Uma narrativa política e pessoal mais perto do teatro do que do concerto pop

O manifesto de Madame X sugeriu o caminho. E o espetáculo acrescentou um dos melhores episódios à obra de Madonna criada para o palco. Político. E muito pessoal. Agora chegou o filme e o disco que fixam memórias captadas, ao vivo, em Lisboa. Texto: Nuno Galopim

“Os artistas estão aqui para perturbar a paz”… A frase, de James Baldwin, foi citada mais do que uma vez durante o espetáculo que Madonna levou a uma residência no Coliseu dos Recreios (em Lisboa, a sua “segunda casa” como ela mesma ontem nos contou) nos primeiros dias de 2020. As palavras surgem, lidas ao som de batidas de uma máquina de escrever logo no início, regressando perto do final. E a meio, numa das várias sequências de conversa que estabelece com uma plateia – que a vê olhos nos olhos, sem ter de olhar para grandes ecrãs – deixa claro que essa perturbação não visa senão lutar pela paz no mundo. A nota, claramente política, sustenta uma construção que está mais perto de uma encenação teatral do que do clássico concerto pop. De resto, ao optar por salas mais pequenas do que o habitual, Madonna trocou a exuberância pela acutilância. E o modo como o palco se mostrou e transformou – com módulos físicos que se moviam e readaptavam, transformando-se pela ajuda também de projeções vídeo – tinha na verdade mais afinidades com o que habitualmente vemos na ópera do que com os mecanismos cénicos mais frequentemente usados pela música pop. E tal como numa ópera, Madonna usou aqui a música para nos contar histórias.

Regressemos a Madame X, agora com a ajuda do filme-concerto e do disco ao vivo que fixam memórias captadas aquando da sua passagem pelo Coliseu dos Recreios.

Que histórias nos conta Madonna? Primeiro fala de resistência e de luta. Madame X é na verdade um coletivo, uma multiplicação de Madonna em várias personagens. E quando canta Vogue várias figuras idênticas chegam mesmo a caminhar pelo palco, obrigando-nos a procurar qual delas é mesmo a que Madonna veste naquele momento. O manifesto de Madame X serve de base ao espetáculo. E entre as primeiras canções fica claro que a mulher lutadora está ali, de forma talvez mais evidente do que nunca, a batalhar pelas causas em que acredita, de uma clara postura de antagonismo perante a atual administração americana – chega mesmo a dizer que um psicopata está a mandar no seu país – ao levantar da voz pela liberdade e igualdade, vincando o valor do respeito pela identidade de cada um. Do acesso às armas legalmente permitido nos EUA às lutas da comunidade LGBT+, Madonna fez inclusivamente de “I Rise” (que inclui imagens de manifestações e as palavras de uma ativista que sobreviveu a um tiroteio escolar) uma condensação do Manifesto, abandonando o palco de braço (e punho) no ar. Antes já American Life, uma canção que alerta para o modo como o “sonho americano” parece ter desmoronado, tinha representado outro episódio de evidente manifestação de uma voz política, a mesma que nos alerta em Future para o futuro ameaçado em que todos vivemos.

Se a dimensão política é uma das forças motrizes tanto do álbum Madame X como do espetáculo que o transforma numa realidade física, a história pessoal da própria Madonna é outra das narrativas que habitam as entranhas do que se materializa em palco. Ela mesma começa por nos contar como, pelo filho, veio parar a Lisboa… E daí como, através de uma amiga que aqui vive, acabou por ser desafiada a sair de casa, começando a descobrir outras realidades. E falou de música. De Dino d’Santiago, que a levou a descobrir casas de fado. De Celeste Rodrigues, com quem chegou a cantar… Chamou à boca de cena o jovem Gaspar Varela, bisneto de Celeste, que uma vez a desafiara a cantar um fado. E desta vez, sublinhando quão bom era não ter de explicar a uma plateia o que era o fado, cantou um perante uma sala que, mesmo carregada de visitantes, estava cheia de gente que fala português. Quando o pano voltou a subir o palco tinha-se transformado numa casa de fados, na qual Madonna concentrou algumas das canções em que usa a língua portuguesa – como Killers Who Are Partying e Crazy, alargando o universo de referências à música latina em geral juntando citações a La Isla Bonita ao tema Welcome To My Fado Club e acabando por cantar ali Medellín, o cartão de visita de Madame X. A aproximação a esta sequência focada em Lisboa – o local que inspirou o, como disse Madonna – já se tinham escutado as batucadeiras de Cabo Verde no brilhante Batuka. No filme e no disco ficaram de fora o dueto com Dino d’Santiago entoando, com a sala a cantar, Sodade, de Cesária Évora. Mas ficou o Fado Pechincha, que Madonna ensaiou com Gaspar Varela em Brooklyn, quando preparavam o espetáculo.

Apesar do tom sombrio de algumas sequências nas quais o espetáculo traduz o estado do mundo e o modo como Madonna usa a sua voz, a luz não faltou a Madame X. A sequência lisboeta foi disso um exemplo. Todavia, ao contrário de muitas outras digressões de Madonna, o espetáculo Madame X não cede no sentido de combate e identidade que desenha a qualquer apelo para fugas para festa e nostalgia com velhos êxitos. Pelo contrário, não só é curta a presença de temas antigos num alinhamento que valoriza (e ainda bem) a presença do álbum Madame X como muitas vezes – como em American Life, Express Yourself ou Like a Prayer – mostra como os alicerces das ideias que explora neste disco na verdade estavam já lançados por canções de outros tempos. O espetáculo foge assim das lógicas mais habituais de diálogo do novo com uma seleção “best of” de discos anteriores. O passado de Madonna serviu aqui a narrativa, levando a cena outras expressões da multiplicação de si mesma em várias personagens… E basta olhar para a sua história de canções e imagens para notar que, na verdade, esta ideia já a acompanha há muito.

Sem a dinâmica atlética que vimos, por exemplo, na digressão que sucedeu a Confessions on a Dance Floor, o espetáculo procura outros caminhos. Há bailarinos (que vestem também a pele de várias personagens) e os músicos só ocasionalmente estão em palco. Uma vez mais a dimensão teatral das opções da encenação demarca a personalidade desta visão, até mesmo ao diluir sem a nitidez mais compartimentada de digressões anteriores, as transições entre os quadros que desenham a sucessão de momentos (como se dos diversos atos de uma peça, ou ópera se tratasse). Mesmo encenado e claramente desenhado ao detalhe, o espetáculo deu ainda a Madonna, mais do que nunca, espaço para interagir com a sala. Sem a dimensão dos estádios ou grandes pavilhões, as salas que Madame X visitou trouxeram proximidade.

O mais político e pessoal dos espetáculos de Madonna deixa agora de ser memória para quem passou pela plateia e camarotes do Coliseu. O filme teve passagem pela MTV Portugal e tem como destino uma plataforma de streaming. O disco está disponível nas plataformas digitais. Haverá depois vida em suporte físico para estas memórias de Madame X?

“Madame X – Music From The Theatre Xperience”, de Madonna, está disponível nas plataformas de streaming numa edição da Boy Toy / Warner.

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