Indie Lisboa: uma galeria de memórias nos 80 anos de Ney Matogrosso

Não se trata de uma biografia, mas antes uma soma de olhares sobre a faceta performativa da obra de Ney Matogrosso, que acaba de celebrar o seu 80º aniversário. Através de materiais de arquivo (e sem recurso a novas filmagens ou entrevistas), Filipe Nepumuceno ordena cronologicamente uma sucessão de imagens – de atuações televivas, telediscos, captadas ao vivo, mas também de entrevistas – que recuam aos dias dos Secos e Molhados e avançam no tempo até ao presente, notando sobretudo a evolução do intérprete, mais até na relação com o corpo (da aparência aos movimentos) do que com a própria música.

            O impacte disruptivo dos Secos e Molhados no mapa da música brasileira dos anos 70, aqui evocado em canções como “Sangle Latino”, “Caixinha de Música do João” ou “Flores Astrais” evoca memórias que vincaram a afirmação de uma identidade e acabaram por ser alicerce para importantes mudanças que chegaram nos tempos seguintes. Apesar do discurso que vinca o peso do “eu” na escolha do que passa a fazer que marca a passagem dos Secos e Molhados para a carreira a solo, os primeiros passos em nome próprio são ainda de evolução numa certa continuidade no ser performativo. Vemo-lo então em deliciosas imagens que evocam os dias do seu primeiro álbum a solo, ao som de “Mãe Preta”… O progressivo tirar da máscara surge entre “Mal Necessário” e “Tem Gente Com Fome”, acentuado depois ao som de “Tanto Amar” e “Viajante”. Às atuações as palavras de Ney Matogrosso juntam uma ideia de busca intuitiva, portanto “nada intelectual”, que vem “do faro”, onde confessa que lhe interessa “procurar mais a intenção do que o gesto”. Mais tarde admite a máscara como defesa nos primeiros temos, mas sublinha que fez “o que tinha que fazer” para “quebrar o preconceito”.

            Ao som da “Balada do Louco”, de nova abordam (a solo) à “Rosa de Hiroxima”, cruzada em palco com “Imagine” de Lennon e a voz de Simone, logo a seguir cantando o “Poema” de Cazuza, acompanhamos a maturação de uma nova etapa. Fala-nos sobre o choro, sobre a relação com os media, sobre injustiça e a vontade de lutar, e ainda o desejo de não parar… Ouve-se “O Mundo é um Moinho”, “As Ihas”, “Como 2 e 2” e, frente a uma plateia claramente mais jovem, uma reinvenção do velho “Fala” dos Secos e Molhados…

            Há textos nos contextos. As canções são escutadas na íntegra. Entre elas os breves fragmentos de palavras (que não são apenas de Ney) situam as canções sem procurar justificar nem explicar a música. “Ney à Flor da Pele” é, mais do que uma narrativa ou uma reflexão, uma coleção de emoções e impressões… à flor da pele. É uma galeria de episódios que qualquer admirador de Ney Matogrosso gostará de recordar. Mas deixa muito por explicar. Não é essa a intenção do filme certamente… E depois de o ver, quem sentir que quer saber mais tem muito por onde continuar…

“Ney à Flor da Pele”, de Filipe Nepumuceno, passa dia 28, pelas 19.00 na Culturgest e repete dia 3, pelas 21.15, nos Jardins do Palácio Galveias, integrando a secção Indie Music do Indie Lisboa 2021.

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