Reencontros para refletir sobre outras possibilidades

Num projeto nascido em tempo de pandemia, Thom Yorke e Johnny Greenwood juntam-se a Tom Skinner para criar um álbum que revela ecos da identidade da música dos Radiohead, mas de modo algum quer ajustar contas com o passado, porque olha adiante. Texto: Nuno Galopim

As mais variadas razões levam músicos que integram bandas a criar projetos a solo, mas nem sempre para dar espaço à velha máxima “e agora para algo completamente diferente”… Até porque, apesar de frequentemente os projetos a solo surgirem de reuniões de músicos com histórias distintas, são mesmo assim alguns os casos de bandas nascidas de projetos paralelos nos quais se juntaram companheiros que integram os grupos dos quais estão, supostamente, a tirar umas férias… Os Arcadia não eram mais do que três Durans, enquanto os Power Station juntavam os outros dois a Robert Palmer e Tony Thompson. Os Creatures nasceram com dois protagonistas dos Sixouxie & The Banshees. Nick Cave levou músicos dos Bad Seeds para os Grindermen… O mesmo acontece agora com os The Smile, projeto nascido em tempo de pandemia do desejo comum de Thom Yorke e Johnny Greenwood, dos Radiohead, em criar nova música, tendo ambos convocado o baterista Tom Skinner, dos Sons of Kemet. As ideias fluíram durante períodos de confinamento e, ainda em 2021, as primeiras canções ganharam forma num concerto transmitido por streaming produzido pelo Festival de Glastonbury (cuja edição desse ano, tal como em 2020, fora cancelada). Agora, e com a presença do velho e fiel colaborador Nigel Godrich na produção, eis que entra em cena um álbum que não só materializa de forma mais perene esta aventura, assim como junta interessantes pistas, sobretudo, à história do universo Radiohead,

Este não é, naturalmente, o primeiro projeto a solo nascido entre músicos dos Radiohead. Mas ao passo que os discos a solo de Thom Yorke, de Johnny Greenwood (estes na sua maioria feitos de música criada para o cinema), de Ed O’Brien e de Philip Selway, assim como as contribuições de Colin Greenwood para diversos projetos, assim como o grupo Atoms For Peace (nos qual participava também o vocalista), representaram espaços de fuga ou de busca de novos caminhos (alguns mais em sintonia com os dos Radhiohead do que outros), já o trio The Smile parece nascer essencialmente de um desejo de reencontro com as mais firmes bases de uma identidade, como que a procurar, em tempo de incertezas, a segurança de uma terra firme e, de certa forma, algo familiar.

A Light For Atracting Attention não será exatamente aquela ideia um tanto simplista do “back to the basics” que tantas vezes encontramos em textos sobre grupos que querem regressar às referências centrais da sua identidade de origem (dos Rolling Stones pós 68 aos U2 depois dos anos 90, por exemplo). Nem se trata de uma trip de nostalgia, até porque a presença do discurso rítmico assinado por Tom Skinner imprime inevitavelmente às canções um sentido de rumo próprio, mesmo que desenhado ao lado de pontos de partida que convocam memórias. Mas há de facto entre as canções deste álbum do coletivo The Smile uma série de expressões que não escondem raízes que podemos encontrar em discos dos Radiohead, sobretudo os da segunda metade dos anos 90 e a viragem do milénio. Os arranjos valorizam depois a vastidão do leque de possibilidades dessa mesma identidade, por vezes destacando (mais do que em títulos deste século) a eletricidade das guitarras, noutras procurando arranjos de eloquente carga cinematográfica, porém aqui também mais vezes transportando ecos dos tempos de The Bends Ou OK Computer do que dos quadros (não menos belos) de um Moon Shaped Pool.

Pequeno monumento à expressão de identidades autorais, A Light For Atracting Attention não é nem um eventual ajuste de contas com o passado nem um recuo criativo. É, antes, a expressão de vozes criativas que, desta vez, exploram possibilidades diferentes para caminhos achados dentro do seu próprio DNA… Há aqui vertigem, desafios (alguns bem complexos) para sons e formas, surpresas… Na verdade, este quase podia ser um álbum dos Radiohead… Quase…

A Light For Atracting Attention”, dos The Smile, está disponível em 2LP, CD e nas plataformas de streaming, numa edição da XL Recordings.

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