Heróis do Mar “Heróis do Mar” (1981)

Editado a 18 de novembro de 1981, apresentado ao vivo no Rock Rendez Vous, numa noite que deu brado, uma semana depois, o álbum de estreia dos Heróis do Mar foi um marco importante na criação de uma identidade pop “made in” Portugal. Texto: Nuno Galopim

Faz esta semana 40 anos. A 25 de Novembro de 1981 os Heróis do Mar subiam ao palco do Rock Rendez Vou para apresentar as canções do seu primeiro álbum, editado sete dias antes. Herdeiros directos dos Faíscas (uma das referências da primeira geração do punk português) e do Corpo Diplomático, juntavam Rui Pregal da Cunha (vocalista, que mais tarde integrou os LX-90 e Kick Out The Jams), Paulo Pedro Gonçalves (guitarrista, que além desses outros dois grupos com o vocalista criou ainda o projecto pessoal Ovelha Negra), Pedro Ayres Magalhães (baixista, mais tarde fundador dos Madredeus), Carlos Maria Trindade (teclista depois com carreira a solo, a dada altura integrando os Madredeus) e António José de Almeida (baterista, sem carreira como músico após a separação do grupo).

Editado a 18 de novembro de 1981, o álbum de estreia do grupo, ao qual chamaram apenas Heróis do Mar, revelou, muito simplesmente, a mais desafiante das propostas entre uma geração que, por esses dias, “inventava” uma nova ideia pop/rock made in Portugal. Assimilando ecos do pós-punk britânico (acolhendo aí as heranças diretas do Corpo Diplomático), procurando um relacionamento entre a forma da canção pop e um fôlego rítmico que cruzava ecos do disco com um tom militarista, buscando paisagens de uma nova portugalidade pop, os Heróis do Mar desenharam no seu álbum de estreia uma das mais importantes e influentes experiências de uma geração que então procurava uma voz. 

A iconografia que tomaram como expressão visual de identidade, a opção por uma imagem de perfil militar e um olhar por valores e referenciais culturais que foram, na época, tomados por alguns como agenda política, fizeram da banda um “caso” discutido nas páginas dos jornais. 

Recorde-se que estávamos a pouco mais de sete anos de distância da revolução e, depois de vivida uma etapa de evidente protagonismo da canção política e de um posterior renascimento da canção ligeira (ainda em finais dos anos 70), só perante os alvores dos oitentas o panorama musical português acolheu, com peso e representação social, o nascimento de uma outra cultura jovem (com natural protagonismo de novas expressões musicais). 

Se no final dos setentas o punk tinha sido caso quase silencioso num mapa de acontecimentos ainda longe de preparado para lhe dar devida repercussão (o que fez dos Faíscas um caso importante no contexto, mas alheado da atenção popular), e se os dias do pós-punk prepararam terreno (daí, novamente, o papel crucial da visão de unsCorpo Diplomático), aos Herós do Mar coube o “fado” de serem a banda certa na hora certa. E o seu álbum de estreia juntava uma atenção para com as formas contemporâneas a referências do espaço, cultura, vivências e língua do país. Escutavam desde logo uma certa melancolia fadista (que aprofundariam mais tarde no magnífico Fado, de 1986) ou uma relação com heranças de África (a que regressariam, em 1988, numa parceria com Waldemar Bastos em Africana).

Quarenta anos depois a expressão de heranças entretanto tornadas visíveis em bandas como Os Golpes, os Capitães da Areia e muitos mais, evoca os Heróis do Mar como uma das referencias mais marcantes da demanda, nos oitentas, de uma nova alma pop/rock portuguesa.

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