Nos bastidores de uma história de ativismo

Como conta a sinopse, esta é a história de uma participação na Eurovisão que “quis politizar um concurso de canções apolítico”. O documentário de Anna Hildur leva-nos agora de regresso a Telavive em 2019, acompanhando os islandeses Hatari. Texto: Nuno Galopim

Apesar do seu caráter apolítico, o Festival da Eurovisão já inscreveu algumas das canções que passaram pelo concurso na história da canção política. A canção portuguesa E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, mesmo não tendo de temática política, ganhou um lugar na história da revolução de 25 de abril de 1974 ao ser escolhida como uma senha usada na rádio, alertando as forças que se iam sublevar contra o regime para que estivessem em stand by para avançar. Em 1990 Brandenburger Tor de Ketil Stokkan ou Keine Mauern Mehr, de Simone, respetivamente na Noruega e Áustria, celebravam a queda do muro de Berlim que ocorrera meses antes. Mas com o fulgor mais característico do tom de protesto da canção política Panagia Mou, Panagia Mou, na voz da grega Mariza Koch, aludiu em 1976 à então recente incursão militar turca em Chipre (tendo a Turquia omitido a exibição da canção durante a transmissão). Em 2016 Jamala, deu a segunda vitória à Ucrânia com 1944, uma canção que partia de memórias da avó da própria cantora para lembrar um massacre de tártaros da Crimeia na URSS de Estaline. Mas possivelmente a mais ativista de todas as presenças na história da Eurovisão teve lugar em 2019 em Telavive, com os Hatari como protagonistas. Hatrið mun sigra, a canção com que representaram a Islândia, falava sobre o modo como ódio sairá vitorioso se não nos soubermos entender. A ideia carrega desde logo uma possível leitura política se tivermos em conta a escalada de extremismos que têm caracterizado vários mapas políticos nos últimos anos. Mas na verdade toda a presença dos Hatari no concurso foi desde o início pensada como uma oportunidade de comunicação de ideias. Anti-capitalistas, como eles mesmos se definem, encararam uma presença na Eurovisão como uma oportunidade para dar visibilidade maior aos sus ideais. E agora A Song Called Hate, documentário de Anna Hildur, conta a história não só da canção como da intensa passagem do grupo islandês por Israel em 2019.

                  O filme começa por contar a história de Matti e Klemens, primos e, por isso, muito próximos desde sempre. Nota como os Hatari nasceram dessa relação de amizade, do apelo das artes performativas e da música. E acompanha a sua evolução como proposta estética e ativista. Um amigo do grupo nota que a ideia de ir à Eurovisão pode ter sido como aquelas piadas que vão longe demais. Alguém se terá lembrado de sugerir a ideia talvez como graça… Mas a coisa rapidamente ficou séria. Sobretudo, reforça esse amigo, porque “tinham uma grande canção pop”. E sim, apesar da carga eletrónica industrial e da abordagem vocal mais visceral de Matti, Hatrið mun sigra é uma grande canção pop. Venceram o Söngvakeppnin, a final local… E deram por si a caminho de Telavive.

                  É de evitar fazer aqui “spolier”, até porque o filme revela muito do que foi a vida dos Hatari em Israel para lá da cobertura mediática mais focada no que se via na arena que acolhia os ensaios e, depois, a passadeira laranja e os programas. A Song Called Hate acompanha o grupo num calendário mais intenso do que é habitual em muitos artistas que atuam na Eurovisão. É que além dos ensaios, programas sociais e entrevistas e mais entrevistas, os Hatari partiram para Telavive já com um contacto antes feito com Bashar Murad, um músico palestiniano que então desafiaram para criar com eles uma canção. É junto de Bashar que visitam Hebron, assim como o próprio estúdio do músico em Jerusalém e, depois, longe das cidades, entre montes, captam imagens para o teledisco de Klefi/Samed, que na verdade só lançariam depois de regressados à Islândia. Fica claro que o grupo queria aproveitar a presença ali para uma ação ativista de grande visibilidade. Mas a ideia só nasce a dias da final. E toda a gente que viu o programa recorda o momento em que apresentam uma faixa com a bandeira palestiniana na Green Room… Os bastidores desse momento, o antes e o depois, são o tutano de um documentário que conta inclusivamente com uma entrevista com a primeira ministra islandesa que fala sorte arte e liberdade de expressão. Talvez tenha aqui faltado escutar, já depois da final, alguém da EBU ou da própria produção local do concurso… Mas essa é apenas uma das várias diferenças entre o documentarismo e o jornalismo.

“A Song Called Hate”, de Anna Hildur, está disponível na plataforma Filmin

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