Duran Duran no Rock in Rio 2022: estão hoje melhores em palco do que nos tempos de “Rio”, não é?

É certo que foi há 40 anos que os Duran Duran criaram a sua obra-prima (com o álbum “Rio”). Mas o concerto de ontem no Rock In Rio mostrou que são hoje uma muito mais sólida e segura banda de palco. E com passado e futuro a dialogar no alinhamento. Texto: Nuno Galopim

A prática da auto-ironia traduz habitualmente segurança. E ao levar ao palco, num mash-up com Girls on Film, uma versão do hilariante (e suculento) Acceptable in the 80s, de Calvin Harris, os Duran Duran mais não fazem hoje em dia do que arrumar de vez, no baú do passado bem arrumado, toda uma coleção de comichões que os oitentas em muitos causaram. E falando dos próprios Duran Duran eu mesmo não me esqueço do preconceito surdo e conservador, incomodado por uma nova ordem pop musical e visual, então vociferado (com desdém) por quem olhava para o grupo como uma mera teen band sem muito para deixar na história. Quão errados estavam, claro. É certo que a canção de Calvin Harris  parodia sobretudo as memórias de cabelos, roupas ou poses dos oitentas. Imagens que os telediscos ajudaram a fixar. Mas ao aceitar esta paródia aos oitentas, que ajudaram a construir, os Duran Duran dão sinais de uma boa relação com o seu próprio passado, juntando depois as memórias de então ao presente vivo que o mais recente Future Past uma vez mais vincou, construindo um alinhamento que, se por um lado satisfez a nostalgia de quem ali estava para recordar velhos êxitos, na verdade acabou por fazer com que todos regressassem a casa com a constatação de que não só os Duran Duran envelheceram bem como são hoje uma melhor banda de palco do que naquele 1982 de há 40 em que nos visitaram para apresentar as canções do então recente Rio… 

Para uma banda que teve em nós um dos seus primeiros números um (foi logo com Planet Earth) e aqui viveu um sucesso colossal de 1981 a 83, convenhamos que a sua presença em palcos nacionais foi coisa de mais dietas do que de farturas. Puxão de orelhas aqui a muitos promotores que nunca pareceram interessados em chamar aqui as digressões (e eles nunca pararam) e que, depois da enchente de ontem, se calhar viram argumentos suficientes para repensar a coisa… É que, depois dos concertos de Cascais e Porto em 1982 só regressar depois de reunida a formação clássica em 2004 e, depois, para um SBRB à beira da foz do Trancão, alguns meses depois de lançado Red Carpet Massacre (disco que merecia melhor sorte do que a que obteve).

Ontem, mais ainda do que no Coliseu em 2004, a consagração foi absoluta, num alinhamento que visitou todos os singles de maior sucesso global de 1981 a 1986 (faltou aí apenas Is There Something I Should Know?), juntando depois as já habituais presenças dos noventas (via Ordinry World, Come Undone e a versão de While Lines do álbum Thank You). Para satisfazer os admiradores mais conhecedores e não apenas os papa-nostalgias, acrescentaram ao alinhamento o belíssimo Friends of Mine do álbum de 1981 e Hold Back The Rain de Rio (e ambos poderiam ter sido singles na altura). Do século XXI passaram a leste dos quatro álbuns editados antes do sólido Future Past de 2021, neste encontrando de resto o disco mais vezes visitado no alinhamento, logo com Velvet Newton como tapete para a chegada da banda ao palco, tema ao qual se juntou o poderoso Invisible (que som ao vivo) e ainda All Of You, Tonight United e Give It All Up (Anniversary e Laughing Boy ficam na minha lista de pedidos para uma próxima ocasião, ok?). 

Apesar de operações de maior complexidade visual de digressões anteriores, o concerto dos Duran Duran em 2022 é uma montra do que melhor sabem fazer: grandes canções. E foi entre um alinhamento poderoso (aliando bem o presente ao passado), uma segura presença em palco que nem mesmo a rouquidão que visitou a voz de Simon Le Bon a caminho do fim do concerto danificou. Para uma banda que viveu apolítica quase toda a sua existência não deixaram de tomar partido a causas do presente, dedicando Ordinary World ao povo da Ucrânia, num momento de comunhão com a vastíssima plateia que se voltaria a materializar, já no encore, ao som de Save a Prayer.

Foi talvez o melhor dos concertos dos Duran Duran em Portugal. Soube a pouco. Não a noite em si, mas a constatação de que teria sido bom ter contado com eles mais vezes nos nossos palcos. Nada que o futuro não possa corrigir. E já que entre o futuro e o passado se escreve hoje a história do presente dos Duran Duran, se calhar os tempos que estão para vir poderão ultrapassar estas faltas de anos anteriores. 

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