Melhor (bem) acompanhado do que só…

O segundo álbum a solo do ex-Vampire Weekend Rostam (que deixou de usar artisticamente o apelido Batmanglij) mostra que é na arte da cenografia e da produção que estão de facto os seus maiores trunfos. Não é mau. Mas Rostam já nos deu melhor. Texto: Nuno Galopim

Foi através de um tweet que, em 2016, Rostam Batmanglij anunciou que ia abandonar os Vampire Weekend, deixando contudo a porta aberta a futuras colaborações tanto com o vocalista Ezra Koenig como em novos discos da banda na qual desempenhara um papel fulcral até então… E facto assim aconteceu em duas canções do álbum Father Of The Bride… Surpresa? Nem por isso. Num tempo de pausa entre discos dos Vampire Weekend Rostam tinha-se já juntado ao vocalista dos Ra Ra Riot para, através do projeto Discovery, experimentar outras ideias e destinos, valorizando mais do que nos discos do seu daytime job a presença das eletrónicas. Depois houve trabalhos com figuras como Charli XCX ou Carly Rae Jepesen. Um álbum gravado a meias com Hamilton Leihauser (dos The Walkmen). Lançar-se numa rota a solo, decisão que acompanhou também uma mudança de casa de Nova Iorque para Los Angeles, não era de todo um elemento de rutura neste percurso e traduzia sobretudo ecos da multidão de ideias e desejos que o habitavam…

              Editado em setembro de 2017, embora engolido pelos tubarões da rentrée, Half Light, o álbum de estreia de Rostam – deixou o Batmanglij de lado na assinatura artística – não conheceu a mesma exposição mediática do que a que antes abraçada o primeiro disco a solo do ex-companheiro de banda Chris Baio. Mas a verdade é que se o primeiro álbum de Baio revelou um bouquet de deliciosas canções pop, o álbum de estreia de Rostam apresentava um prazer para o ouvido que gosta de sabores gourmet. Porque, além de um bom esforço de composição, o que mais encantava nesse primeiro disco a solo era o trabalho de procura e moldagem de sons. E era aí que as visões feitas de muitas cores e formas que já antes passavam por outras experiências de Rostam, ganha um novo solo não menos firme. Tudo ali cabia. E tudo ali fazia sentido.

              Quatro anos depois um segundo álbum a solo acontece não apenas depois de confirmada a promessa de eventuais novas colaborações com os Vampire Weekend, mas também novas parcerias (na produção e até mesmo na escrita) com terceiros. E do cartaz de colaborações recentes destacaram-se as que o ligaram a discos recentes de Clairo e das Haim. Agora cabe a Changephobia juntar mais um capítulo a este percurso na verdade mais vivido em parcerias do que a solo. Na hora de pensar um segundo disco por um lado vemos Rostam a afastar-se mais do que pareciam ser as descendências naturais do trabalho nos Vampire Weekend, às quais se juntavam novos mundos de possibilidades e desejos. À luz e multidões de acontecimentos de Half-Light o novo Changephobia propõe uma sugestão de redução de escala na cenografia das canções. Não desaparece o gosto do esteta que gosta de trabalhar os sons (e as referências convocadas), mas sente-se em várias canções uma busca de uma mais (relativa) simplicidade nos jogos das formas. Não é pecado que assim seja. Mas quando a composição não está no calibre do que Rostam vivia a bordo dos Vampire Weekend, a maior contenção no trabalho das formas finais destapa mais as fragilidades. Não deixa de ser curioso que, quando se aproxima dos terrenos que já viveu em vivências partilhadas (nomeadamente os Vampire Weekend), como o faz em From The Back of a Cab, a coisa funciona melhor. Já a sua visão mais descarnada da canção indie em 4Runner mostra como, nesse patamar, a sua música perde o poder do encantamento… Pessoais, íntimas mesmo, as canções de Rostam brilham mais quando o esteta não olha a meios na hora de as encenar. Half-Light cativava por isso mesmo. Changephobia não é que seja um disco menor. Mas não brilha da mesma maneira. 

Changephobia”, de Rostam, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais numa edição da Matsor Projects.

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