As visões com sabor a mundo de Marc Almond, quando chegou aos anos 90

Meses depois de “The Stars We Are”, o álbum “Enchanted”, originalmente lançado em 1990, conhece uma reedição pela Cherry Red, juntando ao alinhamento os lados B, versões máxi e maquetes, assim como os telediscos desta etapa. Texto: Nuno Galopim

Os ziguezagues no percurso discográfico de Marc Almond podem ter gerado algumas dificuldades de gestão de carreira, tanto para o músico como para as editoras com quem foi trabalhando. Mas para aqueles que iam ouvindo os seus discos o valor da surpresa fazia com que cada lançamento fosse esperado com um entusiasmo que, sobretudo nos anos 80 e grande parte dos 90, era invariavelmente recompensado com mais um título maior. Depois de um primeiro fim para os Soft Cell e de experiências (bem interessantes) assinadas como Marc and The Mambas, o percurso a solo, ainda durante os oitentas, ganhara forma numa sucessão de três magníficos álbuns e uma multidão de singles e EPs lançados pela entre a Some Bizarre (inicialmente num acordo com a Polygram) e depois pela Virgin. Em 1988 a EMI iniciara uma (curta) relação com Marc Almond editando The Stars We Are, um dos melhores álbuns de toda a sua obra que tanto lhe deu um dueto mítico com Nico como um novo número um ao reinventar Something’s Gotten Hold of My Heart, ao lado de Gene Pitney. Os tais ziguezagues acima referidos manifestaram-se quando, fora do acordo com a EMI (via Parlophone), Marc Almond lançou em 1989 o mais descarnado Jacques, um disco apenas feito de versões de canções de Brel que, longe de representar um episódio de sucesso nas lojas, traduziu um triunfo artístico que valeu, inclusivamente, um elogio da viúva do grande cantautor belga. Editado em 1990, Enchanted, segundo (e derradeiro) disco nascido nesta etapa de relacionamento com a EMI, foi talvez vitimado, na época, por alguns equívocos e complicações. Mas, 31 anos depois, um reencontro com o disco reafirma as qualidades artísticas das visões que Almond vinha a desenvolver e que continuaria a explorar no seguinte Tennement Symphony, nascido já sob um novo acordo editorial com a Warner.

            Um dos equívocos maiores na comunicação do que afinal habitava o momento da criação de Enchanted tem a ver com a perceção que a editora tinha face ao próprio Marc Amond. Se as suas canções falavam já de histórias e gentes da noite, de vivências queer, a comunicação ainda olhava com algum receio o modo de apresentar o músico. É certo que a dupla Pierre et Giles – autores de importantíssima iconografia queer nos anos 80 – foi chamada a criar as capas do álbum e do single A Lover Spurned que o antecedeu, mas mais do que ambiguidades, a forma de mostrar artisticamente a figura Marc Almond ainda pecava por omissão. E nesse jogo entre ousadias e filtros, a comunicação visual nem sempre dava plena vida ao potencial de narrativas que as canções traduziam.

            Com produção de Stephen Hague, A Lover Spurned, na verdade uma torch song que vinha já dos tempos de Mother Fist, foi uma escolha num terreno aparentemente “seguro” que na verdade não traduzia as cores mais vivas de um álbum cheio de ecos de vários cantos do mundo, do flamenco (The Desperate Hours) à música árabe (Widow Weeds), que na verdade são a seiva primordial de um disco que refletia visões que queriam ir para além das fronteiras mais fechadas da canção pop e de outras frentes pelas quais a música de Almond já antes caminhara. A dissolução dos La Magia, banda que antes acompanhara Marc Almond, deixou-o sem a capacidade de pensar uma relação destas novas canções com o palco (na verdade por estes dias nascem sobretudo recitais de voz e piano em torno destas e outras canções suas). A ausência de um corpo de músicos levou Billy McGee (um ex-La Magia) a trabalhar sobretudo com ferramentas eletrónicas, gerando aí uma frente de algum conflito com Almond que, todavia, depois, reconheceu que afinal o disco ficou bem melhor do que ele mesmo chegara a comentar algum tempo antes. Esse predomínio dos sintetizadores, o modelo opulento de soluções usadas na produção, moldou o som se Enchanted talvez num sentido diferente de um exotismo mais evidente e “acústico” que Almond talvez tivesse imaginado para as canções e que teria feito deste álbum um pioneiro de um espaço que, anos depois, teria entre os seus maiores frutos o belíssimo Rising Above Bedlam de Jah Wobble.

O certo é que, neste momento de reencontro, as opções instrumentais e de produção, acabam por contar a história de um episódio que, num contraste com os contemporâneos discos franceses – o já referido Jaques e Absynthe que surgiria pouco depois – assinala afinal a rara paleta de grande abrangência que a música de Almond sempre procurou. E vale a pena lembrar que, em busca de um single de sucesso, a EMI chamou então Dave Ball (a outra metade dos Soft Cell) a remisturar Waifs and Strays para terceiro single. O sucesso desta canção pode não ter sido o esperado, mas a verdade é que o reencontro de Ball com Almond teria importantes consequências.

A nova reedição junta ao álbum a belíssima coleção de lados B que então surgiram, nos três singles e máxis, entre a qual surgem pérolas como City of Nights ou The Gambler, que nos voltam a chamar atenção para o modo como, durante toda a década de 80, Marc Almond nunca encarou a outra face dos singles como destino para canções menores. Há ainda versões máxi dos singles e maquetes, algumas na verdade já antes apresentadas na antologia Treasure Box que recordava episódios das gravações feitas entre 1988 e 1990 para a EMI.

“Enchanted”, de Marc Almond, está disponível em novas reedições em 2LP e 2CD+DVD, em lançamentos da Cherry Red

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