Como Aretha Franklin levou a sua voz para além das dimensões da própria música

Disponível na plataforma Disney +, a terceira temporada da série “Genius” recorda episódios da vida de Aretha Franklin notando não apenas o seu percurso na música mas evocando também uma força transformadora que soube agir sobre a sociedade. Texto: Nuno Galopim

E depois de Albert Einstein e de Pablo Picasso, a terceira temporada da série Genius tem como protagonista… Aretha Franklin. E assim, a semanas da chegada do muito esperado Respect, um biopic para cinema no qual a “Rainha da Soul” será interpretada por Jennifer Hudson, eis que pelo pequeno ecrã pode já entrar pelas nossas casas um conjunto de olhares sobre uma figura que não só representou uma das maiores vozes do século XX como traduziu, pela sua história de vida, um percurso de luta que a fez enfrentar modelos em vigor no mapa dos comportamentos sociais, impondo-se pela tenacidade da sua personalidade tanto entre um meio familiar patriarcal, em cenários de uma América segregada ou num espaço profissional que nem sempre entendeu o seu potencial e caminhos que poderia seguir.

            A terceira temporada de Genius – que aos poucos está a surgir na plataforma Disney + – não procura fazer da história de Aretha Franklin uma ficção baseada no era uma vez cronologicamente arrumado ao jeito de uma entrada de Wikipedia. Pelo contrário, a liberdade com que o tempo surge a definir os momentos das ações faz com que o percurso entre os episódios da série vá lançando pontos que, aos poucos, vamos ligando. Cada episódio tem um tema central e por isso vive ficado no tempo e geografia da memória evocada. O primeiro episódio, por exemplo, leva-nos aos míticos estúdios Muscle Schoals, no Alabama, em 1967, por ocasião das primeiras sessões que Aretha aí grava sob o olhar de Jerry Wexler, da Atlantic Records. O segundo recua no tempo e mostra-nos, poucos anos antes, a mesma Aretha encarada como uma cantora de jazz pela Columbia Records para a qual então gravava. Entre um e outro o flashback leva-nos a recuar a episódios anteriores que lembram as suas primeiras atuações em público e o desenhar de um percurso inicial entre os espaços do gospel. Tanto no passado evocado pelos flashbacks como no presente que cada episódio define, a música define o tutano da narrativa. Mas as vivências pessoais, familiares e relacionamentos profissionais surgem como elementos determinantes não apenas para definir o contexto, mas como realidades que a própria música acabará por traduzir.

            A dimensão mítica que a obra de Aretha conquistou ainda em vida e a celebração de um legado que ficou connosco depois de nos ter deixado juntam-se aqui a uma narrativa que sublinha na sua história de vida uma força transformadora que agiu sobre a sociedade. Como mulher, como afro-americana, como artista, Aretha é hoje mais do que uma voz que marcou a história da música. É um símbolo. E a terceira temporada desta série produzida pela National Geographic tem clara consciência dessa perspetiva maior que devemos ter em conta quando, hoje, falamos de Aretha Franklin.

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