Lamont Dozier (1941-2022)

Desapareceu, aos 81 anos, Lamont Dozier, natural de Detroit e um dos elementos da equipa Holland Dozier Holand que assinou êxitos para nomes como as Supremes, Martha & The Vandellas, Four Tops ou Marvin Gaye. Texto: Nuno Galopim

Até à tomada de consciência popular de um novo paradigma “autoral”, que ganha visibilidade em meados dos anos 60 com o impacto de Bob Dylan ou das duplas Lennon/McCartnery e Jagger/Richards, não deveria ser comum haver questões artísticas maiores num debate sobre se uma voz ou grupo iria gravar uma versão ou um original. Ambas eram (e são) situações válidas e o sucesso de uma mão cheia de canções podia mesmo acabar por dar visibilidade maior a autores que nunca (ou raramente) cantavam as canções que compunham. Para que não haja dúvidas, ainda hoje há músicos que mais vezes surgem nos bastidores das canções do que sob os focos das atenções de quem as canta e tanto Linda Perry (ex-4 Non Blondes) como Stephen Duffy (Lilac Time) são eventuais exemplos de autores com maior volume de êxitos noutras vozes que não as suas. Porém, e apesar de (re)conhecidos, não alcançaram o patamar de visibilidade que outrora era dado a grandes autores, de Cole Porter aos irmãos Gershwin, passando pela dupla Rogers & Hammerstein ou por Stephen Sondheim… Pois a tradição vem daí mesmo… do teatro musical. E, nas suas primeiras décadas de vida, a cultura pop(ular) que emegia numa nova idade do disco, assimilou o poder de comunicação da noção de sucesso que outrora cabia aos autores da música criada para o teatro (processo que na verdade não está muito longe das dinâmicas dos criadores de canções que trabalhavam em escritórios no mítico Brill Building, em Nova Iorque). Por isso mesmo, e apesar de ter em “casa” alguns nomes que se afirmariam como autores de absoluta referência – um deles chamava-se Marvin Gaye – a Motown cedo entendeu que comunicar o nome dos seus autores de sucesso era por vezes tão útil ferramenta de marketing quanto o era a apresentação dos títulos das novas canções e o nome dos intérpretes. Mitificados, assim, através de uma torrente de sucessos, a equipa formada por Lamont Dozier e os irmãos Brian e Eddie Holand (apresentada, em jogo de simetria, como Holland Dozier Holland) tornou-se tão marcante na história da editora quanto os artistas cujos nomes surgiam em destaque nas capas ou etiquetas dos seus discos (nos EUA os singles, vale a pena lembrar, eram por essa altura essencialmente apresentados em envelopes com os logos da editora, portanto sem capa, e com os nomes e títulos devidamente referidos nas etiquetas). Nascido em Detroit em 1941 e apresentado pela mulher (uma secretária na Motown) aos irmãos Holland quando, até aí, apesar de ter passado pelos Romeos e gravado primeiros discos, não muito mais fizera profissionalmente nos escritórios de uma editora música mais do que limpar o chão com uma esfregona (e numa outra etiqueta), Lamont Dozier foi estrela maior destes tempos. Deixou-nos esta semana, aos 81 anos.

Nascido num bairro desfavorecido da cidade de Detroit (conhecido contudo por ter solo fértil), conheceu uma também ainda jovem Aretha Franklin, numa altura em que ambos, como tantos jovens negros da sua geração, descobriam na música que se escutava na igreja primeiros estímulos para voar depois para mais longe. Por si mesmo aprendeu a tocar piano e teve primeiras experiências de sucesso menor. Houve um episódio, com os Romeos (onde tinha a voz principal) que chamou as atenções da Atlantic Records. Foi com a canção Fine Fine Baby, mas o muito jovem Dozier, então com 16 anos, respondeu que só assinaria com a editora se gravassem de imediato um álbum… Não aconteceu. E, findos os dias de escola, deu por si na sua, a engraxar sapatos. 

O encontro com os irmãos Holland chegou pouco depois. E Dozier começou logo, com os dois irmãos Holland, a trabalhar em canções que passaram por outras etiquetas antes do voto de confiança de Berry Gordy (o patrão da Motown) em 1962. Pouco depois conquistavam primeiros momentos de sucesso com o grupo vocal Martha & The Vandellas (entre os quais Come and Get These Memories, Heatwave ou Quicksand), vincando depois o estatuto de popularidade com uma série de singles de impacto global que criaram para as Supremes, entre os quais encontramos clássicos como Where Did Our Love Go, Baby Love, Stop! In The Name of Love, You Keep Me Hanging On ou You Can’t Hurry Love. O seu rol de feitos passa por Can I Get a Witness de Marvin Gaye, Reach Out I’ll Be There dos Four Tops ou This Old Heart of Mine dos Isley Brothers, tendo a frutuosa colaboração da equipa de autores ajudado a definir e vincar a própria identidade do som da Motown. Dozier e Brian ocupavam-se essencialmente dos arranjos e produção, deixando para Eddie as letras e o acompanhamento da performance vocal dos intérpretes. 

Depois de conflitos internos, que caracterizaram a história da Motown na reta final dos anos 60, a equipa fragmentou-se, tendo Lamont Dozier então mantido por um lado um trabalho como autor, juntando contudo à sua obra uma carreira em disco como intérprete. Não foi de estranhar que tivesse escolhido Out Here On My Own como título para o seu álbum de estreia a solo, em 1973. 

Os sucessos criados na etapa de ouro da Motown tiveram novas vidas em vozes e bandas que foram dos Soft Cell a Kim Wilde, de Rod Stewart a Phil Collins. E com. Este último Dozier acabaria até por se juntar para, em 1988, criar Two Hearts, canção que acabaria por lhe dar um novo momento de sucesso maior. Lamont Dozier manteve-se sempre ativo. Chegou a trabalhar para o cinema e os palcos. O seu mais recente álbum data de 2018. 

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