Os primeiros dias do resto da vida dos Radiohead

Nascidos nas mesmas sessões, mas editados em separado na alvorada do século, os revolucionários “Kid A” e “Amnesiac” são finalmente reunidos sob uma capa comum numa edição especial que junta inéditos daqueles tempos. Texto: Nuno Galopim

Lembro-me de receber literalmente uma “pen” (tinha a forma de uma caneta) com um disco lá dentro. Estávamos no ano 2000 e aquela “caneta” com música trazia boas novas de uma revolução então algo inesperada. Tinha por título Kid A e, três anos depois da consagração global ao som de OK Computer, e já com o magnífico The Bends ou o single Creep transformados em colossos da história indie dos noventas, revelava algo… completamente diferente. Da exaustão (em vários sentidos, dos planos mais pessoais aos da demanda musical) e de uma consequente necessidade em sonhar tudo de novo – um pouco como dez anos antes o tinham feito os U2 depois de uma etapa “americana” com impacte planetário – os Radiohead reinventavam-se assumindo um novo rumo, ousando mesmo agir nas fundações estruturais da sua identidade. Tal como sucedera entre os U2 a mudança não foi pacífica dentro do grupo. Mas se os quatro que encontraram a resposta transformadora em 1991 ao som de Achtung Baby se dividiram 50/50 em dois campos, entre os Radiohead o processo nasceu de visões nascidas no mundo interior do vocalista Thom Yorke numa altura em que, na ressaca da experiência global vivida com OK Computer, encontrou novos estímulos ao escutar a música de Aphex Twin e de visionários de uma nova música eletrónica que então militavas no catálogo da Warp. O gume das novas ideias que o motivavam a continuar estavam entre os sons e nos ritmos e não nas melodias nem na eletricidade das guitarras. Sucederam-se várias etapas de trabalho em diversos estúdios, sempre na companhia do produtor Nigel Godrich (um colaborador que se mantinha, embora aberto a explorar e potenciar a vertigem das novas descobertas). Com horas a fio de música gravada, mas na verdade com mais ideias lançadas do que arrumadas na forma de novas canções, o processo esteve longe de ser nítido e pacífico. E conta-se que chegaram mesmo a considerar a hipótese de colocar um ponto final na vida conjunta caso a luz não surgisse ao fundo do túnel. 

Mas a luz chegou com Everything in it’s Right Place. E, mitologia ou não, sob o poder sugestivo dessa noção de ter finalmente tudo no lugar certo, o certo é que surgiram sessões mais produtivas e focadas, das quais surgiu um volume de canções que poderia ter gerado um álbum duplo. Optaram então por dividir o lote de composições em dois volumes. Ao primeiro chamaram Kid A. E em 2000 as canções de Kid A geraram tanta surpresa quanto encantamento, acabando o jogo do deve e haver com a constatação de que a transição, apesar de sofrida, os levara a um caminho diferente mas em nada menos estimulante. Antes pelo contrário, e apesar do natural reconhecimento da excelência de OK Computer (e não secundarizemos aqui The Bends), o novo rumo acabaria por levar os Radiohead à etapa criativamente mais vibrante da obra do grupo. Sem apagar a presença das guitarras (como se escutava em National Anthem) nem o gosto pela criação de momentos épicos embelezados por arranjos orquestrais (como em How to Disappear Completley), conciliando estas linhas com o minimalismo digital do tema título ou o fulgor rítmico de Idioteque, Kid A revelava afinal mais do que um processo de rutura, emergindo as novas formas tanto das descobertas recentes como de heranças da própria identidade e experiências anteriores do grupo. Motion Picture Soundtrack, que fechava o alinhamento, por exemplo, era uma canção que vinha bem de trás na história dos Radiohead, encarada agora sob uma nova gramática.

Um ano depois a segunda parte das sessões de estúdio emergiam na forma de Amnesiac, um volume que expandida e continuava as experiências reveladas em Kid A. Sem a mesma surpresa do volume um, que chegara inclusivamente às lojas sem as mais habituais ferramentas promocionais (nem singles nem teledisco), Amnesiac sublinhava e cimentava uma visão. E juntava novos episódios a uma história de transformação que em nada afetara a capacidade do grupo em criar pequenos monumentos, tal como o mostraram canções como Pyramid Song ou Morning Bell.

Vi o concerto da digressão de Kid A em Londres, numa grande tenda montada num parque no East End, com os Clinic na primeira parte. Vi, um ano depois, um concerto da digressão seguinte em Bilbao. E com as experiências de palco e os dois álbuns lembro-me de pensar que bom que seria, um dia, ver estes dois discos reunidos. Um pouco como as duas metades de Berlim o fizeram depois de derrubado o muro. É o que finalmente sucede com esta edição especial que, 20 anos depois de concluída a edição deste díptico, junta finalmente Kid A e Amnesiac sob uma capa comum, acrescentando, como mandam as normas da nova arqueologia pop, um terceiro disco sobretudo com material inédito proveniente das mesmas sessões. Aos dois discos – afinal um só – estes extras acrescentam mergulhos no processo criativo, dos quais surgem pistas, sugestões e até elos aparentemente perdidos. De pequenos ensaios com guitarras a visões instrumentais, de experiências a explorações, Kid A Mnesia completa uma das mais estimulantes aventuras da alvorada do século XXI. E que bom que sabe, 20 anos depois, regressar a estas canções e descobrir um pouco mais sobre os caminhos que ensaiaram para pensar o salto desafiante que então assumiram. O salto que, afinal, seria o primeiro dia do resto da vida dos Radiohread.

“Kid A Mnesia” está disponível em 3LP, CD e nas plataformas digitais, numa edição da XL Recordings.

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