, mas não replicavam também o tom épico da balada que dera título ao primeiro disco. Afternoons in Utopia não é exatamente a manobra de desafio ao seu público que os OMD assumiram quando editaram Dazzle Ships depois do sucesso maior de Architecture and Morality. Mas é um álbum de formas elaboradas, elegantes, com flirts a uma noção arty da canção pop (o vocalista é confesso admirador dos Roxy Music). Dance With Me e, mais ainda, Sensations (igualmente editado como single) são as pontes mais evidentes com o álbum de estreia. Já Universal Daddy, Jerusalem ou Red Rose (os três restantes singles) procuraram caminhos de maior exuberância nas formas. Mas é depois, entre o coro que abre o alinhamento com IAO, o lançamento da narrativa que depois continua em Fantastic Dream, a dimensão operática do tema-título ou as cenografias mais cinematográficas de 20th Century, Carol Masters ou Lassie Come Home que se vinca a ideia de um esforço claramente distinto do que era o grosso da oferta europop de 1986…

Talvez pelo contexto e pelo facto de serem encarados como eventuais autores de sucessos de verão que ficariam fechados na memória, os Alphaville não viram o seu disco ser devidamente escutado quando entrou em cena (e nada disto tem a ver com o gosto, simplesmente o disco parece não ter sido encarado como peça “digna” de gerar um discurso crítico). Agora, 35 anos depois, a reedição (que chega ao mesmo tempo de uma outra que volta a disponibilizar o sucessor The Breathtaking Blue, de 1989, convida-nos a um reencontro. O álbum, com som remasterizado, surge num formato em CD com um segundo disco com extras (versões máxi, lados B, demos e uma gravação ao vivo). Mas de tão “ignorado” que foi o próprio alinhamento do LP, a sua (re)descoberta em si já é um valor a ter em conta em 2021. Um álbum pop conceptual, desenhado sob um clima quase operático, Afternoons In Utopia ficou originalmente perdido entre os êxitos da saison… Mas merece, goste-se ou não, ser ao menos reconhecido como um esforço criativo diferente que assim nos ajuda a redesenhar, afinal, o que foi essa coisa a que se chamou europop (e que tem mais pérolas a redescobrir… sem preconceito).

“Afternoons In Utopia (2021 Remaster)”, dos Alphaville, está disponível em formato de 2CD e nas plataformas digitais numa edição da Rhino. Está igualmente disponível uma reedição em LP, mas sem o disco de extras.

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