As visões e desafios de quem gostava de escutar… o quarto mundo

Nascido em Memphis, no Tennesse, em 1937, foi aluno de Stockhausen, colaborou com Terry Riley, La Monte Young, Brian Eno ou David Sylvian e criou um conceito que abriu linhas para lá das fronteiras, imaginando uma noção de “quarto mundo”. Texto: Nuno Galopim

É do cruzamento de caminhos, escolas, instrumentos ou experiências que costumam nascer algumas das mais vibrantes ideias na música. E ao longo da sua obra por diversas vezes o trompetista norte-americano Jon Hassell (1937-2021) marcou presença em episódios discograficamente marcantes. A sua capacidade invulgar em fazer dialogar ecos de vários mundos esteve na génese do conceito de “quarto mundo” através do qual descreveu a identidade da sua música e definindo uma filosofia pela qual, ainda antes da emergência de uma sociedade (e comunicação) global, já a sua obra olhava para lá das fronteiras das geografias, das formas musicais e das épocas, sugerindo uma consistente noção de personalidade híbrida, forjando uma atitude visionária que, entretanto, conquistou inúmeras outras expressões (e adeptos) noutros patamares e latitudes da invenção musical do nosso tempo.

Antigo aluno de Karlheinz Stockhausen (teve entre os colegas Holger Czukay), parceiro de Terry Riley na primeira gravação do mítico In C (uma das obras basilares do minimalismo norte-americano), co-autor com Brian Eno do marcante Fourth World, Vol 1: Possible Musics (de 1980), Jon Hassel nunca reconheceu como barreira a ideia de fronteira entre territórios musicais, e por várias vezes colaborou com nomes mais associados a terrenos pop, dos Talking Heads a David Sylvian, com este tendo partilhado a composição de alguns temas de Brilliant Trees (1984) e sido parceiro fundamental no EP Words With The Shaman e no álbum instrumental Alchemy: An Index Of Possibilities (ambos de 1985).

Além do magnífico Vernal Equinox, álbum de 1978 que recentemente foi alvo de reedição, é ainda de reconhecida importância na sua obra do magnífico Power Spot, editado em 1986 na ECM, sob produção de Brian Eno e Daniel Lanois. Mas pode valer a pena redescobrir um outro disco que merece ser igualmente recordado entre os episódios fulcrais da sua obra: editado em 1994 pela Warner, Dressing For Pleasure representa a sua incursão pelos domínios de uma certa redescoberta dos universos do jazz pelos espaços da música de dança contemporânea (pós-revolução house, entenda-se) e, se quisermos aplicar um “rótulo” ao que ali encontramos, podemos descreve-lo como o álbum acid jazz do trompetista. Com estrutura assente sobre um trabalho de colagem de samples (muitos deles de elementos de percussão, mas também vozes e outros momentos musicais), Dressing For Pleasure explora assimilações possíveis dos ensinamentos da cultura hip hop, integra no contexto uma alma jazzística (da qual o trompete é figura protagonista, mas que aceita ainda a integração de elementos samplados, como no caso de Destination: Bakiff, que usa um “pedaço” de uma criação de Duke Ellington) e ensaia ocasionalmente episódios de construção vocal, como se escuta no magnífico Personals que cruza gravações de anúncios pessoais com a contribuição de Leslie Winner. Kenny Garrett, Flea (dos Red Hot Chilli Peppers) ou Trevor Dunn são alguns dos colaboradores de um disco que representa uma das mais estimulantes entre as variações sobre ecos jazzísticos que o fenómeno acid jazz libertou na primeira metade dos anos 90.

Depois de 2009, ano em que lançou pela ECM o álbum “Last Night The Moon Came Dropping It’s Clothes on the Streeet”, fez um silêncio discográfico até que em 2018, aos 81 anos, lançou um álbum que lançava um novo desafio: o da audição da música alternativa ao alinhamento cronológico com que escutamos um disco (ou gravação) do princípio ao fim, nesse sentido… Pois o seu desafio era ali o da escuta… vertical!

E o que é a escuta vertical? Explicado de uma maneira simples trata-se de uma sugestão de progressivo mergulho entre as camadas de acontecimentos que a mistura final da gravação sobrepôs. Com um ensemble que junta guitarristas, baixistas, bateristas e violinistas, todos eles (e tal como o próprio Hassell) artilhados de eletrónicas, Listening To Pictures, que tinha por subtitulo Pentimento Volume One, era um disco que ao mesmo tempo servia uma síntese de algumas das linhas exploratórias da sua obra – sobretudo o seu interesse pelas texturas ambientais, o jazz, ecos do mundo e a cor muito peculiar da sua relação com o trompete – e nos conduzia a um desafio de, pela habituação, ir encontrando ideias, formas e pistas entre as camadas de som destas composições.

A inclusão do álbum no quadro de uma nova série – da qual um segundo volume surgiu em 2020 – aprofundou essa relação de partilha com o ouvinte. O termo “pentimento”, que sugere o caráter dinâmico com que a relação de um pintor vai evoluindo “por arrependimento” sobre o que gradualmente projeta numa tela, define uma sugestão para que possamos “olhar” para estas imagens feitas de sons. E é no estabelecimento de uma relação com o ouvinte, que Jon Hassell nos convidava, naquele que foi o seu último desafio, a regressar à música e nela encontrarmos novos sentidos em profundidade, o que se alcança através novas audições e consequente habituação. Os (muitos) detalhes, as linhas secundárias, os acontecimentos aparentemente escondidos, acabam por emergir. Por viajar verticalmente rumo a quem escuta. Quantas vezes, ao regressarmos a um quadro num museu que visitamos mais do que uma vez acabamos por nele encontrar novas descobertas… No fundo esse é o objetivo desta obra… Que mostra ainda como, já depois dos oitenta anos de idade, Jon Hassell vivia ainda animado por embarcar, connosco, numa nova etapa de exploração dos sons. Deixou-nos este fim de semana. Tinha 84 anos.

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