Seis discos escolhidos entre os lançamentos dos primeiros seis meses de 2021

Vencido o primeiro semestre, aqui fica uma seleção de seis lançamentos escolhidos entre os que destaquei nestes meses no GiRA DiSCOS. Esta, para já, é apenas uma seleção de lançamentos internacionais, mas junta novidades e edições de arquivo. Textos: Nuno Galopim

Nick Cave e Warren Ellis, “Carnage”

(Goliath Enterprises Limited)

Das reflexões ao piano que Brad Mehldau criou em confinamento e gravou na primavera passada às canções que Talyor Swift ou Charlie XCX registaram em álbuns de 2020 que traduziram igualmente a sua relação com os dias difíceis que todos ainda estamos a viver, o mundo da música tem já fixado em disco alguns ecos destes tempos estranhos, inesperados e assombrados. Porém, chegados ao final de 2020, quando me perguntaram qual seria o “disco do ano”, além de procurar uma escolha que musicalmente me agradasse em pleno, apontei a seleção a um disco que, de certa forma, materializou em si o que foi um ano feito de muita solidão e distanciamento. Gravado ao vivo no Alexandra Palace, em Londres, com plateia vazia e nada mais senão um piano sobre o palco, um concerto de Nick Cave, transmitido a 23 de julho, tornou-se referência de uma realidade diferente com a qual os tempos nos obrigaram a viver. Mas a vontade de retratar 2020 em disco, por parte de Nick Cave, não ficou por ali. E semanas depois de Idiot Prayer (o registo no Alexandra Palace) eis que surgiu, pela Deutsche Grammophone, L.I.T.A.N.I.E.S., uma ópera de câmara com música de Nicolas Lens para a qual Nick Cave escreveu o libreto, na forma de um ciclo de litanias. O modo como a obra ganhou forma, refletindo distância e um tempo de confinamento, fez igualmente deste disco um olhar pessoal (e partilhado) sobre este presente desconfortável… Se toda a gente julgava que Nick Cave tinha assim criado um díptico que refletia sobre estes dias, então nada como reconhecer o poder da surpresa com que, no final da semana passada, chegou Carnage, um terceiro disco criado em confinamento e que, mais do qualquer dos dois anteriores, olha de frente, pela música e pelas palavras, o universo de incertezas, tormentas, reflexões ou ilusões que um tempo de pandemia lançou sobre a humanidade. O pessoal e o coletivo fundidos numa reflexão maior, mais abstrata do que concreta, porém marcada por aquela visceralidade carnal que brota do real.

         Carnage é assinado em parceria entre Nick Cave e Warren Ellis. Não é uma assinatura inédita, mas até aqui surgia sobretudo em trabalhos de criação de música para cinema. O fulgor do par criativo é contudo bem evidente nos mais recentes álbuns gravados com os Bad Seeds e, de certa forma, Carnage representa uma expressão natural de um caminho que os imediatamente anteriores Skelenton Tree e Ghosteen já estavam a trilhar. Eletrónicas (num mergulho mais evidente do que nunca em Hand of God) e cordas desenham os ambientes sobre os quais a voz trilha um caminho que não segue o rumo mais clássico do canto, mas antes o de uma fala desenhada com música entre as palavras. Por vezes, como se escuta em OldTime ou no tema-título, uma pulsão rítmica (ora mais evidente, ora mais discreta) propõe uma estrutura mais evidente para as canções. Noutras, como em White Elephant, a força de um arranjo coral de alma gospel transforma as preces para dois numa comunhão ainda maior. Mas, como sublinham momentos particularmente emotivos como os que se escutam em Lavender Fields (e não consigo escutar esta canção sem a imaginar na banda sonora de um filme de Terrence Malick) e Hand Of God ou em episódios de maior vulnerabilidade e como sentimos em Albuquerque, o entendimento a dois entre Nick Cave e Warren Ellis alcança aqui outro momento superlativo. De certa forma este disco traduz o desaguar de dois rumos: o dos discos criados em tempo de confinamento e o que o caminho mais recente da obra de Nick Cave tem vindo a desenhar, revelando em si um raro gosto pelo desafio, uma inquietude (saudável) que o impede de se repetir, que o impele a olhar em frente (sem esquecer o que antes viveu).

Sabe bem, muito bem, senão cada vez mais, escutar cada novo disco de Nick Cave. E uma vez mais Carnage arrebata, surpreende e delicia. É certo que este disco nasceu já porque a estrada saiu do seu mapa em 2020 (e 2021)… Mas, mais ainda do que depois de Ghosteen, estas canções servem para reafirmar a vontade de um reencontro em palco. Que venha, mal seja novamente possível.

Floating Point, Pharaoh Sanders e London Symphony Orchestra, “Promises”

(Luaka Bop)

Ao ouvir Crush, o álbum que o músico britânico Sam Shepherd editou como Floating Points em 2019, o saxofonista veterano Pharaoh Sanders sentiu que estava chegada a hora de interromper o silêncio. A música eletrónica de Floating Points não era necessariamente a sua linguagem, mas na verdade definia um patamar “existencial” algo semelhante ao seu: aquele que encara a música como um veículo conciliador, apaziguador, até mesmo de “cura”, coisa que o mundo pede neste momento. Em pouco tempo, e ainda em 2019, encontravam-se em estúdio para dar início a uma experiência de diálogo(s) que agora nos é dada a escutar já com a não menos significativa contribuição de cordas da London Symphony Orchestra.

         Sob mecanismos de diálogo que desenha por sugestões e respostas, Sam Shepherd lança as bases da composição e usa o piano e um cravo como notas de lançamento para ideias que depois convocam a contribuição do saxofone e, a data altura, até mesmo a voz de Pharaoh Sanders, mais os instrumentos de cordas da orquestra. E também eletrónicas (uma vez mais nas mãos do músico britânico) e todo um labor cénico desenhado em estúdio que materializa em sons e espaço uma música que avança no tempo como uma peça única e contínua, apesar de depois dividida em nove “andamentos”. O mood avança quase como se um guião definisse uma narrativa, que parte de um tranquilo diálogo e vai mergulhando na identidade de ambos os solistas, até que suavemente integra músicos da orquestra. E avança assim, discretamente, até ao sexto andamento, quando a orquestra finalmente se revela na sua plenitude, definindo um clímax que abre caminho a um desfecho que cimenta a construção ambiental até aí definida. O fluxo, num sentido, sugere uma experiência, um caminho, que carece do tempo que exigiu aos músicos e, agora, ao ouvinte. No fundo, ganha forma uma experiência que, embora musicalmente diferente das obras que estruturam o minimalismo na segunda metade dos anos 60, não só explora a noção de repetição mas também a vivência da duração do tempo como parte determinante da experiência. E, pelas características da contribuição de Pharaoh Sanders, sob um clima de imensa liberdade.

         Promises acrescenta mais uma peça marcante a um tempo em que o jazz volta a comunicar com novas gerações. Do “clássico” Nestor’s Saga de John Surman às visões de St. Germain, a história de ligações entre o jazz e a música eletrónica conheceu já vários episódios. Mas mais do que nunca uma geração que cresceu com a música eletrónica (dançando de noite ou escutando canções e instrumentais de dia) descobre em discos como este ou tantos outros nascidos recentemente, vivências mais próximas de si. Assim se abrem portas. Para compreender o presente, desenhar novos futuros e, quem sabe, mergulhar no passado e fazer mais descobertas… E só com a obra de um Pharaoh Sanders (e daqueles com quem tocou) a viagem será frutuosa e compensadora…

Nick Rhodes e Wendy Bevan, “Astronomia I: The Fall of Saturn”

(Tape Modern)

Os projetos Arcadia, The Devils, TV Mania. A produção do álbum de estreia dos Kajagoogoo, participações em discos dos Dandy Warhols, Riviera F ou de Mark Ronson, curadoria (a meias com John Taylor) da compilação Only After Dark, que documenta o que seria um DJ set no Rum Runner Club na viragem dos setentas para os oitentas… Isto sem falar do livro de polaroides Interference ou a colaboração numa remistura de “Personal Jesus” dos Depeche Mode… Nick Rhodes é claramente o mais ativo dos elementos dos Duran Duran quando o grupo está de férias. E num ano diferente, com o grupo forçado a desacelerar a conclusão do sucessor de Paper Gods, álbum que supostamente deverá surgir este ano, eis que mergulhou a fundo na conclusão de uma ideia iniciada há cerca de dois anos e que parte de um esforço de colaboração com a artista visual, violinista e cantora britânica Wendy Bevan que, em 2016 lançou, Rose & Thorn, um álbum de canções para voz, eletrónica minimalista e cordas (no qual colabora o Balanescu Quartet).

Nick Rhodes e Wendy Bevan começaram a juntar as peças para esta ideia em 2018. E durante o ano de 2020, com ele em Londres e ela em Los Angeles, completaram 52 composições inspiradas pelo universo, daí o título Astronomia que agregará os quatro álbuns que a dupla irá lançar ao longo dos próximos 12 meses, cada qual devendo surgir por ocasião dos equinócios e solestícios. Assim aconteceu com Astronomia I: The Fall of Saturn, que acaba de surgir nas plataformas digitais num lançamento da Tape Modern, a etiqueta dos próprios Duran Duran. Para já não há ainda qualquer informação sobre um eventual lançamento em qualquer suporte físico.

O universo, e em particular, o sistema solar, serviram já de inspiração a outros “ciclos”, desde a suite sinfónica Os Planetas de Gustav Holst (onde na verdade as alusões aos planetas se devem mais a uma dimensão astrológica e mitológica do que astronómica) ou o mais recente projeto Planetarium, que nasceu de uma colaboração entre Sufjan Stevens, Nico Muhly, Bryce Dessner e James MacAlistair. Para já, neste volume 1, Nick Rhodes e Wendy Bevan mergulham no espaço mais confinado de um sistema planetário em particular. O que tem por protagonista o sexto planeta do sistema solar: o gigante de grandes anéis… Saturno.

Notas longas, texturas elaboradas, numa abordagem que pisca o olhar à música “ambiente” mas aceita igualmente uma pulsão cinematográfica que alia um sentido narrativo à presença de uma cenografia, a música parte das potencialidades de teclados analógicos e da presença do violino e da ocasional utilização de vocalizações para, sob um interesse em explorar texturas e sons, avançar entre Saturno, os seus anéis e luas, tal e qual as tintas que, pelas mãos de um pintor, procuram aventuras no espaço de uma tela. Ao mesmo tempo esta é uma música que acaba por expressar os tempos que vivemos. Fala de distâncias – as que separam os planetas, as que separavam os dois músicos – mas no fim encontra elos de ligações e, com eles, a proximidade.

Em primeiras palavras nas quais procuraram explicar o disco, Nick Rhodes e Wendy Bevan notaram que o universo pode qui ser tomado numa dimensão real, libertando até um pensamento sobre a fragilidade do nosso pequeno mundo perante a imensidão do cosmos. E, ao mesmo tempo, pode ser um mundo de sonhos. A vastidão do universo contempla todas estas possibilidades. E neste primeiro volume a sensação de liberdade e encantamento ilumina a música. Começa bem este ciclo… Resta esperar pelos volumes seguintes. E pela sua eventual edição em suporte(s) físico(s).

Cheval Sombre, “Days Go By”

(Sonic Cathedral Recordings)

Nasceu como Christopher Porpora, mas se o queremos escutar em disco então nada como procurar por… Cheval Sombre. Cresceu a ouvir discos de Donovan e Billie Holliday ao mesmo tempo que aprendeu por si mesmo a tocar guitarra. Na adolescência juntou ao mapa de referências nomes como os Velvet Underground, Modern Lovers ou Genesis P. Orridge. E mais tarde teve uma bada, começou a compor música que não escondia encantamentos pelas obras de Terry Riley ou Zbigniew Preisner e publicou poemas… Deu por si a colaborar com nomes como o ex-Spacemen 3 Sonic Boom ou com Dean Wareham e Britta Phillips, então nos Luna… E entre esta geografia de relacionamentos uma discografia em nome próprio – como Cheval Sombre – comelou a nascer em 2009, desde logo ativando parcerias com Sonic Boom e, depois Dean Wareham, contando ainda com colaborações de elementos dos MGMT. Tantos nomes para ajudar a enquadrar um percurso que incluía até aqui os álbuns Cheval Sombre (2009), Mad Love (2012), Dean Wareham Vs Cheval Sombre (2018), uma cassete gravada ao vivo com Sonic Boom (2013) e, já este ano, Time Waits For No One. Agora surge o belo Days Go By, um disco companheiro do outro álbum já editado em 2021 e com o qual sugere um díptico que o próprio grafismo da capa desde logo sugere.

         Na linha do seu percurso, e com evidentes afinidades com as pistas já este ano sugeridas em Time Waits For No One, o novo álbum de Cheval Sombre volta a convocar velhos parceiros, sendo claramente evidente a presença (nas teclas ambientais) de Pete Kember, ou seja, Sonic Boom, que assegura uma vez mais a produção. Dean Wareham, por sua vez, surge como guitarrista em Are You Ready, cabendo a Gilian Rivers (cordas) e Francisco Dias Pereira (piano) os restantes lugares num elenco discreto que sabe não afogar nunca abafar a voz de Christopher (que é tudo menos coisa sombria) e os seus diálogos sobretudo definidos com a guitarra acústica ou as longas notas que saem dos teclados. Entre ecos da folk e paisagens que por vezes evocam velhas visões dos Suicide (como no magnífico e minimalista He Was My Gang), Days Go By é um disco que foge à vertigem do presente, às convulsões do quotidiano. Pelo contrário traduz um mergulho na intimidade criativa de um poeta de sons e palavras, sugerindo um mundo mais tranquilo, “lentificado”, até mesmo aprazível, pelo qual sabe bem passar. De tanto que se fala da música como escape e de associa essa ideia a festa e folia, então escute-se Days Go By como uma alternativa de fuga interior. Igualmente saborosa e até mesmo terapêutica nos tempos que vivemos. Melancólico talvez. Mas nunca sombrio, apesar do nome.

Miles Davis, “Merci Miles – Live at Vienne”

(Rhino/Warner)

Dois temas de Prince até aqui inéditos e novas abordagens a “Time After Time” de Cindy Lauper e “Human Nature” de Michael Jackson, estas duas últimas, canções que já tinham conhecido abordagem em estúdio no álbum “You’re Under Arrest”, de 1984, e figurado em vários alinhamentos de atuações ao vivo, garantem desde logo a “Merci Miles – Live At Vienne 1991” uma coleção de razões para levar (uma vez mais) os melómanos mais habituados a vivências pop a (re)descobrir o modo como Miles Davis assimilou estas (e outras) músicas na etapa final na sua carreira. Contou-me o seu sobrinho, aqui há alguns meses, quando se apresentava o álbum póstumo “Rubberband”, com as sessões que acabaram na gaveta quando, em seu lugar, o trompetista optou por lançar “Tutu” como primeiro disco no âmbito de um novo acordo com a Warner, que, em meados dos anos 80, Miles Davis estava encantado com uma nova ferramenta de divulgação musical: o teledisco. Tinha por hábito a televisão ligdada e quando as imagens o estimulavam pedia para ouvir o som… Assim chegaram à sua música canções de Cindy Lauper e de Michael Jackson. E também dos Scritto Politti, com quem acabaria por trabalhar (tocando em “Oh Patti”) e interpretando, à sua maneira, “Perfect Way” no alinhamento de “Tutu”.               

                  Outra figura que entra no mundo de Miles Davis por esta altura é Prince. Tinham-se conhecido em 1985. E desde então a ideia de possíveis colaborações deixou-os ligados. Prince chegou a submeter a Miles uma criação sua para o alinhamento de “Tutu”. O tema tinha por título “Can I Play With U” mas acabou fora do alinhamento do álbum de Miles, surgindo finalmente em 2020 uma versão ao vivo (gravada, com a presença de ambos, no final de uma atuação em Paisley Park) como um dos extras da reedição de “Sing O’The Times”. Mas a ligação de Prince a Miles Davis não se esgotou nesse momento. E no disco que agora é editado eis que finalmente conhecem edição outras duas criações do primeiro para o segundo. Na verdade tanto “Jailbait” como “Penetration” nasceram em sessões que Prince registou em Paisley Park em dezembro de 1989 e estavam ambas destinadas a um álbum do projeto Madhouse, um grupo que Prince reuniu então para experimentar ideias mais próximas do jazz. O álbum acabou na gaveta (ainda é certamente um dos tesouros guardados no arquivo The Vault), mas estes dois temas, juntamente com “The Girl and Her Puppy” foram então submetidos a Miles Davis, que as gravou em março de 1991 nos Bauer Studios na Alemanha, tocando-as depois em alinhamentos daquela que seria a sua última digressão europeia. A Warner chegou depois a pedir autorização a Prince para juntar estes temas ao alinhamento de Doo Bop, o álbum póstumo que veria a luz do dia em 1992. Mas Prince disse que não e os ecos destas colaborações ficaram desde então à espera de, um dia, conhecerem uma primeira edição oficial. Assim acontece, finalmente, para “Penetration” e “Jailbait” nesta gravação ao vivo de 1991 agora lançada em disco.

                  Um músculo funk cruza-se com alguns momentos de uma gravação que mostra Miles Davis junto do grupo com mais cinco elementos com que se fez à estrada na Europa em 1991, antes daquelas que seriam as suas datas finais, também esse ano, já nos EUA. Com ele estão aqui Kenny Garrett (saxofone), Deon Johnsson (teclas), Foley (baixo), Richard Patterson (baixo) e Ricky Wellman (bateria). Além dos dois temas de Prince e das canções que conheceram voz de referência com Cindy Lauper e Michael Jacskon o alinhamento corre sobretudo por temas do álbum Aura, de 1989 (Hannibal e Amandala) e por Wrinckle, que surgira já em vários alinhamentos de concertos desta fase. O belíssimo texto de Ashley Kahn que acompanha este disco conta depois a história deste concerto e digressão (chegando ao detalhe de notar a ocasião em que, em plena atuação, Miles perguntou a Richard Patterson porque se vestia sempre de preto, acabando por lhe dar umas calças mais coloridas logo depois) e contextualiza este momento não apenas na história musical da etapa final da obra do trompetista mas lembrando importantes episódios da sua relação com França. Já agora vale a pena lembrar que Vienne é uma pequena cidade nas margens do Ródano, fica a sul de Lyon e é casa de um importante festival de jazz que, nessa edição de 1991, apresentava Miles Davis (e também Shirley Horn) no dia de abertura. Foi a 1 de julho de 1991. Trinta anos depois, finalmente, podemos escutar o que ali aconteceu.

Japan, “Quiet Life – DeLuxe Edition”

(BMG)

Depois de dois álbuns de demanda frustrada num terreno dominado pelas guitarras nas quais nem a voz de David Sylvian nem o trabalho para teclados de Richard Barbieri tinham o merecido espaço para respirar, o vocalista dos Japan rumou a Los Angeles para tentar, com um novo produtor, algo completamente diferente. O produtor com quem ia propor uma colaboração era nada mais nada menos que Giorgio Moroder, figura que ganhara o seu espaço na história da música sobretudo através do disco sound, com momentos mais relevantes criados até aí em discos de Donna Summer. Sylvian levava na bagagem maquetes de algumas novas canções nas quais os teclados ganhavam novo protagonismo. Escolheram Life in Tokyo que, editado no formato de single em 1979, revelava a partida dos Japan para outros territórios. Mas, tal como acontecera com os primeiros dois álbuns e respetivos singles, poucos foram os que, na altura, deram por esta aventura. Mas mesmo tendo passado a leste da atenção das rádios e das canções, a canção acabaria por lançar os Japan rumo a novos desafios.

Com a Hansa Records a pedir desesperadamente ao management que o grupo lhes desse um hit, os Japan saíram de Londres para Nova Iorque em busca de novos estímulos e com um desejo na bagagem: o de trabalhar com John Punter, que havia produzido tanto os Roxy Music como discos a solo de Bryan Ferry.

Frustrada a hipótese de voltar a trabalhar com Giorgio Moroder dado o insucesso de Life in Tokyo, é num espaço que tanto herda os ensinamentos de discos recentes de David Bowie (nomeadamente Low) como o sentido de elegância de Ferry e dos Roxy Music que emerge o corpo de canções do qual nasce o terceiro álbum de originais dos Japan. Os sintetizadores estão agora num plano de protagonismo. E, pela primeira (e única) vez os Japan levam arranjos de cordas a algumas das canções.

Quiet Life, a canção que dá título ao álbum, foi escolhida como tema de abertura do lado A. A presença mais visível dos sequenciadores, apoiadas por um novo tipo de entendimento entre o baixo de Mick Karn e a bateria de Steve Jansen, lançavam os evidentes sinais de mudança que a voz de David Sylvian (que aqui descobre o seu tom barítono do qual desde então não mais de afastou) ajuda a sublinhar.

No departamento da imagem um novo look mais em sintonia com os sinais dos tempos, fez com que fossem tomados como figuras de primeira linha do movimento new romantic que então emergia à volta de Londres com nomes como os Visage e Spandau Ballet na proa das atenções. Cedo deixaram saber que essa filiação não se lhes ajustava. E apesar de algumas afinidades nas referencias e nas sonoridades, a verdade é que bastava ouvir as canções para entender que esse não era o seu destino. A coisa era mais… art pop.

Além de Quiet Life canções como Halloween ou In Vogue construíam uma música que evidenciava sinais de mudança, a primeira em claro terreno Roxy Music pós-Manifesto, a segunda ensaiando um trabalho cénico para teclas mais detalhado e sofisticado. Alien levava vivências de angulosidade funk a outros destinos, abrindo rotas que não fechavam, contuduo, as portas às recentes experiências disco (como se escuta no refrão de Fall in Love With Me). Despair, com parte da letra cantada em francês, e o épico The Other Side of Life, com sumptuosos arranjos de cordas, que fecha o alinhamento do álbum, representam primeiros sinais de busca de ideias que teriam continuidade mais adiante e que têm como ponto de partida o instrumental que fechava o anterior Obscure Alternatives.

Além de sete composições de David Sylvian, o alinhamento de Quiet Life inclui uma versão de All Tomorrow’s Parties dos Velvet Underground, que foi editado como single em 1983, já depois de anunciada a separação dos Japan.

Lançado no Japão, Alemanha e Canadá em finais de 1979 e noutros mercados (entre eles o britânico) já em inícios de 1980, Quiet Life deu aos Japan a sua primeira incursão nas tabelas de vendas, alcançando um discreto número 72. A reedição, em 1981, depois do impacte de Tin Drum, levá-lo-ia mais acima, até ao número 53. Dois singles foram extraídos do álbum e ambos apenas após o sucesso que só em 1981 sorriu aos Japan. Surgiram assim em formato a 45 rotações o tema título (que alcançaria o nº 19) e o já referido original de Lou Reed para os Velvet Underground (que chegou ao nº 38).

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