Joni Mitchell “Blue” (1971)

Ao cabo de três álbuns gravados, e já com evidente reconhecimento conquistado – com maior notoriedade depois de Clouds (1969) – Joni Mitchell tirou um tempo para si. Mal terminou a gravação de Ladies of The Canyon, em inícios de 1970, resolveu afastar-se dos palcos, com a ideia de viver um ano sabático. E partiu rumo à Europa, acabando por encontrar refúgio (e primeiras respostas) sobretudo durante a temporada em que se junta a uma comunidade hippie que então habitava umas pequenas grutas em Matala, em Creta. É aí que começam a surgir canções que, meses depois, ganhariam forma “final” em sessões das quais nasceria Blue, aquele que muitas vezes é apontado como o disco maior da sua discografia.

         Talvez ainda mais direto e franco do que os discos anteriores, mantendo firme uma lógica de relativa simplicidade nos arranjos, valorizando assim a voz e as palavras na sua relação primordial com a melodia, Blue é um retrato emocional e vivencial daquele tempo. Se por um lado o disco acolhe ainda ecos de reflexões sobre um relacionamento com Graham Nash que então chega ao fim (com uma mensagem poética que Joni lhe envia de Creta), por outro capta ecos das vivências mediterrânicas em 1970 – nomeadamente em Carey, dedicada a um americano com quem vive um breve romance na ilha – e, depois, traduz uma aproximação a James Taylor, num breve e intenso relacionamento que vive os seus derradeiros momentos quando o músico contribui com a sua guitarra para a gravação de California, All I Want e A Case of You. Esta última tornar-se-ia numa das canções com mais vidas entre as muitas que Joni Mitchell compôs e cantou, surgindo em versões por nomes como os de kd lang, James Blake ou Prince, entre muitos outros.

         Entre a partida para a Europa ainda no inverno de 1971 e as últimas alterações ao alinhamento de Blue, que Joni Mitchell decidiu já depois das sessões em março de 1971, o seu ano de pausa desejada não a manteve sempre longe dos palcos. E de resto fez história a sua passagem pelo Festival da Ilha de Wight no verão de 1970, numa atuação na qual “pôs” (literalmente) em ordem uma multidão barulhenta – à qual chamou “turistas” e à qual pediu mais respeito. Ficaram por isso célebres os momentos em que ali se escutaram California, My Old Man e A Case of You, que meses depois estaria a gravar nas sessões nas quais Blue ganhou forma.

         As qualidades líricas de canções sobre o amor, os relacionamentos, falando mesmo de gentes e lugares com a frontalidade que a linguagem poética pode desenhar, a composição clara e segura e uma interpretação que não afogou a voz, fizeram de Blue um disco desde logo cativante, num jogo que, através de uma criação artística, vincou aquela rara honestidade de quem nos olha nos olhos. Estas razões, as afinidades que fomos criando com estas canções, o modo como entraram num imaginário coletivo e ganharam depois outras vidas, criaram em torno de Blue um sentido de reconhecimento universal. É certo que há mais discos não menos marcantes entre a obra de Joni Mitchell. Há momentos para vários gostos, traduzindo outras demandas e outros contextos. Mas este talvez tenha sido o que alcançou o patamar de maior denominador comum. E por isso, 50 anos depois, é tão grande referência. Ao ponto de não se poder contar a história da música popular se que seja obrigatoriamente referido.

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