Novos olhares sobre o histórico “Vienna” dos Ultravox

A nova mistura de Steven Wilson que surgiu na caixa comemorativa do 40º aniversário do álbum de 1980 e um LP extra com uma versão instrumental de todo o disco surgem num lançamento em vinil apresentado durante o Record Store Day. Texto: Nuno Galopim

A viragem dos anos 70 para os 80 assistiu a uma reconstrução de visões para a música pop que, depois da revolução punk, apontava um caminho que a música dos Ultravox tomava então como uma rota a ter em conta, sobretudo no álbum de 1978 Systems of Romance. Mas apesar do olhar em sintonia com a evolução em curso dos cenários pop/rock, sobretudo no Reino Unido, a vida do grupo (que por aquela altura tinha já três álbuns editados) parecia destinada a um ponto final, sobretudo depois da Island os excluir do seu catálogo e de John Foxx, o vocalista, ter partido para uma aventura a solo.

Mas apesar dos dramas vividos dentre os Ultravox, a revolução pop em curso acentuava-se… Afinal Gary Numan tinha encontrado em 1979 um patamar de sucesso depois de Are Friends Electric? E mesmo não tendo gerado ainda êxitos de escala colossal, as movimentações que se desenhavam entre os ecos da nova música eletrónica que chegava da Alemanha (dos Kraftwerk aos La Dusseldorf) e os primeiros sinais de uma nova geração que começava a ganhar forma em volta das noites com Rusty Egan como DJ iriam definir pouco depois alguns dos maiores casos de sucesso made in UK, alguns deles com um potencial de exportação como há muito a música pop britânica não conhecia.

Na primavera de 1979, os Ultravox eram um trio: o baixista Chris Cross, o baterista Warren Cann e o teclista Billy Currie. Todos eles encontraram trabalhos ocasionais por aqueles dias. Chris Cross trabalhou num projeto do guitarrista dos Pretenders. Já Billy Currie viu-se a bordo dos Visage, uma nova aventura então musicalmente coordenada por Rusty Egan (o DJ das noites “Bowie” que então começavam a cativar atenção em Londres), com rosto mediático nas mãos de Steve Strange (que assegurava a muito seleta política da porta dessas mesmas noites) e o guitarrista Midge Ure, cuja história de vida o fizera já passar por uma banda teen (os Slik) e pela aventura pós-Sex Pistols de Glen Matlock e que se preparava para dar uma mão, por umas semanas (na estrada), aos Thin Lizzy. Foi Rusty Egan quem referiu a Billy Currie que ali mesmo, entre o núcleo original dos Visage (que em 1979 se estreavam com o single Tar), tinham o elemento que lhes faltava, reunindo não apenas o facto de ser um bom guitarrista como uma voz segura e um bom compositor… 

Ao chegar a bordo, Midge Ure não vinha com ideias de mudar os cantos à casa mas, antes, arrumar as ideias e continuar o caminho. Afinal, entre pistas lançadas por Hahaha e, sobretudo, Systems Of Romance, havia uma rota desenhada que não havia ainda sido levada ao seu destino na plenitude das capacidades. E de facto as primeiras pistas para chegar a Vienna encontram-se na visão sugerida por Hiroxima Mon Amour, nos singles de 1978 Slow Motion e Quiet Man e ainda em Dislocation, outra das canções-chave de Systems of Romance. A sensibilidade pop com gosto pela pista de dança que Midge Ure então experimentava nos Visage (que em simultâneo criavam o seu álbum de estreia) acabaria por se manifestar em faixas como Sleepwalk, Passing Strangers ou All Stood Still. Mas a rede de ligações não se esgota aqui. A presença de Conny Plank, que voltava a trabalhar com o grupo, assegurava uma dimensão mais exploratória, que ora se manifestava na relação das eletrónicas com as guitarras em New Europeans ou Private Lives ou com uma vontade de desenhar cenografias mais elaboradas em Western Promise ou no instrumental de abertura, isto sem esquecer a dimensão mais “clássica” do arranjo final de ViennaMr. X, por sua vez (canção que teve uma versão em alemão como Herr X) assegurava por sua vez a ligação mais evidente às mesmas heranças da música eletrónica alemã que já tinham encantado os Ultravox nos tempos de John Foxx e que o seu antigo vocalista tomaria como gramática de referência em Metamatic, álbum de estreia a solo que editou logo em janeiro de 1980 (meses antes de Vienna, portanto).

Agora, quatro décadas depois, e com Vienna reconhecido como um marco na música do seu tempo, uma recente reedição comemorativa acrescentou como extra uma nova mistura assinada por Steven Wilson que, mais do que procurar novos caminhos para as canções, na verdade focou sobretudo o seu esforço numa busca de maior nitidez para as diversas contribuições instrumentais. É essa mesma nova abordagem ao álbum de 1980 que agora tem uma edição individualizada, num lançamento apresentado por ocasião do Record Store Day e que acrescenta como bónus um segundo LP com uma versão instrumental de todo o álbum, proposta que ajuda mais ainda um processo de escuta “ao microscópio” das ideias então exploradas em estúdio.

“Vienna – 2020 Stereo Mix by Steven Wilson”, dos Ultravox, está disponível num 2LP de edição limitada editado pela Chrysalis no Record Store Day

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