O monumento pop que os Associates criaram há 40 anos

Lançado em 1982, o álbum “Sulk” regressa numa reedição com extras e também numa nova prensagem em vinil. Ambas permitem reencontrar a obra maior da discografia dos Associates, a banda que revelou a voz de Billy McKenzie. Texto: Nuno Galopim

Uma das propostas mais cativantes nascidas nos finais de 70, em clima pós-punk, no Reino Unido, os Associates chamaram atenção logo com o primeiro single, editado em 1979, no qual apresentavam uma versão do ainda bem recente Boys Keep Swinging de David Bowie. Nascidos em Dundee (Escócia), com o vocalista Billy McKenzie e o guitarrista e teclista Alan Rankine como timoneiros criativos, os Associates lançaram um primeiro álbum em 1980, ao qual se sucedeu, em 1981, uma série de singles que seriam reunidos na compilação Fourth Drawer Dawn (editado no mesmo ano), que muitos acabariam por ver como um segundo álbum. Na verdade o sucessor de The Affectionate Punch só chegaria em 1982 e representaria a definitiva afirmação do grupo como uma força criativa única, com uma linguagem própria e demarcada, capaz de definir um espaço próprio, sem deixar de seguir os caminhos instrumentais de contemporâneos seus, num tempo em que os sintetizadores ganharam voz de maior protagonismo no panorama pop britânico. 

Eleito em finais de 1982 como álbum do ano para o Melody Maker, o álbum Sulk representou o momento maior de uma obra que teria continuidade ainda como Associates, apesar de Alan Rankine ter abandonado o grupo poucos meses depois do lançamento do disco. Aferindo a um patamar de ainda maior identidade a visão pop que os singles de 1981 tinham sugerido, as desafiantes canções de Sulk têm a sua arquitetura assente sobre uma secção rítmica que destaca a presença do baixo (cortesia do ex-Cure Michael Dempsey) e desenham espaços onde guitarras e sintetizadores definem telas sobre as quais a voz (rara) de Billy McKenzie se aventura ora em linhas de plácido melodioso ora de surpresa (por vezes no limiar de um bom desconforto), sugerindo um tom teatral (há quem use o termo operático) que não esconde afinidades com um Russel Mael (dos Sparks). 

Os singles Club Country e Party Fears Two, ambos com impacte comercial no Reino Unido, garantiram ao álbum que não vivesse fechado num nicho aclamado pela crítica para apenas o mais atento melómano escutar. A angulosidade intensa de Bap de La Bap, o apelo pop de Skipping, as assombrações de Gloomy Sunday (versão de uma composição de 1933 do húngaro Rezső Seress) ou a luminosidade do instrumental nothinginsomethingparticular (tema que teria depois uma expressão vocal em 18 Carat Love Affair). Este lote de argumentos, num alinhamento de rara excelência (e o título atribuído pelo Melody Maker não foi de todo um favor) fazem de Sulk uma obra de absoluta referência da pop dos anos 80. Agora, 40 anos depois, uma reedição acrescenta ao alinhamento do álbum uma série de extras, entre os quais faixas (como a versão de Love Hangover, original de Diana Ross) que surgiram na versão americana do álbum e uma série de maquetes (algumas delas nascidas em sessões gravadas por John Leckie), takes alternativos, gravações ao vivo e sessões para John Peel (na BBC), assim como versões para as edições em singles e máxis da época. Muitas destas faixas extra são inéditas e aumentam os pontos de vista que, 40 anos depois, podemos lançar sobre um dois melhores discos do muito fértil 1982. 

“Sulk”, dos Associates, está disponível em 3CD e nas plataformas digitais, numa edição da BMG. Ao mesmo tempo é lançada uma prensagem em vinil azul do álbum original. 

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