O ponto final que levou quatro décadas a chegar

Lançado 40 anos depois de “The Visitors”, “Voyage” dá finalmente aos Abba as canções para uma despedida criativa. Coerente, consistente e ciente de uma identidade, o álbum traduz ecos de memórias e junta potenciais novos clássicos à história do grupo. Texto: Nuno Galopim

Não vamos gastar mais linhas a explicar o regresso dos Abba… Já passaram semanas desde o momento da revelação da notícia e a edição de Voyage para que ficasse devidamente explicado o hiato de 40 anos. Porém nunca é demais lembrar que, ao invés de outras “separações”, na verdade nunca os Abba anunciaram um ponto final quando, depois das derradeiras sessões de estúdio em 1981 ou do último single com material inédito (Under Attack) cada um dos quatro elementos do grupo seguiu por destinos mais vezes divergentes do que convergentes, mantendo-se contudo firme em vários projetos subsequentes a equipa criativa constituída por Björn Ulvaeus e Benny Andersson. Foi, assim, como se tivessem carregado no botão de “pausa” e não no de “stop”. Até que, perante o desafio de criação de um novo espetáculo (inicialmente falou-se até num especial de televisão) a ideia de juntar novas canções ao corpo de clássicos criados entre a década de 70 e a alvorada dos oitentas, começou a ganhar forma.. E, tal como o disseram durante muito tempo, de facto foram duas as canções que começaram por associar ao projeto (que entretanto ganhou forma de um show digital com “abbatars” a estrear em Londres em maio de 2022). Com os títulos I Still Have Faith in You e Don’t Shut Me Down, as novas canções acabaram por servir o momento da comunicação do regresso, editadas simultaneamente como singles, a primeira seguindo a linha clássica da balada focada em mergulhos introspectivos (que tem The Winner Takes It All como paradigma), a segunda recuperando o fulgor do gosto pela dança e luminosidade que a dada altura não esconde um breve piscar de olhos a Dancing Queen. “Eh pá, soa a Abba, estão iguais”, diziam alguns dos menos entusiasmados… Estavam tramados um Pollock ou um Rothko se, após uns anos de pausa, voltassem a criar obras… com a sua identidade. Nada contra, portanto. E, convenhamos, antes uns Abba cientes dessas marcas de personalidade e confortáveis com a idade (e o tempo que passou) e não personagens fake moldadas para uma aventura pop modernaça no século XXI. E tal como esses singles indiciavam, e o seguinte Just a Notion sublinhou (este com uma canção de 1978 nunca levada a disco), Voyage retoma a identidade pop de linhas elegantes que o grupo alcançara na reta final da sua primeira etapa de vida, talvez mais perto dos dias de Super Trouper do que das visões fixadas no belíssimo (e muitas vezes injustamente secularizado The Visitors). No fundo, foi como se, 40 anos depois, alguém tivesse voltado a carregar no botão de “pausa”, e o tempo voltasse a avançar no contador, retomando a história onde havia sido suspendida.

É sempre um risco esta coisa de reunir uma banda (ou uma formação clássica de uma etapa remota da sua história) e voltar a fazer música nova. Dos Culture Club aos Blondie, dos Bauhaus aos Pixies, entre outros mais, as reuniões serviram bem a nostalgia ‘best of’ em palco, mas revelaram tropeções (uns mais dolorosos do que outros) na hora de gravar novos discos. Até mesmo os Duran Duran, quando no início do século XXI juntaram a sua formação “clássica” (da etapa 1980-85) tiveram em Astronaut (de 2004) o disco nutritivamente menos apetitivo dos que desde então nos apresentaram. Por muito que o discurso promocional fale da “química” (lugar comum maior nestas coisas) reencontrada e não faltem aquelas confissões que contam como se sentiram bem novamente juntos em estúdio “como se o tempo não tivesse passado” (mas passou) a verdade é que não deve ser fácil voltar a criar em grupo, sobretudo quando há um peso visível (de impacte e sucesso) no legado que vem do passado. É verdade que esta ideia do reencontro “como se o tempo não tivesse passado” cruzou o discurso de regresso dos Abba. Mas as marcas do tempo que passou não são todavia apagadas das canções de Voyage. Pelo contrário, este é um disco que não esconde que um hiato aconteceu, nem que pelo modo como retoma, sem temor, linguagens e formas que correspondem a uma relação com o passado que ficou suspenso. Voyage é assim o ponto final que não fixaram na sua história ali por volta de 1982, 83… Levou quase quatro décadas a chegar. E não quer condensar 40 anos de intervalo numa nova coleção de canções. Antes, fixa neste opus final o desfecho natural de uma história que estava já em rota de despedida em 1981, traduzindo pela verdade das vozes e das palavras que, neste caso, o tempo passou um pouco mais devagar do que o inicialmente imaginado (até mesmo por eles mesmos). Outra marca dessa tranquila relação com o tempo surge numa breve citação ao histórico S.O.S. nas notas finais de Keep an Eye on Dan, curiosamente a canção mais desafiante do alinhamento (com um registo nos sintetizadores que parece agradecer aos Erasure a homenagem em tempos fixada em Abbaesque).

No deve e haver das contas de Voyage há talvez uma divisão entre baladas e canções uptempo mais equitativa do que nos álbuns “clássicos” nos quais a festa pop era clima dominante. Mas essa acaba por ser outra eventual expressão do modo seguro e natural com que os quatro suecos traduzem a verdade do tempo (e da idade) neste disco. Convenhamos que, 40 anos depois das últimas notas conhecidas uma das mais férteis discografias de sempre na música pop, ninguém iria exigir aos Abba nem uma revolução no plano das formas nem uma coleção de clássicos superlativos (como se tivessem passado quatro décadas a compor canções e a guardar as melhores para uma qualquer eventualidade).

Voyager, nascido no arco de tempo semelhante ao dos álbuns anteriores dos Abba, e sob um cenário de pandemia (e não de estrada como no passado), revela um alinhamento seguro, sóbrio, maduro e coerente. A estas características podemos acrescentar o facto de estarem aqui algumas canções ao nível de alguns dos melhores momentos da obra anterior. Don’t Shut Me Down, Bumblebee, Keep an Eye on Dan ou o mais “antigo” (mas não esquecido) Just a Notion são motivos mais do que apenas saborosos para um reencontro… A épica Ode to Freedom, com “cordas” digitais, que fecha o alinhamento, junta algum azeite DOP vintage… Mas não o fizeram já Fernando ou I Have a Dream no passado? Ao regressar para escrever o seu ponto final criativo os Abba acabam por assinar um dos discos “de reunião” mais coerentes e agradáveis que o tempo dos “regressos” tem visto nascer.  Ainda por cima com a noção certa do que deve ser a duração de um álbum. Valeu a espera!

“Voyage”, dos Abba, está disponível em LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição Polar Music / Univeresal.

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