Um velho tesouro escondido de Prince que ganha finalmente a merecida visibilidade

Rejeitado pela editora mas mesmo assim lançado como “extra” do álbum de 1998 “Crystal Ball”, “The Truth”, onde a guitarra acústica tem grande protagonismo, conheceu finalmente um lançamento individualizado no formato de LP em vinil. Texto: Nuno Galopim

A intensa produção de Prince gerou certamente inúmeros álbuns completos que hoje habitam o mítico “The Vault”. Welcome 2 America, gravado em 2010 e que verá finalmente a luz do dia este mês, é apenas um exemplo de um disco que, uma vez gravado, acabou posto de lado porque Prince apontou os azimutes do seu entusiasmo na direção de um outro projeto. A criação de Sign O’The Times, por exemplo, assistiu a várias etapas intermédias pelas quais outros álbuns foram nascendo dispersando-se depois as canções por outros caminhos… Em finais dos anos 90, mal terminara a gravação do triplo Emancipation – que como o título evoca correspondeu ao momento em que se libertou de um acordo discográfico com a casa pela qual tinha lançado toda a sua discografia até ali – registou uma nova coleção de canções entre as quais havia um protagonismo maior da voz e da guitarra acústica. Chamou-lhe The Truth e esse seria o disco que pretendia editar depois de Emancipation pela EMI, que assegurara a distribuição global do triplo de 1996. Mas a editora não terá gostado da ideia, cabendo ao álbum (gravado e misturado) um eventual destino entre o vasto arquivo de Prince. Na verdade, nem ficou arquivado, nem teve um lançamento “oficial” (individualizado, leia-se), acabando apresentado como “extra”, ou seja, o quarto CD, no alinhamento do Crystal Ball que lançou pela sua NPG Records, em 1998… Apesar de relativamente difícil de encontrar alguns anos depois do lançamento (uma vez que não houve reedições de Crystal Ball), The Truth não conheceu o destino de silêncio a que terão certamente sido votados outros álbuns de Prince. Tanto que, quando a sua obra surgiu nas plataformas de streaming, ambos os discos – ou seja Crystal Ball e The Truth – surgiam em edições digitais separadas. Mas agora, 23 anos depois do lançamento original em CD, eis que The Truth finalmente conhece vida própria, numa prensagem em vinil limitada a 13 mil exemplares lançada no primeiro ‘drop’ do Record Store Day de 2021.

            Se a edição torna finalmente visível e “material” um álbum que nascera meio escondido em 1998, por outro revela uma experiência de busca de caminhos diferentes, descarnando a instrumentação a patamares de maior contenção. Mas convém deixar claro que, apesar do modo como muitas vezes este disco é descrito, The Truth não é um álbum acústico. A relação da voz de Prince com a guitarra acústica pode ter de facto um protagonismo mas, mesmo num volume de acontecimentos mais discretos do que o habitual, o disco chama muitas outras cores e sons, das guitarras elétricas aos sintetizadores, até mesmo a um labor de sonoplastia na criação da cenografia que serve Animal Kindgom, canção que é uma das mais evidentes herdeiras das visões com sabores psicadélicos que Prince experimentara por alturas de Around The World in a Day. Apesar da pulsão mais experimental deste momento, The Truth é um disco com canções de travo clássico e de genéricas reconhecíveis, desde os blues assimilados pelo tema-título à balada que lembra os tempos dos Revolution que escutamos em Dione, passando pelo flirt latino de Fascination, encerrando o alinhamento com uma versão (essa de facto acústica) de Welcome 2 The Dawn. Entre a maré de lançamentos que, sob um clima de mais discreto mediatismo e, sublinhe-se, aparente menor “interesse” das publicações dedicadas à música, Prince viveu os dias de finais dos noventas e a aurora do século XXI, The Truth é mesmo um tesouro maior (e diferente)que não mereceu na altura o devido reconhecimento. Vale este lançamento especial, que mantém a assinatura como o(->, para, mesmo com o estatuto de “edição limitada”, lhe dar ao menos um lugar material entre uma das mais vastas e melhores discografias do nosso tempo. E, ao mesmo tempo, o merecido reconhecimento crítico. Porque se a muitos possa ter escapado em 1998, ainda vamos a tempo de aqui encontrar um dos mais desconcertantemente deliciosos dos discos de Prince da sua colheita dos anos 90.

“The Tuth”, de Prince, está disponível nas plataformas digitais e agora também numa edição em LP pela NPG Records/Sony Music.

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