António Barreiros

Apaixonado por música, literatura, cinema e filosofia, fundou em 2010 a editora Golden Pavilion Records e em 2020 a livraria Bye Bye Bad Days. Colaborou na série de livros Record Collector Dreams de Hans Pokora e escreve ocasionalmente críticas de cinema no blogue “I like the Trees”.

Qual foi o primeiro disco que compraste?

O primeiro disco que comprei foi Led Zeppelin II por uma razão estética. Tinha eu 11 anos, nunca tinha ouvido falar na banda e achei a capa fabulosa, intrigante, como se de uma história fantástica se tratasse. Era uma daquelas imagens com a capacidade inerente de fazer uma criança sonhar.

Embora ouvisse muita música em casa, sobretudo música clássica da parte do meu pai e um som mais Motown da parte da minha mãe e da minha irmã, o rock não fazia parte da teia cultural que me rodeava. Só chegou através deste disco e completamente por acaso. Tenho hoje ainda uma paixão incomensurável pelo Saturday Night Fever, pelo Endless Love e pelo Fame, tudo bandas sonoras da minha infância do início dos anos 80, memórias musicais e visuais que se diluem com Shostakovitch, Bach, Beethoven, Schubert, Chopin, Satie, Mendelssohn, entre muitos outros.

E o mais recente?

Low, The Curtain hits the cast. Um disco intemporal com um ambiente delicioso, à “Twin Peaks”e enquanto que escrevo chegaram outros, alguns que já tive e recuperei por sentir saudades, discos de Dirty Three, Don Caballero, Archie Shepp e umas coisas novas como o excelente Idaho “Levitate” 

O que procuras juntar mais na tua coleção? 

Não sou propriamente dito um colecionador. Gosto de ter discos que ouço e que me permitem viver em mundos diferentes. É um dos aspectos da música e das artes de modo geral, a capacidade de nos transportar para outros mundos. Procuro texturas musicais muito variadas, desde a salsa de Nova Iorque ao krautrock dos Agitation Free, passando pelo Jazz espiritual do Pharoah Sanders e pelo universo intenso do Philip Glass, ou o o mundo viscoso e inquietante do Ligeti, mas aquilo que eu mais procuro é a música que me comove profundamente, música que eu costumo classificar de devastadora, avassaladora, e sobretudo feita por pessoas que não sabem que são génios, como por exemplo o Jacques Brel, o Astor Piazzolla, (Que saxofone!) A música “My Funny Valentine” cantada pelo Chet Baker, Billie Holiday (tantas dela!)… Leonard Cohen, a banda sonora do filme “The Fountain” de Clint Mansell, O álbum “Orphée” de Jóhann Jóhannsson, e tantos outros…

A música Brasileira tem um destaque especial, muito acima do tão conceituado groove Brasileiro que eu considero absolutamente medíocre por comparação, Estou a pensar nas seguintes músicas, para dar alguns exemplos: “Pra Dizer Adeus” cantada por Edu Lobo e Tom Jobim (aqui), e esta troca de sorrisos entre o Chico Buarque e o Milton Nascimento (aqui) e esta maravilhosa recente descoberta (mais uma vez a mestria da música e da filmagem – aqui). Que outro país produz pérolas destas?

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

Na era pré-internet existia a sensação fantástica de “caça ao tesouro”. Nunca sabíamos o que iríamos encontrar, fosse onde fosse. Lembro-me de comprar, mais que uma vez, verdadeiros tesouros musicais por exemplo em lojas de móveis em segunda-mão, e dos preços serem aleatórios. Um Clear Blue Sky original na Vertigo custava 1€ porque a capa não era muito atraente para o dono da loja, enquanto que por um Dire Straits “Brothers in arms” ele já queria 10€ porque lhe lembrava a ex-namorada chamada Gurandukht. Desde então sempre que ouço as primeiras notas do Brothers in arms penso em aromas orientais e pergunto-me onde andará a tal Gurandukht

A verdade, é que estas descobertas do acaso raramente acontecem nos dias que correm, porque é fácil ver o valor deles online. A magia dissipou-se, e essa mesma magia também sofreu com a evolução das tecnologias. Hoje em dia está tudo disponível online e as descobertas já não têm o mesmo sabor de há 20 ou 30 anos atrás, quando só tínhamos dinheiro para comprar um disco por mês e por isso devorávamos o disco durante semanas, ouvindo metodicamente as mesmas músicas.

Quando eu tinha uns 12 anos o meu melhor amigo mostrou-me uma cassete que tinha pertencido ao pai dele (o pai falecera num acidente de carro, quando o meu amigo tinha apenas meses de idade). Nessa cassete, escritas à mão, as palavras “Ash Ra Tempel” levaram-nos a deduzir que seria uma banda alemã ou então um erro ortográfico na palavra “Temple”. Durante anos ouvimos com fascínio essa cassette que ninguém conhecia. A música sensacional parecia intemporal, diferente daquilo que conhecíamos (e na altura já ouvíamos bastante Pink Floyd e grupos do mesmo universo). Até que, cinco anos passados, fui viver para Viena (Áustria) e muito pouco tempo depois de chegar encontrei, numa feira de rua, o “Schwingungen” dos Ash ra Tempel. Penso que foi esse o catalisador para o mundo do krautrock que explorei intensamente durante décadas. Mesmo assim e nos tempos que correm, são muitos os discos que não aparecem e que eu gostaria de ter. Por exemplo o Abbey Road de edição Iraniana com o título “Abby Road” escrito na capa em letras amarelas e com a particularidade de ter uma música que não faz parte da edição original. O único disco de um enigmático músico canadiano chamado Michael Jon editado na Trend (a mesma editora dos Bent Wind), que é uma obra prima no mesmo patamar do Tim Buckley mas com um universo psicadélico muito particular. Primeiras edições dos discos de Django Reinhardt que andam desaparecidas desde sempre. Mal saíram esgotaram e a própria irmã do Django andava desesperada à procura dos discos em feiras da altura. Quando irão esses discos voltar a aparecer?

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

Encontrei uma cópia de Arawak “Accade ª.” numa livraria em Constança (Roménia). Um dos grandes discos de library italianos. Pouco tempo depois quando decidi reeditar o disco, tive a sorte de ganhar a luta com a editora Inglesa “Strut” na decisão de quem iria ficar com os direitos. Fiz uma colaboração com os americanos da Light in the Attic de modo a garantir distribuição nos EUA e avançar com uma produção mais significativa. Tudo isto aconteceu quando estava num período de transição entre Viena e o Porto, onde fiquei um ano a viver.

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

Eu não sou propriamente dito um colecionador de peças raras. Procuro apenas a música que gosto de ouvir e sempre que posso desfaço-me de discos valiosos embora às vezes me arrependa quando se trata de discos que nunca foram reeditados e não existem em qualquer formato digital. Não acho que seja um crime pagar 500€ ou 1000€ por um disco, pois trata-se em primeiro plano de preservar a cultura. É um crime pagar 500€ por caviar, isso sim. As coleções representam uma amostra daquilo que de melhor se fez. Mas para uma coleção ser completa não pode ser feita apenas de peças raras ou conceituadas. Nunca percebi porque é que os grandes colecionadores de jazz, como existem alguns em Portugal, não têm discos como o “Silent Spectacle” do Michael Sagmeister que é do melhor jazz que se fez na Alemanha, ou porque é que o colecionador de livros antigos no “Ninth Gate” não tem uma primeira edição do Principezinho? Julga-se tão entendedor e no entanto não entende o mais importante.. É uma questão de snobismo e pobreza de espírito, parece-me. 

Lojas de eleição em Portugal… 

Com todo o respeito pela rapaziada das lojas, eu pessoalmente não frequento lojas de discos simplesmente porque aquilo que nós fazíamos numa loja de discos há 20 anos atrás, já não conseguimos fazer hoje em dia. O verdadeiro crate-digging nas lojas acabou. De modo geral os lojistas vão ver os preços ao discogs e ao popsike, metem tudo nas contas discogs, e aquilo que é realmente raro, caro ou desconhecido metem no Ebay. A maioria das lojas tem os discos todas à venda no Discogs. No entanto e apesar de eu próprio não frequentar lojas (também porque vivo em Cascais e quase nunca vou a Lisboa), recomendo a todos irem às lojas sempre que puderem de modo a ajudar os lojistas a continuarem a ter lojas abertas, pois um mundo sem lojas de discos seria um mundo muito mais pobre..

Em viagem lá fora também visitas lojas de discos? Quais recomendas?

Comprei e descobri muitos discos bons na Digelius em Helsinki e comprei discos incríveis na Råkk & Rålls em Oslo, para não falar das quatro ou cinco lojas que existem na Eriksgatan em Estocolmo, mas a minha preferida, que já não existe, era a Ton Um Ton em Viena. Vivi lá muitos anos (o que faz de mim um ser muito menos latino que o expectável, e por consequência muito mais germânico). Na altura passei tardes inteiras a descobrir discos maravilhosos. Comprei lá discos originais raros desde Ash ra Tempel a Ya Ho Wa passando por Throbbing Gristtle e Sol Invictus. Num espaço com cerca de 20 metros de comprimento tinham duas filas intermináveis de psych/prog/kraut e, do outro lado, duas filas de punk/wave/industrial. Uma autêntica meca para colecionadores. Fui forçado a comprar muitos discos africanos na Croco-disques de Paris pois o vendedor, muito convincente, dançava (sempre guiado pelo traseiro) à medida que me ia mostrando discos fabulosos desde Rail band a Ofege, passando por pequenas pérolas de Ethio-Jazz e discos desconhecidos dos Camarões, do Ghana, do Mali, Congo, Senegal quase tudo África Negra… E gritava apontando para mim com o dedo “Tu vas acheter! Tu vas acheter” Saí de lá com umas duas dezenas de discos africanos e depois, em casa, tentava replicar as danças do traseiro.

Compras discos online?

Compro quase tudo online, até salsichas alemãs mando vir online da Alemanha. Com o crescimento exponencial do Discogs, e a oferta interminável de discos no Ebay, há muito por onde escolher. 

Que formatos tens representados na coleção? 

Maioritariamente LP mas também muitos CD. Há discos que tenho muito mais em CD, por exemplo só de Neil Young neste momento são 44 CD. Há alguns singles e EP que tenho porque não existem em nenhum outro formato mas de modo geral não sou grande entusiasta dos singles.

Os artistas de quem mais discos tens? 

Neste momento talvez os Tangerine Dream, Pink Floyd, Astor Piazzolla, Vladimir Visotsky, Brel, Barclay James Harvest e uma colecção de discos Cubanos de Poetas e escritores da América Latina a lerem os seus poemas ou prosas. A colecção chama-se “Palabra de esta America” e é fantástica, com autores que incluem Pablo Neruda e Julio Cortazar entre outros.

Editoras cujos discos tenhas comprado mesmo sem conhecer os artistas…

Ohr, Kosmische Kuriere; Impulse; MPS; ECM; Brutkasten; Pilz; Kranky; Matador; Touch & Go; Soul Jazz; 4AD; Finders Keepers; Fiction; Shadoks; RRGems; Strata-East; Black Jazz; ESP; Time-Lag; SpinArt; One Little Indian; Sonet; Harvest; Cramps records. A lista é interminável..

Uma capa preferida

Moving Mountains “Moving Mountains

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

Hans Frisch ‎– Levende Opjekten Sjooo é um verdadeiro tesouro da cena psicadélica europeia, com forte componente de avant-garde, tribalismo, dadaismo e experimentalismo. Tive a sorte de encontrar dois membros da banda e de obter fotos inéditas que publiquei num poster no interior do disco lançado pela Golden Pavilion em 2018. Não conheço quase ninguém que goste do disco, mas eu adoro!

Como tens arrumados os discos?

Não separei por estilos, a ordem é simplesmente alfabética justamente porque gosto das surpresas. Quando procuro um disco em particular encontro sempre outros que já não lembrava que tinha. Se tivesse os discos ordenados por estilos musicais e procurasse um disco de Steel Pulse encontraria sempre ao lado desse disco outros discos de Reggae como Bob Marley, Twinkle Brothers e Black Uhuru, mas agora encontro Sandy Denny, Shawn Philips, Sonora Ponceña, Sol Invictus e a banda sonora do Some like it hot. O lado eclético fica assim mais exposto. É claro que isto complica as coisas se quiser fazer um serão só de reggae, mas é raro, eu gosto das misturas!

Um artista que ainda tenhas por explorar…

São muitos e uma vida não chega para ouvir tudo o que há de bom, mas se tivesse de escolher um acho que seria o John Coltrane, que não conheço a fundo.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

Giovanni Cristiani- Alpha Percussion

Quando projetas uma edição da Golden Pavilion pensas nos tipos de públicos a que podem chegar, entre eles os coleccionadores?

A minha prioridade é gostar da música que edito, e depois vejo se pode ou não ter saída, mas se gosto acabo sempre por editar, mesmo sabendo que será muito complicado levar o público a conhecer um disco de que nunca ouviram falar, sobretudo quando não temos uma máquina de marketing poderosa como por exemplo a Universal Music tem. 

Um exemplo é o disco da Roslyn Steer “You’lll know” que eu considero ser um dos melhores trabalhos que fizemos. A Roslyn é uma rapariga de Cork que actua em bares locais e que faz parte de uma nova vaga de músicos Irlandeses com uma sonoridade etérea, frágil e sonhadora, uma corrente musical muito específica e absolutamente única no panorama europeu actual. A capa é muito representativa da música e acrescentámos um OBI com uma imagem de um fresco de uma casa de Pompeia. O disco tem a particularidade de ter uma “cover” fantástica e atmosférica da música “Drain you” dos Nirvana. O disco não vende bem, mas não faz mal, está editado, e para citar João Bénard da Costa: Outros Amarão as Coisas que Eu Amei

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respectiva história?

Entre muitos momentos marcantes, lembro-me de um episódio em particular: Tinha adquirido o “Signals” dos Rush, numa altura em que partilhava um apartamento com o tal amigo (Pedro), cujo pai nos legou uma cassette de Ash Ra Tempel. Era de manhã e meti o disco a tocar enquanto que passava umas camisas a ferro. O disco, sendo de 1982, já escapava ao meu foco de interesse que era mais centrado na primeira metade dos anos 70. No entanto, assim que começa a tocar a música “Subdivisions” fiquei interessado. A batida da bateria era peculiar, a forma de cantar e a energia deles também. Então quando a música acabou, voltei a ouvir uma segunda vez, uma terceira, uma quarta, e sempre mais alto. Larguei as camisas e foquei-me cada vez mais na música, até que o Pedro entrou no meu quarto e me perguntou: Mas o que é isso que estás a ouvir? Eu respondi: Não sei, é um bocado “anos 80” mas é muito bom, temos de ouvir isto melhor logo à noite.

Nessa noite combinámos ouvir o disco bem, de uma ponta à outra e ficámos siderados. 

Passámos a noite inteira a ouvir o disco, repetidamente, só este disco. E assim fizemos na noite seguinte e na noite a seguir, e assim de seguida durante duas semanas, até chegámos a sentir receio de nunca mais conseguirmos ouvir mais nada para além deste disco, pois na verdade tínhamos conseguido materializar este mundo dos Rush, e a nossa realidade deixara de fazer sentido. Por uns dias tudo o que interessava era a batida frenética da bateria do Neil Peart, como um pulsar de um coração, o órgão e a voz mágica do Geddy Lee, a guitarra viciante do Alex Lifeson e depois estas letras (escritas pelo Neil Peart) que nunca mais me saíram da cabeça:

Too many hands on my time

Too many feelings

Too many things on my mind

When I leave, I don’t know

What I’m hoping to find

When I leave, I don’t know

What I’m leaving behind

20

Um disco menos conhecido que recomendes…

Gila, Bury my heart at wounded Knee. Mas para os iniciados recomendo começar sempre pelas músicas dos filmes do Woody Allen. Está lá quase tudo o que interessa.

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