Olhar panorâmico sobre Aretha Franklin, com alguns tesouros de arquivo

Uma caixa de 4CD com gravações que fizeram história quando surgiram em disco e alguns inéditos achados nos arquivos da Atlantic Records, “Aretha” permite fazer um olhar panorâmico de uma obra que nasceu no gospel mas depois alargou horizontes. Texto: Nuno Galopim

Das primeiras edições em 78 e 45 rotações em meados dos anos a gravações já nos últimos anos de vida, acompanhando um percurso que passou por parte dos anos 60 vividos no catálogo da Columbia, uma etapa de triunfo em todas as frentes vivida depois de 1967 na Atlantic Records e, depois, os episódios de renascimento vividos a bordo da Arista, a partir de 1980, a caixa antológica que a Rhino acaba de editar só não representa um modelo clássico de ‘best of’ porque, apesar de aqui encontrarmos alguns dos seus maiores sucessos e momentos mais marcantes, na verdade “Aretha” não se limita a recolher e sequenciar faixas da sua extensa discografia, juntando frequentemente (e num volume considerável) uma série de tesouros encontrados nos arquivos da Atlantic, muitos deles conhecendo aqui primeiras edições em disco.

         Os quatro CD estão cronologicamente arrumados permitindo assim acompanhar um percurso de evoluções, transformações, ousadias e reencontros, isto sem esquecer importantes momentos de parceria em várias etapas da vida da “rainha da soul”. Mas se entre “Never Grow Old” e “You Grow Closer”, que fizeram o alinhamento do seu 78 rotações de estreia em 1956, encontramos as versões celebrizadas em disco, o mesmo acontecendo nas gravações com o Ray Bryant Combo que fizeram a sua estreia na Columbia e as demais faixas recuperadas desta etapa, já quando nos aproximamos da mudança para a Atlantic Records entram em cena as preciosidades achadas nos arquivos. Tudo começa com maquetes gravadas em casa em 1966 ao som de “My Kind of Town (Detroit Is)” e “Try a Little Tenderness”, antes mesmo de escutarmos a versão editada em single, em 1967, do clássico “I Never Loved a Man The Way I Loved You”, nascida nas míticas sessões nos Fame Studios, em Muscle Shoals, que assinalaram o primeiro encontro com o produtor Jerry Wexler, figura junto de quem Aretha Franklin gravaria, nos anos seguintes, alguns dos discos mais significativos da sua obra.

         O maior volume de faixas encontradas nos arquivos começa a surgir quando chegamos à alvorada dos anos 70, ora encontrando takes alternativos ou gravações de trabalho para faixas de álbuns como o histórico “Young Gifted and Black” (1972) ou o então menos aclamado (mas hoje devidamente reconhecido) “Hey Now Hey (The Other Side of the Sky)” (1973), criado sob produção de Quincy Jones. Das sessões deste belíssimo álbum há inclusivamente aqui um inédito: “Boy From Bombay”. Das memórias de inícios dos anos 70 não faltam as devidas representações de dois álbuns ao vivo históricos, o primeiro gravado em Filmore em 1971, o segundo captado numa igreja de Los Angeles em 1972 tendo então gerado, sob o título “Amazing Grace”, o maior êxito de sempre da música gospel, espaço no qual uma muito jovem Aretha (filha do célebre reverendo C.L. Franklin) dera primeiros passos, assimilando aí lições que depois transportaria para as suas experiências mais… pop.

         O alinhamento está recheado de preciosidades até aqui guardadas em fitas, assim como de episódios gravados em estúdios de televisão.  E não faltam aqui alguns grandes episódios partilhados com outras vozes, nomeadamente as de Tom Jones, Smokey Robinson, Dionne Warwick, os Eurythmics, George Michael ou Mavis Staples, assim como encontramos momentos que vincaram a carga de ousadia com que Aretha Franklin enfrentou novos desafios, das colaborações com Curtis Mayfield na segunda metade dos anos 70 ao “clássico” Nessun Dorma, ária da ópera “Turandot”, de Puccini, que entrou no universo da cantora por ocasião de uma inesperada atuação na gala de entrega dos Grammys em 1998 quando, à última hora, e sem tempo para ensaiar, foi preciso encontrar um substituto para Luciano Pavarotti. É claro que Aretha avançou. E, uma vez mais, triunfou!

         A caixa junta ao alinhamento de 81 temas um booklet com textos de Rochelle Riley e David Nathan, o primeiro mais pessoal, o segundo um belo exercício de síntese sobre os percursos de vida e obra da cantora.

“Aretha”, de Aretha Franklin, está disponível numa caixa de 4CD editada pela Rhino/Warner. Em setembro será lançado um 2LP em vinil com algumas faixas do alinhamento desta caixa.

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