Deixou de estar perdido o disco que esteve para ser a estreia em LP de Elton John, em 1968…

Criadas e gravadas entre finais de 1967 e inícios de 1968, as doze canções que Elton John juntou para criar um primeiro álbum acabaram então na gaveta para lhe dar mais tempo para assentar ideias. 53 anos depois eis que surge esse “disco perdido”. Texto: Nuno Galopim

Habituámo-nos a tomar Empty Sky, editado em 1969, como o momento da estreia de Elton John no formato de álbum. É certo que o encontrar de um caminho mais “definitivo” para a dupla criativa com Bernie Taupin, chegaria um ano depois no segundo álbum (onde surgia Your Song). Assim como é verdade que, antes de Empty Sky, havia já três singles, o mais antigo dos quais fora editado ainda em março de 1968… Pois a partir de agora esse passa a ser também o ano da “estreia” no formato de álbum, já que, integrado no lote de edições do primeiro ‘drop’ do Record Store Day, eis que entra em cena, finalmente prensado e com capa, aquele que, em 1968, foi gravado como um primeiro LP mas que, por opção do músico (e do produtor) ficou na gaveta, dando assim a Elton e Bernie alguns meses mais para amadurecer ideias…

            O trabalho de recolha de material de arquivo do qual nasceu a caixa Rarities abriu o caminho para a redescoberta de uma série de gravações que, mais do que meras maquetes, foram de facto criadas com a intenção de criar um primeiro álbum. A mais antiga das gravações datava ainda de 1967 dando primeira forma a Nina. Elton John integrava ainda os Bluesology e estava a dias de assinar um primeiro acordo de publishing com Dick James. A criação e gravação de novas canções avançou em simultâneo com as sessões para um primeiro single (I’ve Been Loving You), que acabaria fora tanto do alinhamento deste disco então em contrução como de Empty Sky que surgiria em 1969. Porém, quando, em abril de 1968, já com I’ve Been Loving You no mercado (e sem impacte maior) e com primeiras datas ao vivo em nome próprio agendadas, foi o manager de Elton John quem o aconselhou a esperar, guardar as gravações e ver o que poderia nascer logo a seguir… O curso da história levou-os a Empty Sky, que o próprio Steve Brown produziu. E estas 12 canções ficaram arquivadas, até quem em Rarities escutámos algumas devidamente misturadas (em versões concluídas) e outras mais ainda em formato de maquete.

            Agora, pela primeira vez no formato eventualmente imaginado em 1968, concluindo as misturas das gravações então feitas em quatro pistas sob produção de Caleb Quaye, que ainda tocou guitarras, flauta, percussão e cantou coros. Com ele estavam ainda Dee Murray (baixo), Dave Hynes (bateria) e a Paul Fenouhet Orchestra, que interpretou as partituras com arranjos de Zack Lawrence. Elton John, por sua vez, tocava piano, piano elétrico e cravo. Além de assegurar a voz principal, claro. O resultado mostrava ecos evidentes dos “sinais dos tempos”, sobretudo mostrando afinidades com visões então exploradas pela música dos Beatles (que Empry Sky ainda deixaria bem evidentes). Um gosto por soluções elaboradas nos arranjos – há quem goste de usar o termo “barroco” – marca algumas das formas finais das canções, naquela que é uma característica frequente em muita da criação pop/rock num tempo em que os aromas e vapores do psicadelismo ainda se sentiam no ar. Não haverá aqui canções tão “certeiras” como as que Elton John pouco depois transformaria em êxitos de dimensão global. Mas há já um tatear de possibilidades por trilhos que por vezes indiciam caminhos futuros. Há uma busca da força da simplicidade da melodia como gancho sedutor. Se bem que as palavras ainda por vezes não sigam o mesmo caminho. O encontro perfeito entre música e palavras estava, contudo, ao virar da esquina, como pouco tempo depois o mundo poderia constatar.

            Regimental Sgt. Zippo junta assim à discografia de Elton John uma mais evidente etapa de procura do que aquela que Empty Sky sugeria. Inscreve-o claramente entre o mood que então caracterizava demandas pop mais elaboradas. O disco fixa, pelo título, tanto uma admiração pelos Beatles (e pelo então recente Sgt Pepper’s) como uma marca do autor… Reg, ou seja, Reginald, o verdadeiro nome de Elton John. Quando as gravações de Caleb Quaye foram guardadas na gaveta em 1968 o disco tinha já conhecido um test pressing (ao que parece existe essa cópia entre as preciosidades de um colecionador) mas sem capa. A imagem usada nesta edição tem raiz em estudos desenvolvidos em 1969 por um desenhador, então desafiado a criar elementos para promover o álbum Empty Sky, tomando como ponto de partida algumas fotos de então. Foi sobre essas pistas – originalmente a preto e branco – que Darren Evans criou, 53 anos depois de gravadas as 12 canções, a capa que finalmente dá rosto a Regimental Sgt. Zippo.

“Regimental Sgt. Zippo”, de Elton John, é uma edição limitada em LP, lançada pela Mercury por ocasião do Record Store Day 2021.

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