Zodiac “Disco Alliance” (1980)

Pioneiros da música eletrónica (popular) na URSS, os Zodiac surgiram na Letónia na alvorada dos oitentas. Editado logo em 1980 o seu álbum “Disco Alliance” merece habitar a lista de títulos de referência do ‘space disco’ desta geração. Texto: Nuno Galopim

Universo que na altura escapou à atenção de muitos ouvidos ocidentais, a emergência de uma música eletrónica na antiga URSS é espaço que vale a pena (re)descobrir. Um possível ponto de entrada pode ser este álbum instrumental que, em 1980, apresentava o quinteto Zodiac, da (então república da) Letónia. O projeto nasceu no Conservatório Estatal da Letónia Jäzeps Vitols, e tinha como timoneiro Janis Lusens, um jovem estudante do departamento de composição e que aqui assegurava o trabalho de maior protagonismo com sintetizadores. A ele juntavam-se, nesta gravação, uma segunda teclista, um baterista, um guitarrista e um baixista, todos eles igualmente estudantes no mesmo conservatório.

Com o título Disco Alliance o grupo letão propunha aqui uma música de evidente alma cósmica, mais em sintonia com os caminhos do space disco trilhados sobretudo em França e na Itália em finais dos anos 70 do que com os alicerces “germânicos” das linguagens que tinham levado as eletrónicas à música popular alguns anos antes. Há de facto – e como o título sugere – uma pulsão rítmica com arquitetura inspirada pelo disco sound, sendo, porém, igualmente protagonista o trabalho de criação melódica desenhado, à falta de voz, pelos sintetizadores. E aqui, uma vez, mais as afinidades com o space disco (sobretudo o francês) são evidentes. Não se trata, porém, de um mero pastiche ou mimetismo, antes uma comunhão contemporânea de formas e referências. E vale a pena sublinhar que as temáticas do espaço e do futuro tinham igualmente vasta tradição não apenas na literatura como no cinema que então se fazia para lá da cortina de ferro. Assim como é de reforçar que a URSS mantinha, desde os anos 50, um plano próprio de conquista do espaço.

Escutando de fio a pavio este Disco Alliance, fica claro que, contemporâneos de álbuns dos Human League ou OMD que então colocavam a pop eletrónica no mapa da música ocidental, os Zodiac não estavam assim tão longe de partilhar entusiasmos semelhantes, talvez sem o sentido “catchy” de outras canções pop de 1980, mas claramente capazes de sugerir ambientes… E com eles sonhar o futuro. Seria interessante por isso saber um pouco mais sobre em que modos pensavam eles o futuro… Seria coisa meramente estética, ou haveria ingredientes políticos e vivenciais a habitar estes sonhos? Os títulos dos temas (Zodiac, Pacific, Provincial Disco, Polo, Mirage, Rock On the Ice e Alliance) podem aparentemente ser inofensivos… Mas o que contariam nas entrelinhas?…

O texto – em três línguas (uma delas o inglês) –, assinado por um editor da estação de televisão letã, e que lemos na contracapa desta edição da mítica editora Мелодия (ou seja, Melodia), destaca a “atitude profissional” de músicos “promissores”, assinalando que eram então os primeiros, em toda a URSS, a levar a disco este tipo de música.

O grupo mantém-se em atividade e o seu mais recente álbum data de 2015.

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