Ondina Pires

Está ligada a vários momentos da história da música moderna portuguesa como baterista, vocalista e compositora. Tocou em grupos como Ezra Pound e a Loucura, Pop dell’ Arte; The Great Lesbian Show e integrou o coletivo artístico Cellarius Noisy. Tem também vários livros publicados. Mas hoje fala-nos dis discos que tem em casa.

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Qual foi o primeiro disco que compraste?

“Kings of the Wild Frontier”, Adam and the Ants

E o mais recente?

Compilação “Twistin’n’Rumble”, Volume 6  e  “Big Heart: Live in Tokyo” The Lounge Lizards, comprados a 3 de julho 2021.

O que procuras juntar mais na tua coleção?

Procuro o inusitado, a singularidade estética e musical, o ecletismo

Um disco pelo qual estejas à procura há já algum tempo.

“The Ascension”, Glenn Branca

Um disco pelo qual esperaste anos até que finalmente o encontraste.

O single “I’m in Love with a German Film Star”, The Passions. Tive o single na altura, mas entre 2005 e 2007 vendi centenas de LPs e singles a pessoas amigas

Limite de preço para comprares um disco… Existe? E é quanto?

O limite é 30 euros. Os discos e os brinquedos vintage não são feitos de ouro. Além disso, o meu “budget” é parco. Não dá para esticar muito.

Lojas de eleição em Portugal… 

No Porto, Muzak e Matéria Prima. Em Lisboa, a Flur Discos.

Em viagem lá fora também visitas lojas de discos? Quais recomendas?

Isso é um clássico, passar por lojas de discos… Não tenho as listas de lojas de todos os sítios, mas em Berlim recomendo a Rock Steady Records e em Estocolmo recomendo a Vintage Violence Record Store. Gostei do pessoal que está a atender na loja.

Que formatos tens mais representados na coleção?

Presentemente, são os singles. No passado recente eram os LPs. Também tenho alguns Maxis

Uma capa faz-te comprar um disco independentemente da música?

No passado comprei muitos singles por causa das capas. Capas que designo por “surrealismo kitsch”. Coisas dos anos 1950 e 1960. Compravam-se por pouco dinheiro. Agora, é diferente pois os lojistas já pedem mais dinheiro em nome do “vintage”.

Desenhaste capas. O que procuraste criar com as imagens?

Procurei a essência do projeto musical que tinha em mãos. E também procurei fazer algo de diferente, de singular. Fujo dos clichés estafados como o diabo foge da cruz.

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Uma capa preferida.

É complicado de responder a essa questão. Gosto de tantas… Então… pode ser a excecional capa do projeto musical português Volcano Skin “Travelling with the Wrong Maps”, capa esta de autoria de Sérgio Lemos, ex-baterista dos The Great Lesbian Show e Dr. Frankenstein, atual Volcano Skin e Duendes do Umbigo.

Os artistas de quem mais discos tens?

O grupo britânico The Fall. Fiquei muito triste quando recebi a noticia do falecimento do seu mentor, Mark E. Smith.

Um disco do qual normalmente ninguém gosta e tens como tesouro.

É um LP que pertencia ao meu pai. Chama-se “Éclats de rire” e é uma compilação de anedotas contadas por humoristas franceses, da década de 1960, início de 1970. Às vezes punha o disco a tocar e ao fim de quatro minutos os amigos que estivessem a ouvi-lo imploravam que o tirasse do prato. Tem uma capa absolutamente chata e palerma.

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Artistas que ainda tenhas por explorar…

Artistas dos países de Leste, em especial russos e artistas femininas de música eletrónica, ao estilo de Delia Derbyshire ou Daphne Oram. Ando à coca de Valentina Panomareva e Sofia Gubaidulina.

Um disco de que antes não gostasses e agora tens entre os preferidos.

“The Sound of Music”, com uma capa foleira. Durante anos detestei o filme “Música no Coração” e a música a ele associada. Isso aconteceu nos anos 1970 e 1980, em que ainda não tinha acabado de apurar o meu gosto pelo camp e pelo kitsch e só queria ouvir The Birthday Party e DEVO. Depois comecei a “desconstruir” os hits foleiros e a “reconstruir” na minha cabeça melodias impossíveis… Et voilá!

O universo visual do ‘kitsch’ é referência na tua coleção. Na de discos… Mas não só…

É uma das minhas referências, de facto. Porém, gosto de centenas de coisas diferentes – tão depressa estou a ouvir jazz, como punk, como no wave, como música do Vietname ou do Iraque, ou fado humorístico, Stockhausen ou Stranvinsky, glam rock, etc, etc… Desde que sinta pujança, energia, espontaneidade, honestidade e singularidade na música, nas artes visuais e nas artes de palco sou a primeira a aplaudir. Desde 1985 até agora que sou uma “ajuntadora” de objetos excêntricos, de livros fora do comum, de discos, postais e brinquedos sui generis, pois é isso que contribui para a minha sanidade mental e intelectual.  

Há discos que fixam histórias pessoais de quem os compra. Queres partilhar um desses discos e a respetiva história?

Quando existia na estação do Rossio a loja Torpedo, propriedade de Cecília Miguel (de Salamaca) e do falecido Gilles Bertin (músico punk francês da banda Camera Silens) eu ia lá frequentemente (circa 1990 a 1993). Cheguei a escrever inúmeras críticas para o “Correio da Manhã – Jovem” usando os discos que eles emprestavam. Ainda tenho isso guardado. Um dia, vi a compilação “Jungle Exotica”, Vol. 1, à venda na Torpedo e como sempre gostei de “Incredible Strange Music” peguei no LP para o comprar. Ao mesmo tempo que ia a pegar no dito cujo, o Jota, atual dono da loja de discos Vinil Experience, lançou-me um olhar de tristeza pois ele também queria o mesmo disco. Alguns anos mais tarde tornei-me amiga dele. São assim, as marés da vida.

Um disco menos conhecido que recomendes…

É um bocado complicado aconselhar discos porque cada pessoa tem os seus gostos. No entanto, sem querer parecer a “suspeita do costume” sugiro DEAF de Jim Thirlwell aka You’ve Got Foetus on Your Breath. É um trabalho sonoro para constituições robustas, de mente aberta e eclética. Sayonara, my friends… and always listen’ to good music.

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