Vangelis (1943-2022)

A forma como tantas vezes, na hora de partilhar uma comunicação “de massas”, uma obra é reduzida a uma canção ou a um momento é coisa no mínimo redutora e até mesmo injusta. E no dia em que noticiava a morte de Vangelis era que colada à notícia a banda sonora de “Momentos de Glória”. Oscarizada, é verdade. Extremamente popular, é certo. Mas não só longe de traduzir o melhor da obra do músico grego, isto para nem sequer falar no modo coxo como esta referência impede um retrato da grande diversidade de caminhos e de feitos pelos quais a sua música caminhou. 

Autodidata, Evángelos Odysséas Papathanassíou (nascido em 1943) começou por tocar “de ouvido” no piano que a família tinha em casal. Começou a compor primeiras peças, assimilou ecos da cultura folk grega, mas foi em pleno “boom” de uma nova cultura jovem que o pop/rock emergente o cativou para desafios profissionais, primeiro através dos The Formix (um caso de popularidade nos tempos do ié ié), depois por via de primeiras bandas sonoras e, já na reta final dos anos 60, a bordo dos Aphrodite’s Child, banda (com Demis Roussos como vocalista) que representa um caso maior na história do rock grego, com peça de referência no álbum conceitual 666 (de1972), disco que chegou aos escaparates já com a banda em debandada… Por essa altura (desde 1969) Vangelis vivia já longe da Grécia, terra natal que abandonou por alturas do golpe que colocou a ditadura militar no poder.

Em França começou por chamar atenções para a música que foi criando para vários documentários televisivos de Fréderic Rossif, o primeiro dos quais, L’Apocalypse des Animaux, tendo gerado uma edição em LP em 1973. Por essa altura tinha já editado o álbum de estreia a solo Fais que ton rêve soit plus long que la nuit (1972), claramente marcado pelas consequências do Maio de 68, ao que se seguiu Earth, disco no qual a pulsão do rock ainda lançava as traves mestras, mas já com frestas de busca de novas dimensões “ambientais” moldadas por novos instrumentos: os sintetizadores.

Quando se muda para Londres pouco depois cria um estúdio ema casa e aí investe precisamente na exploração das possibilidades destes novos instrumentos, não fechando nunca as possibilidades de diálogo como, por exemplo, em Heaven and Hell, onde colaboram um coro e a voz de Jon Anderson, vocalista dos Yes com quem mais tarde assinaria um trio de álbuns vocais (sob a designação Jon & Vangelis). A Heaven & Hell (disco do qual saiu parte da música para o Cosmos de Carl Sagan) seguiu-se Albedo 0.39, no qual assina as marcas de identidade de uma linguagem que, depois, declina em vários discos seguintes, das expressões de continuidade em Spiral à busca de trilhos narrativos em China, o ousar de caminhos exploratórios no mais experimental Beaubourg (citando o Centro Pompidou), o desenvolvimento de linguagens épicas em Mask, um reencontro com tradições folk em Odes (em parceria com Irene Papas) ou a busca de outros detalhes no microscópico Soil Festivities. Nesta etapa, que corresponde talvez à fase mais criativa (e de sucesso discográfico) de Vangelis surgiram ainda discos algo inesperados como See You later ou Invisible Connections (novo mergulho experimental, este através do selo da Deutsche Grammophon). Ao mesmo tempo o sucesso no cinema, vincado pelas bandas sonoras de Momentos de Glória e Blade Runner – Perigo Iminente, fixava o cinema como importante e recorrente espaço de trabalho, daí resultando uma mão-cheia de casos de sucesso e reconhecimento nos anos 80 e 90. O gosto pela criação de música capaz de sublinhar momentos ou de contar histórias ligou-o a vários projetos associados à aventura espacial. Um deles, Mythodea, é uma cantata que sublinha um antigo encantamento humano pelo planeta Marte. 

É certo que os discos mais recentes não voltaram a repetir o potencial de comunicação e sedução de clássicos seus editados nos anos 70 e 80, quando era sobretudo encarado como importante pioneiro na construção de novas peças através das electrónicas. Mas não o vamos voltar a reduzir ao Momentos de Glória, OK?

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